A Feira de São Cristovão, no Rio de Janeiro, completa setenta anos em 2015. Hoje conhecida como Centro de Tradições Nordestinas Luiz Gonzaga, a feira foi criada em 1945, no contexto de encerramento da Segunda Guerra Mundial e da euforia causada pela volta dos pracinhas brasileiros que lutaram na Europa.

Na ocasião, o cordelista Raimundo Santa Helena leu o cordel “Fim da Guerra”, enquanto nordestinos radicados no Rio armaram suas esteiras e barracas para negociar temperos, comidas e artesanatos do Nordeste, pertinho da rodoviária em que diariamente outros nordestinos chegavam para tentar a sorte.

A feira e o cordel são, portanto, indissociáveis, conforme a História ensina.

A literatura de cordel chega ao Brasil com a colonização portuguesa e guarda raízes no século XVI, quando a impressão de relatos orais se popularizou na Europa. Os folhetos eram, então, negociados nas feiras portuguesas em barbantes ou cordéis.

A arte do cordel espraia-se no Brasil, sobretudo, nas feiras do Nordeste, e tem estruturas poéticas diversas. Sua forma mais comum é a sextilha; com estrofes de seis versos de sete sílabas. A sonoridade das sextilhas faz com que elas sejam também muito utilizadas em cantorias, no ritmo do baião.

Dois estilos comuns ainda nas cantorias e cordéis são o martelo agalopado, com estrofes de dez versos decassílabos; e o galope à beira mar, com estrofes de dez versos de onze sílabas.

Dos grandes nomes da poesia popular do Brasil, o mais inusitado certamente é o de Zé Limeira. Paraibano de Teixeira, nascido em 1886, ele é – mais que um personagem histórico de biografia pouco conhecida – um mito do universo fabuloso da literatura de cordel e das cantorias de feira.  Brincando com a História e revirando os fatos em fantasias delirantes, Zé Limeira foi uma espécie de surrealista sertanejo; criador de palavras potentes: poeta do absurdo.

Há quem diga que grande parte dos versos atribuídos a Zé Limeira não teriam sido de sua autoria. Há quem duvide de sua imagem popularizada; a do cantador com roupas extravagantes, óculos escuros, pulseiras e anéis enormes. Muito desse mistério circula em torno do livro Zé Limeira, o poeta do absurdo; obra do paraibano Orlando Tejo. Para alguns, Tejo apresentou Zé Limeira ao mundo; para outros, criou uma lenda a partir de fragmentos da história.

Zé Limeira usava muito a septilha (estrofe de sete versos) e a décima (estrofe de dez versos, com dez ou sete sílabas).  A ele, por exemplo, são atribuídos os seguintes versos:

PELEJA-DO-CEGO-ADERALDO-2“O Marechal Floriano / Antes de entrar pra Marinha / Perdeu tudo quanto tinha / Numa aposta com um cigano / Foi vaqueiro vinte ano/ Fora os dez que foi sargento / Nunca saiu do convento / Nem pra lavar a corveta / Pimenta, só malagueta / Diz o Novo Testamento!”

Outro nome famoso é o de Cego Aderaldo, poeta do Crato, nascido em 1878. Improvisador lendário, Aderaldo teria descoberto a destreza para a rima depois de perder a visão em um acidente e sonhar em versos.  Andarilho da viola, saiu pelos sertões desafiando cantadores para pelejas emblemáticas nas feiras de mangaio.

De todos os embates, o mais famoso foi travado contra Zé Pretinho da Varzinha, violeiro arisco do Piauí, em um jogo contínuo de ataques e defesas. De repente, como um verso de serpente sibilando os infinitos, Cego Aderaldo deu o bote de cascavel na sílaba certa e ganhou a peleja:

“Existem três coisas / Que se admira no sertão: / O cantar de Aderaldo / A coragem de Lampião / E as coisas prodigiosas / Do padre Cícero Romão.”

Fabião Hermenildo Ferreira da Rocha, o Fabião das Queimadas, nascido em 1848 em Santa Cruz, no Rio Grande do Norte, é outro nome marcante da poesia popular, a começar pela história de vida: foi escravo e conseguiu comprar a alforria cantando com sua rabeca em casas abastadas.

Sem conhecer a formalidade das letras, compôs o “Romance do boi da mão de pau”, obra magistral de 48 estrofes sobre o sertão profundo e armorial das lidas do gado. O poema foi recriado por Ariano Suassuna, que considerava os versos do analfabeto Fabião dos mais bonitos da nossa literatura:

“Adeus, Lagoa dos Velhos / Adeus, Vazante do gado / Adeus, Serra Joana Gomes / E Cacimba do Salgado / Assim vai-se o touro manco/ Morto, mas não desonrado.”

01718f0d784ff3aa82bb97e004d8f742728 (1)Fabião morreu em 1928, no sítio Riacho Fundo, na Lagoa dos Velhos, vítima de uma furada de macambira.

A lista de grandes poetas e cantadores da poesia popular brasileira é extensa. Nomes como os de Leandro Gomes de Barros, Patativa do Assaré, Mestre Azulão, Raimundo Santa Helena, Zé da Luz, Firmino Teixeira do Amaral, Francisco das Chagas Batista, Gonçalo Ferreira da Silva, Melchíades Ferreira, Manuel Camilo dos Santos, Severino Milanês, Inácio da Catingueira, Silvino Pirauá, Romano do Teixeira, Oliveira de Panelas, e de tantos outros, marcam o imaginário fabuloso das pelejas versejadas, da poesia popular e dos folhetos do Brasil.

De minha parte, filho e neto de nordestinas e nordestinos, só vigora mesmo a serenidade de saber que as raízes de onde venho são as asas que me conduzem para onde quero ir. Posso até ir para longe, mas eu sempre volto pra viver na feira, é claro.