E então, como diria meu amigo Bernardo Araújo, para a surpresa de ninguém, a Velha Manga vai homenagear Maria Bethânia no próximo carnaval. Boa. O fato de não ser surpreendente – uma vez que a ideia já circulava com força nos bastidores – não tira o mérito da escolha. Bethânia é uma diva da MPB, talentosíssima e merecedora da homenagem. Entra para a lista de nomes importantes da cultura brasileira lembrados na avenida pela verde e rosa.
Na verdade, é um bis. Maria Bethânia, como parte dos Doces Bárbaros, foi aplaudida pela Marquês de Sapucaí em 1994, ao lado dos também baianos Gal, Caetano e Gil. Será que o voo solo de Mangueira e Bethânia em 2016 abrirá as portas e as mentes de outros carnavalescos e outras escolas para, separadamente, falar de Gal, Caetano e Gil em futuro próximo? Não resta dúvida de que são temas férteis.
A Estação Primeira talvez seja a agremiação que melhor se relaciona com enredos personalizados, com homenagens, tributos. Um dos grandes sambas de sua história é dedicado a Monteiro Lobato (“O Mundo Encantado de Monteiro Lobato”, 1967). Um dos títulos mais marcantes, o supercampeonato de 1984, também veio assim: sim, ela tinha Braguinha. E muito mais. Mostrou ao mundo o que Caymmi, a Bahia e a Mangueira têm. Reinou com as palavras de Drummond no bicampeonato de 1987. Triunfou novamente desfilando com o seu guri, Chico Buarque, em 98.
Se nem sempre levantou o caneco fez a gente cantar, rodar a baiana e levantar a poeira do chão, com Chiquinha Gonzaga. Fez todo mundo ir atrás do trio elétrico, com os já citados Doces Bárbaros. Dedicou um poema a Tom Jobim dizendo que deixaria saudades quando o carnaval chegasse ao fim.
Mais recentemente a Manga protagonizou mais um daqueles desfiles que só ela sabe fazer. Sem aquele poderio econômico de muitas adversárias, mas com um chão incomparável. Foi em 2011, com o “filho fiel” Nelson Cavaquinho – ao alto do post, em vídeo feito pelo editor deste espaço. Naquele ano o título ficou com um enredo homenagem – a Beija-Flor, de Roberto Carlos -, a Vila fez bonito, o Salgueiro estava plasticamente perfeito (as imperfeições vieram da reincidente prática salgueirense de brigar com o cronômetro e as dimensões da avenida), a Tijuca brigou pelo bi com competência e os truques cinematográficos de Paulo Barros.
Porém, pelo menos para mim, à beira da pista, ninguém transmitiu a alegria do que cantava, do que contava, como fez a Mangueira. Se o título daquele ano tivesse ido parar lá pelas bandas da Visconde de Niterói, estaria bem entregue (e que se danem as justificativas frias!). Abertos os envelopes – e lembrando que Ilha, Portela e Grande Rio não foram julgadas – a Estação Primeira terminou em honroso terceiro lugar.
Para o ano que vem, ouvindo as composições concorrentes do Império Serrano para “Silas canta Serrinha” (aliás, boa safra) me peguei tentando entender como a Mangueira trocou o centenário de Cartola pelo frevo de Recife, em 2008. $$$$$$im, não precisam me lembrar o porquê… [1]
Velha Manga, te peço… Você, que melhor que ninguém sabe homenagear as grandes figuras da cultura nacional, nunca é tarde. Queremos ver Cartola na avenida. Um dia, vai…
P.S. Em 1983, em “Verde que te quero Rosa”, o poeta maior da Estação Primeira, é lembrado por ter sido o responsável pela escolha das cores da escola. Mas não foi exatamente uma homenagem a ele, como conferimos na letra do belíssimo samba enredo de Heraldo Farias, Geraldo das Neves e Flavinho Machado.
“Verde que te quero Rosa, Semente Viva do Samba”
[N.do.E.: à época do centenário de Cartola um dos diretores da escola – hoje na Liesa – trabalhava comigo. Na ocasião ele me disse que “Cartola não dava enredo”, porque não interessaria à Mangueira mostrar a contribuição dele à música popular brasileira e “ele ficou 30 anos afastado da escola”. Discordo profundamente, mas faço o registro. PM]
Imagens: O Globo e Arquivo Ouro de Tolo