Eu venho insistindo junto a amigos petistas que o PT e o governo precisam fazer uma autocrítica. Menos pelo que vem sendo acusados, mais pelo que sabem que poderiam ser – e não são.
Eu não preciso, nem posso fazer autocrítica quanto ao PT, porque não sou petista e a última vez que eu votei foi na primeira eleição do Lula. Depois disso, estive sempre fora do meu domicílio eleitoral. Esperava ficar nessa situação ad aeternum. Mas o antipetismo tomou uma forma tão tacanha que eu farei questão de transferir meu título para São Paulo para o ano que vem. Mas, para ser sincero, e bem por conta desse antipetismo rastaquera, faço campanha pelos candidatos majoritários do PT desde Dilma I. Apesar do Temer e do PMDB.
Agora, vejamos. Seria possível ter um mínimo de governabilidade sem carregar nas costas o PMDB e tudo que ele representa? Poderia ser, caso as forças à esquerda do PT, que cobram uma ação política mais firme, tivessem como dar sustentação a esta ação política. Aí, se o PT tivesse preferido outras companhias, seria uma crítica razoável. Mas vamos supor que o PT optasse fazer alianças somente à esquerda. Isso acrescentaria o quê à base parlamentar? Dois votos, três? A esquerda toda votou contra mexer na maioridade penal, confere? Qual o resultado? Agora, imagina se, nos últimos 12 anos, esta tivesse sido a base do governo. Quais os avanços que não foram alcançados por conta do PMDB no governo teriam sido alcançados por esta base? E quais foram conquistados, e não teriam sido conquistados?
Números, meus caros, estas entidades chatas que nos contrariam as ideias. Números. O PMDB é um bom parceiro? Ao menos leal? Tem alguma pauta progressista? A resposta é sempre NÃO. Mas é fato que o PMDB, por barganha, pelos piores interesses, passou 12 anos votando com a base governamental. Votando coisas que viabilizaram uma década de combate à fome, uma política externa menos dependente, os BRICS, o ganho salarial contínuo, o avanço em conquistas trabalhistas, o crescimento do mercado interno, a defesa das empresas nacionais em mercados externos, a multiplicação e diversificação do movimento de comércio exterior do Brasil, o crescimento econômico, a escalada no ranking do PIB, o pleno emprego, a diminuição do fosso social, o crescimento da produção agrícola, a estabilidade da moeda, a migração do perfil econômico para o setor de serviços, o investimento em educação, as mudanças na infraestrutura, os avanços na exploração de recursos minerais estratégicos, entre outras coisinhas.
Poderia ter sido feito mais? Sem dúvida. Sempre se pode. Mas o fato é que a comparação direta com tudo que havia sido feito antes nestes assuntos é favorável ao período petista. De novo: números. É objetivo.
Portanto, qualquer alternativa mais à direita foi menos eficiente. Resta saber se há alguma alternativa viável à esquerda. Eu tenho 50 anos e, em 40 deles, não vi nenhum governo de esquerda, centro-esquerda, centro-centro-esquerda, centro-minimamente-progressista ou nada do tipo chegar ao poder no Brasil. Talvez porque exista uma esquerda, da qual o PT já fez parte, que se recusa a negociar seus “princípios”, seu mundinho dourado e perfeito, sua utopia delivery. Então, não chega ao poder. Não chegou nunca, percebe? E, porque não chega ao poder, não pode ser julgada, não se contamina pelo poder, não é acusada de ter “um projeto de poder”, nada. É uma esquerda teórica. E, como tal, inócua. Nunca fez nada, só diz o que faria num mundo perfeito em que Deus a entronasse no poder, sem parlamento, negociação ou concessões.
Assim é fácil, porque não há como atacar este mundo perfeito, senão que ele é pura ilusão. Enquanto esta esquerda escreve livros, troca e-mails e imagina o mundo, a direita construiu o Brasil no qual nós vivemos.
Mas se a esquerda se desloca um pouco ao centro, ela tem “um projeto de poder”, como se isso fosse um pecado, como se isso não fosse da natureza de qualquer projeto político que não seja meramente masturbatório. Ora, se a esquerda não tem projeto de poder, lamento, mas lembro que só com poder se pode fazer algo. Se o PT tem um projeto de poder, e se é a coisa menos à direita que se mostra, eu prefiro este projeto do que o projeto do PSDB, do DEM ou do que sobra do PMDB. Isso, para falar no caminho democrático, que é o único que eu admito.
Eu passei 40 anos da minha vida esperando que a fome fosse combatida, que o fosso social fosse diminuído, que a massa salarial tivesse ganhos reais constantes, que houvesse mercado consumidor interno. Eu não passei tempo algum sonhando com o fim do capitalismo, com a revolução trotskista, com a moralização da política. Não perco tempo com as utopias, eu prefiro investir nos ganhos reais e possíveis. E quem me prometeu, cumpriu a missão. E eu quero que continue a fazer isso.
No meio da maior crise econômica global que a nossa geração poderia viver (e, espero, nossa, de nossos pais, nossos filhos e netos), o Brasil conseguiu crescer com distribuição de renda. Os economistas todos diziam que era impossível crescer e distribuir ao mesmo tempo, mesmo em tempos de bonança. O Brasil fez isso em meio à crise. Se alguém tiver um plano seguro e consistente de acelerar este processo dentro da normalidade democrática, conte comigo.
Se alguém souber como fazer isso sem o PMDB, sem forças reacionárias, limpando a política, regulando a Globo, sem inflação alguma, crescendo mais que a China nos bons anos, sem comprometer-se com o capital especulativo e rentista, sem violência, sem ajustes pelo caminho, estamos juntos. Eu vivi sob um regime ditatorial, eu vivi sob uma democracia neoliberal, eu vivi sob um governo atual com pensamento keynesiano. Eu experimentei as faces possíveis do capitalismo democrático representativo. Eu sei quem me deu mais, quem deu mais ao País. Se eu tivesse dúvidas, consultaria as estatísticas. Não significa que seja o fim da história, que não se possa caminhar ainda mais adiante. Estou sempre aberto a sugestões, mas não quero retroagir a nada que eu tenha experimentado antes.
Só resta lembrar que a população deste País é declaradamente conservadora e de direita. 60% dos eleitores se declaram de direita ou centro-direita. Se alguém souber como ampliar avanços sociais sem estes eleitores, sem as forças político-partidárias que os representam, eu acho mágica ou golpe, mas gostaria de ouvir como.
Parabéns Affonso pelo texto, ótima redação e quase inspiradora quanto aos ideais. Porém, seria um perfeito texto se não fosse tão misericordioso, ou talvez tão singelo ao atrelar o inocente PT ao “diabólico” PMDB, ou talvez tão esquecido quanto aos ganhos reais de quem construiu o real e trouxe o Brasil para uma nova realidade, a qual permitiu até mesmo a pueril estratégia e aparente distribuição de renda, que já se foi por tanta arte de desgoverno e ambição.
Enfim, continuemos a sonhar, Alices. Voltando a REAL idade, estamos bem piores do há 12 anos atrás. Fato.
Abcs