Desde o início das vendas dos ingressos para os Jogos Olímpicos do Rio 2016, o voleibol destacou-se como a modalidade esportiva mais procurada. E, finalizada a primeira etapa de vendas, o Comitê Organizador do evento noticiou que onze sessões do vôlei já estão esgotadas. Dentre elas as finais, bem como as disputas de bronze e as semifinais, tanto do masculino quanto do feminino.
Sem dúvidas, a imensa procura é fruto das conquistas recentes das seleções masculina e feminina de vôlei, sobretudo a partir dos anos 90. E, no que tange às Olimpíadas, é inegável que o vôlei tem o status de esporte nacional. Contudo, para atingir o patamar de esporte olímpico por excelência, o vôlei brasileiro percorreu um longo caminho de frustrações e vitórias.
Curiosamente, o vôlei, embora inventado ainda no final do século XIX, estreou somente em 1964 como modalidade olímpica. As primeiras edições tiveram o amplo domínio da então União Soviética (até hoje recordista em medalhas de ouro no esporte). A ex-Tchecoslováquia, Polônia e Japão também foram países com presença frequente no pódio. Este último destacou-se especialmente no vôlei feminino, graças à agilidade das jogadas e à disciplina tática da equipe asiática.
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Já as seleções masculina e feminina do Brasil colecionavam resultados modestos. Até 1980, por exemplo, a equipe masculina do Brasil tivera o melhor desempenho exatamente em Moscou (1980), quando alcançou a quinta posição. Quanto às mulheres, as posições eram ainda menos significativas, como os sétimos lugares de 1980 e 1984, em Los Angeles. Nessa época, o cenário latino-americano era dominado pelas seleções de Cuba, no masculino, e do Peru, no feminino.
Contudo, ainda na década de 1970 foi pavimentado o caminho que levaria o vôlei aos resultados expressivos alcançados nas décadas seguintes. É consenso de que a partir da gestão de Carlos Arthur Nuzman a frente da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV), iniciada em 1975, o esporte obteve maior profissionalização, o que possibilitou a ascensão do selecionado nacional já nos anos 80. No ano de 1982, por exemplo, a equipe masculina de vôlei do Brasil alcançou um inédito segundo lugar no Campeonato Mundial, sendo derrotada na final pela extinta União Soviética.
A exitosa campanha na competição mundial motivou a realização do “Grande Desafio”, em 1983, que reuniu novamente as seleções brasileira e soviética para uma série de amistosos no Brasil. O jogo principal, ocorrido no Maracanã, teve um público recorde de mais de 95 mil espectadores, ratificando a popularidade do esporte no país.
Diante de resultados significativos, o time nacional masculino despontou como um dos favoritos ao ouro nas Olimpíadas de 1984, sobretudo em virtude do boicote da União Soviética aos Jogos realizados em território norte-americano. Na primeira fase, o Brasil derrotou os donos da casa por um acachapante 3×0, aumentando ainda mais a expectativa em torno de uma inédita medalha de ouro.
Cinco dias depois houve um novo encontro entre as duas seleções, desta vez valendo o lugar mais alto do pódio. Todavia, a seleção brasileira foi surpreendia por uma atuação impecável dos Estados Unidos e foi derrotada em sets diretos. O selecionado de 1984 ficou marcado como a “Geração de Prata” e imortalizou nomes como Montanaro, Bernard, William, Amauri e o futuro técnico Bernardo Rezende, o Bernardinho – reserva de William naquela campanha.
A “Geração de Prata” representou a ascensão definitiva do selecionado masculino à elite do vôlei mundial, cujo ápice foi atingido oito anos depois com a conquista da medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Barcelona. A vitória dos comandados de José Roberto Guimarães sobre a Holanda garantiu o primeiro ouro do Brasil em um esporte coletivo e consagrou a geração espetacular de Marcelo Negrão, Maurício, Giovani, Carlão e Paulão.
Ainda nos anos 90, o Brasil teve o desabrochar de uma talentosa seleção feminina, que protagonizou duelos épicos com a maior equipe da história do vôlei feminino: a seleção de Cuba, da fenomenal Mireya Luís, que liderou seu país para um inédito tricampeonato olímpico (1992-1996-2000). Em que pese o domínio cubano, as meninas do Brasil conquistaram duas medalhas de bronze, nas Olimpíadas de Atlanta (1996) e Sidney (2000), alçando também a seleção feminina à elite do esporte. Com efeito, o ouro feminino parecia uma questão de tempo.
Nas Olimpíadas de Atenas, em 2004, o Brasil iniciou os Jogos com forte expectativa de conquista do ouro tanto no feminino quanto no masculino. Contudo, na semifinal feminina, a equipe brasileira foi derrotada pela Rússia, numa partida marcada pelos cinco match points desperdiçados pelas brasileiras no terceiro set. A partir deste revés, as jogadoras brasileiras foram rotuladas pejorativamente de “amarelonas” e “pipoqueiras”, por terem sofrido inacreditável derrota. Com a moral abalada, a seleção sequer repetiu o resultado das Olimpíadas anteriores e ficou numa incômoda quarta posição. [1]
Melhor sorte teve a seleção masculina que fez uma campanha irrepreensível e derrotou na final os grandes rivais italianos, consagrando a geração de Giba, Gustavo, Dante, do líbero Serginho, do excepcional levantador Ricardinho e do técnico Bernardinho, que vinte anos antes fizera parte da “Geração de Prata”.
A primeira década do século XXI desenhava-se para um amplo domínio do selecionado masculino em nível mundial. Neste período, o Brasil ultrapassou o número de conquistas da Itália na Liga Mundial e venceu ainda dois campeonatos mundiais, em 2002 e 2006. Parecia que a terceira medalha de ouro olímpica não tardaria a chegar.
Entretanto, um ano antes dos Jogos Olímpicos de Pequim, a seleção masculina de vôlei sofreu uma baixa irreparável. Em desentendimento até hoje não esclarecido, o levantador Ricardinho foi cortado pelo técnico Bernardinho. E, embora a seleção masculina tenha chegado à final, a ausência de Ricardinho foi sentida e o Brasil foi derrotado pelos norte-americanos, ficando com a medalha de prata.
Por outro lado, esta mesma edição dos Jogos Olímpicos marcou a redenção do vôlei feminino. Numa atuação irrepreensível, as brasileiras conquistaram o tão sonhado ouro olímpico sobre as norte-americanas, tendo perdido somente um set em toda a competição. O técnico José Roberto Guimarães (foto ao lado) foi o comandante das meninas e repetiu o feito de 1992, quando liderou a conquista do ouro do vôlei masculino em Barcelona.
A consagração das meninas viria quatro anos mais tarde, nas Olimpíadas de Londres (2012). Depois de uma primeira fase desastrosa, onde só se classificou devido a uma combinação de resultados, o Brasil precisou enfrentar já nas quartas de final a então invicta e temida seleção russa, da gigante Gamova. Poucos acreditavam no sucesso da seleção brasileira, sobretudo por conta da decepção da primeira fase.
Porém, a equipe do Brasil conseguiu o imponderável e, numa das partidas mais sensacionais de toda a história dos Jogos Olímpicos, bateu a seleção russa por 3×2. Vale frisar que as brasileiras precisaram salvar seis match points no tie-break, tendo vencido a última parcial por 21×19. Após o drama contra a Rússia, o selecionado nacional ganhou a confiança necessária para mais uma vitória olímpica, que foi conquistada novamente sobre as norte-americana.
E, se em 2004 a seleção feminina conviveu com as ácidas críticas após a derrota contra a Rússia, em 2012 foi a vez de a equipe masculina sofrer com estigma de perdedores. O Brasil enfrentou a seleção russa na final olímpica, adversário já conhecido e derrotado pelos brasileiros na primeira fase da competição. A final caminhava para mais uma vitória em sets diretos, com relativa tranquilidade.
Entretanto, a seleção brasileira perdeu dois match points no terceiro set e sofreu uma histórica virada, capitaneada pelo central Muserskiy, gigante de 2,18, que foi deslocado para a posição de oposto e marcou inacreditáveis 31 pontos sem que o selecionado brasileiro esboçasse uma forma de pará-lo. A atuação do jogador foi determinante para o primeiro ouro da Rússia no vôlei, já que as conquistas anteriores remontam à extinta União Soviética.
Para 2016 o Brasil terá o apoio da torcida para a conquista do ouro tanto no feminino quanto no masculino. Entretanto, a missão não será fácil. Embora as meninas sejam as atuais bicampeãs olímpicas, terão a forte concorrência da seleção norte-americana, que conquistou os campeonatos mundial, o Grand Prix e os Jogos Pan Americanos. E, no masculino, a seleção também tem amargado inúmeros reveses, como o Campeonato Mundial e a precoce eliminação da última edição da Liga Mundial, realizada no Rio de Janeiro. As partidas serão realizadas no ginásio do Maracanãzinho.
Conquanto os últimos resultados não sejam encorajadores, não se pode olvidar da imensa capacidade de superação dos nossos times de vôlei. Vale ressaltar ainda que as nossas seleções são detentoras de quatro títulos olímpicos, três medalhas de prata e duas de bronze. Um retrospecto de respeito e que ratifica nossa condição de país do vôlei.
[N.do.E.: vale lembrar que aquela seleção tinha problemas internos. A levantadora Fernanda Venturini, esposa do técnico Bernardinho, discutia abertamente táticas com o marido durante a competição, entre outras coisas. Tanto que muitos analistas avaliam que a não convocação dela foi decisiva para o Ouro de 2008. PM]
Imagens: Ouro de Tolo, Uol e Viva Produtora
https://www.youtube.com/watch?v=HUFj2r755NE