Que o atletismo é O esporte olímpico, acho que é senso comum.
Quando ele começa, o mundo do esporte vira seus olhos aos lindos estádios com suas pistas, caixas de areia, colchões e etc… A Maratona em seu próprio nome já traz esse simbolismo à vera do suor dos campeões. O ideal olímpico é tatuado no atletismo. Mais alto, mais forte, mais rápido… Nada se compara a esse esporte. As douradas ali conquistadas parecem tem um pouco mais de valor. Já ouvi de quem milita nessa área que o fato de ser amplamente democrático, de igualar pobres e ricos; negros, brancos e amarelos faz com que isso seja mesmo o Olimpo do esporte mundial.
Mas claro, que como todos os outros esportes olímpicos, o suprassumo das disputas, a prova que mais chama a atenção, aquela que o mundo, mesmo que rapidamente, para literalmente para ver são os 100 metros rasos. E obviamente as Olimpíadas se encarregaram de rechear a história com personagens épicos e suas conquistas fantásticas.
Introduzido nos jogos desde 1896, quando foi realizada a primeira versão moderna dos Jogos, no mítico Estádio Panathinaiko. O tempo em torno de 11,8s do húngaro Alfred Hajos, que também venceria os 1200m, o fez o primeiro campeão olímpico. A prova teve rápida evolução na passagem para o século XX, tanto que em Paris 1900 já se registrou um tempo de 11,0 e o americano Frank Jarvis iniciava um amplo domínio do país na prova. Durante 32 anos, tivemos desempenhos muito bons, sempre entre 10.5 e 11s dos medalhistas de ouro.
Mas em Los Angeles 1932, Eddie Tolan se torna o primeiro afro americano a vencer a nobre prova, com 10,4, quase meio segundo abaixo do medalhista anterior. A partir daí a prova ganharia outro status, pois em 1936 em Berlim, simplesmente o mundo assistiria uma das glórias do esporte… Dos mais sensacionais momentos do olimpisimo…
A vitória de Jesse Owens em frente a Hitler em 1936
O desafio ao Fuhrer Adolf Hitler. Ao vencer as provas no qual era o especialista, especialmente as de velocidade, Jesse Owens protestou contra a propaganda pangermanista de Hitler, racista ao extremo. Ao receber uma de suas quatro medalhas ao invés de olhar para a tribuna onde estava Hitler, ergueu o braço com uma luva preta e virou para o COI – em claro sinal de protesto. O Fuhrer se retirou do estádio olímpico e não cumprimentou mais nenhum membro do atletismo americano, mesmo tendo sido alertado pelo Comitê Olímpico. Os feitos de Owens não foram apenas no campo político. Foi grande atleta americano e inspirou uma penca de grandes velocistas para os próximos jogos.
A barreira dos 10s nos 100 sempre foi perseguida e ela só foi quebrada em 1968 na Cidade do México. Aproveitando a menor resistência do ar, face à altitude, Jim Hines correu a inacreditáveis 9,95s para a glória. Pela primeira vez, a apurada técnica dos 46 passos também era superada para 45, considerado à época uma prova perfeita. Para se ter uma ideia do feito do americano essa marca só foi batida em 1983 pelo compatriota Calvin Smith, na preparação para Los Angeles 84.
A grande performance de Carl Lewis em 1984
Nesses jogos, outro fascinante personagem escreveu sua história de forma definitiva no olimpismo. Carl Lewis fez aquilo que muitos consideravam impossível. Vencer os 100, os 200, o salto em distância e o revezamento 4x100m. Igualou o mito Owens. E encheu suas prateleiras com 10 medalhas olímpicas. Correu os 100 em 84 e venceu de forma arrebatadora. Ao seu lado no pódio, terceiro colocado, uma das figuras mais controversas da história do esporte, autor da maior, talvez, vergonha que o olimpismo já viu.
Ben Johnson ganha a final dopado em 1988
Ben Johnson. Motivado pela medalha, Johnson se submeteu a um rigoroso programa de treinos e dopagem que deixariam o mundo embasbacado. No ciclo olímpico colecionou vitórias sobre Lewis. No mundial em Roma os ânimos se acirraram e Carl começou uma guerra de nervos que teria seu ápice na grande final em Seul 88. Perplexo o mundo assistiu Ben atropelar os cronômetros e rasgar as planilhas. Nove e oitenta e três… Isso mesmo: 9,83! Jamais alguém correu tão rápido. E sim, jamais alguém se preparou tanto e de maneira tão sórdida para a glória olímpica. Saiu pelas portas dos fundos, com olhar assustado. Lewis herdou o ouro e deitou e rolou em cima da vergonha do canadense.
Em 1996, nos jogos do centenário o mundo viu Donovan Bailey devolver ao Canadá a primazia da corrida mais rápida. Com 9,84, numa prova espetacular, arrebatou o ouro, mesmo numa edição onde o principal nome da velocidade foi Michael Johnson, que venceu os 200m e os 400m – fato único na história até então. Os americanos retomaram a liderança dessa prova nos jogos de Sydney 2000 e Atenas 2004, com vitórias previsíveis.
Aí chegamos a Pequim… 2008
Um lindo estádio. Jogos com bilhões de dólares gastos. O cenário perfeito para o nascimento do maior nome da velocidade em todos os tempos.
Aos 21 anos, o jamaicano Usain St. Leo Bolt foi à China com um currículo respeitável. Campeoníssimo nos mundiais juvenis e herdeiro de uma dinastia de grandes velocistas que o pequeno país caribenho produz. Bolt em Atenas 2004 participou de forma tímida. Com o terceiro tempo do ano, o que o credenciaria a uma final aos 17 anos, ele se impressionou demais com o Estádio e toda a cerimônia olímpica.
Nos anos seguintes passou a fazer tempos muito bons tanto nos 100 quanto nos 200. Com 1,96 ele mudou um pouco o estigma de que os velocistas tem que ser homens musculosos. Bem humorado, sempre sorrindo e animado, Bolt trouxe grande humanidade ao sempre tenso ambiente competitivo. Quebrou o recorde mundial meses antes dos jogos e fez do Ninho do Pássaro seu palco principal. Ignorou adversários e fez o melhor tempo da historia para a distancia: 9,69. Bateu o recorde nos 200 e no revezamento 4X100 também. Bolt é um raio… Bolt é um mito.
Carismático percorreu o mundo espalhando simpatia e tempos insuperáveis. Ganha milhões se apresentando e com contratos polpudos, principalmente com a Puma. Em Londres, continuou trilhando o caminho do ouro. Depois de seguidas quebras de recordes nos mundiais, conquistou o bi olímpico nos 100 com 9.63, 0,05 pior que sua inacreditável marca. Bolt virá ao Rio para a glória única. Poucos duvidam que repita o feito. Os parceiros jamaicanos estão loucos para quebrar essas escritas.
Alguém derrota Bolt? Legitimo herdeiro dos grandes… Dos deuses… Que arregalados, olham o raio passar… Como se fosse uma tempestade digna das travessuras de Poseidon.