Nesse mês de agosto faz um ano que apresentei na subprefeitura da Ilha do Governador minha peça de teatro “Eu matei Nelson Rodrigues”, com a cia de teatro paulistana “Calabar”. Naquela ocasião, quando acabou a peça pedi aos políticos presentes mais carinho com a cultura da Ilha do Governador.

Disse que, infelizmente, o morador da Ilha do Governador para assistir a uma peça de teatro tem que sair do bairro porque não há um lugar apto para a prática na Ilha. Não só teatro, mas qualquer movimentação cultural faz o insulano ter que ultrapassar a ponte do Galeão. Falei que por mais que as agremiações carnavalescas sejam importantes para a cultura e história do bairro, não podemos ficar resumidos a elas.

Um ano depois tive peças apresentadas em São Paulo, Ribeirão Preto, Curitiba, Salvador, tive pedidos de autorização para encenações de peças minhas em Vitória no Espírito Santo, novamente Ribeirão Preto, Piracicaba e São Luis no Maranhão e aquela apresentação de agosto de 2014 fica ainda sendo a única de peça minha na Ilha do Governador. No meu bairro.

Estamos desde junho ensaiando uma peça chamada “Dona Carola”, mas a mesma vem apresentando dificuldades que apenas um lugar sem cultura proporciona.

A Ilha do Governador, um bairro cidade com pouco mais de 200 mil habitantes, não tem um teatro pronto para uso, é impressionante. A sua única casa de cultura, a GATIG criada pela grande dramaturga e professora Elbe de Holanda, foi fechada faz alguns anos. O tradicional teatro do colégio Óperon virou depósito e do Lemos Cunha ano passado pediu 5 mil reais para abrir suas portas para uma apresentação de peça minha. Detalhe, o Solar de Botafogo, das atrizes Marieta Severo e Andréa Beltrão pediu 1.300.

E, não sei, mas dizem que o teatro do Lemos também está em péssimo estado.

Lona Cultural Renato Russo (1)A Ilha não deixou de formar atores apenas, ou gente que trabalhe com teatro: deixou de formar cultura. Para apresentar uma peça no bairro resistentes grupos amadores têm que utilizar a Lona Cultural Renato Russo (acima), local mais apropriado para shows e em último caso o auditório da subprefeitura, que utilizei ano passado. O subprefeito Nelsinho Miraldi nos atendeu com todo carinho, mas não é um local próprio para teatro. O palco é estreito, não tem coxias, luz, som, nem camarim.

Para alguns cultura pode ser besteira, mas existem poucos meios mais eficazes para formação de cidadania e inclusão que a mesma. Cultura é sinônimo e irmã da educação e as duas são capazes de modificar uma nação.

Um povo com acesso a educação e cultura não é facilmente manipulado. Conhece seus direitos, deveres, sabe a diferença entre projeto e assistencialismo, estadismo e populismo, sabe quando a mídia informa e deturpa. Um povo educado e culto sabe pensar e não há nada mais perigoso para o sistema, o status quo que um povo que pensa.

Por isso a classe política e as esferas dominantes não investem em cultura e educação.

Os amigos que moram na Ilha do Governador que me desculpem, vão ficar aborrecidos comigo, mas como diz o petroleiro, blogueiro, fanfarrão – e também insulano – Pedro Migão antes de falar uma besteira: “Quem fala a verdade, não merece castigo”.

vol_deserto_584pxEntão vou falar. O insulano, o morador da Ilha do Governador é o típico classe média uma vez retratado pelo William Bonner como “Homer Simpson”. Sim, somos um bando de “Homer Simpson”.

Pela falta de acesso à cultura o insulano se acomodou. Ele já tem essa fama de acomodado e preguiçoso porque detesta sair do bairro; essa acomodação às vezes é até confundida com bairrismo, mas não é e eu me incluo nisso.

Tenho observado desde que entrei no samba essa situação. O sambista da Ilha é o que menos visita outras escolas. O insulano não curte teatro, não curte cultura porque não tem aqui e ele tem preguiça de sair do bairro. O que acontece? Formadas gerações e gerações aculturadas.

Poucos são os grandes artistas saídos ou que moraram no bairro. Rachel de Queiroz, Miguel Falabella, Renato Russo (que na verdade explodiu em Brasília), Elbe de Holanda… Muito pouco para um bairro desse tamanho. O garoto talentoso da Ilha chega um momento que tem que decidir entre estudar, trabalhar ou se sacrificar e buscar seu sonho em um curso na Zona Sul.

A Ilha não forma atores, não forma dramaturgos, não forma diretores, não forma público para teatro. Isso foi nítido com a dificuldade de compreensão de parte do público em agosto do ano passado que não vi em São Paulo.

Em resumo. Não forma cultura.

t-rj-casadeculturaelbedeholanda_rAí ficam abnegados como o professor Gilberto D`Alma, fiel discípulo da tia Elbe e alguns guerreiros que tem ideias como feiras literárias tentando se multiplicar e trazer cultura para o bairro. O trabalho é hercúleo, mas vale a pena.

Passa por um teatro na Ilha. Passa pela vontade política de apoiar a criação de um teatro ou a reforma de um já existente para a criação de arte e cultura no bairro. Valorização de profissionais daqui, surgimento de novos e criação de empregos que um teatro, uma casa de cultura podem proporcionar.

Não podemos ser uma Ilha isolada de cultura e entretenimento. A Ilha pede por arte, pede por um teatro.

A gente não quer só comida.

*Amanhã começa a Semana Olímpica no Ouro de Tolo. Uma semana com os colunistas falando das Olimpíadas que se aproximam daqui a exatamente um ano.

Mesmo que você não curta esportes pense no lado bom. Uma semana sem o Migão falando que a mídia é culpada de todas as trapalhadas do governo.

Foi dada a largada!!

Twitter – @aloisiovillar

Facebook – Aloisio Villar

2 Replies to “Uma Ilha sem cultura”

  1. Parabéns amigo Aloísio pelas palavras sábias e verdadeiras! Obrigado pelas que me dedicou e à grande Tia Elbe!!! A luta não vai acabar!!!

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