O choque pela partida precoce do Luizito me fez lembrar de um momento vivido por mim na quadra do Império Serrano há alguns anos. Era uma tarde inesperadamente refrescante de novembro e a escola promovia uma festa especial com sambas históricos dos anos 80. Quase uma Festa Ploc do Samba Enredo. Iniciativa, aliás, muito legal – e, infelizmente, não repetida.
De repente me deparo com Quinzinho, a voz da minha infância imperiana. Umas cervejinhas a mais, confesso, e eu, que não sou chegado a esse tipo de abordagem, peço uma foto e que ele grave no meu celular o indefectível grito de guerra “Simboooora, Império Serrano!”. Com toda a simpatia do mundo, ele atendeu. Deixou um imperiano feliz e acredito que ele mesmo tenha ficado orgulhoso do reconhecimento. Porque o Quinzinho é a cara de um Império vitorioso e valente, que ia “simbora” pra cima, em busca do título. Não tivemos nenhum outro intérprete tão identificado depois do Roberto Ribeiro. Talvez Nego. Mas o Nego já tinha tido a cara de tantas agremiações antes…
Essa introdução saudosa é também uma homenagem a este cantor que conseguiu a façanha de substituir o insubstituível Jamelão no microfone e no coração mangueirenses. Lembro da primeira vez em que trabalhei na avenida. Na concentração. Carnaval de 1996. E uma das imagens que jamais saíram da minha mente foi justamente o esquenta da Mangueira e toda a soberana presença daquele senhor com os dedos entrelaçados por elásticos e sua voz impressionante. Mangueira, teu cenário é uma beleza, ele entoou. E fiquei imaginando como Jamelão parecia eterno. E quando ele partisse, como seria?
Seria encontrado um novo intérprete (puxador, não!) com DNA verde e rosa. Com aquela marra que encanta, “a escola de samba mais querida do planeta”. Luizito incorporou o espírito mangueirense. Foi um legítimo sucessor do Mestre Jamelão. Agora, lá em cima, chegou a garra, chegou a emoção. E nós, aqui, teremos saudade.
Falando em voz, em intérpretes, em samba de enredo, fiquei de comentar as escolhas da Série A. Tantos textos tão bem escritos e fundamentados neste Ouro de Tolo. Mas darei meus breves, brevíssimos pitacos apenas em cima das versões vencedoras dos concursos. Ia fazer um outro tipo de separação dos sambas. Mas decidi copiar a ideia do Migão e usarei a ordem do desfile. Para uma análise mais profunda vou esperar as versões oficiais, com alterações de letra e melodia por parte de várias agremiações.
Rocinha – Era o melhor possível para um enredo pouco original. Animado, pode proporcionar desfile bem melhor que a Unidos de Bangu em 2015, abrindo o Carnaval na sexta-feira.
Alegria – Saiu-se melhor a escola do Pavão-Pavãozinho e Cantagalo ao “biografar” Ogum. Mas é bom ver uma escola pequena (sem demérito, mas sem ficar na chatice politicamente correta) que volta e meia apresenta obras dignas da Sapucaí. Só acho estranho o intérprete de uma escola do mesmo grupo compor o samba de uma concorrente, como o Migão já tinha chamado atenção anteriormente. Mas essa é outra história e a Alegria não tem nada a ver com isso.
Porto da Pedra – Ótimo enredo, muito bacana a relação Carequinha-São Gonçalo. Tinha tudo para sair um grande samba. Tinha. Não me cativou, esperava mais. Ficou devendo o Tigre, na minha opinião.
Santa Cruz – Talvez seja o caso de achar bom porque a comparação com anos anteriores é desfavorável para a Santa Cruz. O problema é semelhante ao da Rocinha. Um enredo tão batido dificulta. Uma colagem de versos que a gente tem a impressão de já ter lido, já ter ouvido. Mas subiu o nível da própria escola, sem dúvida.
Viradouro – Um samba daqueles que credenciam a escola – que é uma das forças do grupo – à disputa pelo título. O enredo é um achado. Belíssima história a ser contada. Ao contrário do que falei em relação à Rocinha e Santa Cruz, isso facilitou a vida dos compositores. Só acho precipitado dizer que é o melhor samba do ano, dos dois grupos. Em princípio, não concordo. Creio que há obras no Especial que, para mim, ganhariam esse prêmio simbólico. Mas vou esperar pela decisão das escolas do grupo de cima.
Renascer – assim como aconteceu com o Império Serrano, eu já havia escrito um texto sobre o samba da Renascer. Não houve disputa. Mais uma vez foi feito sob encomenda. E mais uma vez com uma ótima obra nos presenteia a escola de Jacarepaguá. É dura a comparação com os anos anteriores da própria escola? É. Mas comparando o samba da Renascer com os demais do grupo este ano o coloco, facilmente, entre os melhores. Fácil. E, novamente, o enredo ajuda.
Império da Tijuca – O enredo pedia uma obra mais leve, com características dos personagens do homenageado. Tem boas passagens mas está longe de ser um dos melhores do grupo. A escola da Formiga parece se readaptando a uma temática não-afro.
Curicica – Não fosse a quantidade até exagerada de temas nordestinos nos últimos carnavais (do Acesso, sobretudo) esta obra teria me empolgado mais. O enredo é bem legal, a letra tem sacadas boas. A melodia da versão que ouvi não me contagiou tanto. Mas está bem servida a escola.
Tuiuti – A minha cota de “nordestinidade” deste ano foi preenchida por este samba interessantíssimo do Tuiuti. O lindo desfile de 2015 foi, para mim, prejudicado por um samba que não aconteceu. Se repetir a plástica no ano que vem, e com esta obra, a azul e ouro de São Cristóvão vem forte. Gosto muito desse samba. Um dos meus preferidos na Série A.
Inocentes – Meio que repito a opinião que dei em relação ao Império da Tijuca. O cinema também é a base da história. O samba está dentro da sinopse. Porém, faltou um arrebatamento que o samba de 2015 tinha. Aguardo a gravação do Nino do Milênio. Que o intérprete não queira ser tenor. Nada pessoal, mas eu não curti a interpretação do disco deste ano.
Império Serrano – Já fiz um texto só sobre o samba da minha escola. Não escondi que torcia por ele na disputa. Acho o único lírico e poético o suficiente para cantar Silas, ou a Serrinha de Silas. Há riscos na melodia? Pode ser. Mas depois de seis carnavais no Acesso (sétimo em 2016) não há risco que o Império não deva correr para tentar a consagração.
Caprichosos – O jurado pode canetar à vontade se encontrar defeitos. Não estou nem aí. Quero a Caprichosos divertida e divertindo. Não é Estandarte de Ouro? Não. Mas é muito mais legal passar uma hora ouvindo este samba a outros mais decantados por aí. Gosto.
Padre Miguel – Também gosto da irreverência desta obra. Vindo de quem vem era de se esperar um samba de qualidade. A escola vem proporcionando grandes desfiles e bons sambas também. Parabéns à forte comunidade de Padre Miguel. [1]
Cubango – Volto ao ponto de partida. Miscigenação, Natureza, Nordeste, Água. Com exceção da cultura nordestina, riquíssima, e que permite variações do tema, o resto eu não aguento mais ver na avenida. Deveria ter quarentena para falar da importância da água na vida das pessoas, do planeta. Isso me fez implicar com o samba da escola que, na verdade, está na metade de cima da tabela de classificação de qualidade. Mas não é G4.
[N.do.E.: Marquinho Art´Samba, intérprete da escola, pediu desligamento na noite de ontem (após inclusive ter gravado o samba para o CD oficial) devido a proposta de escola do Especial. Fala-se na Imperatriz: a conferir. PM]
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