Ano passado fomos surpreendidos pela morte do ex-governador do Pernambuco, Eduardo Campos. A morte foi trágica na cidade de Santos e uma multidão recebeu, velou e enterrou seu corpo em Recife. Uma multidão mesmo. Algo inexplicável para muitos do Sudeste. Cheguei a ler se Eduardo merecia e se ele era ‘tudo aquilo’.
E era. Eduardo foi um grande governador, mas ‘tudo aquilo’ vem de muitos antes. Eduardo era herdeiro de um legado político criado por seu avô, Miguel Arraes. Um homem que fez uma verdadeira revolução na capital e em todo estado. A história de Miguel Arraes vai virar enredo da escola de samba Vila Isabel. Um político um vez me disse que ‘o Sudeste precisa conhecer e entender Miguel Arraes’ e acho que a hora é essa.
“Meus olhos ficavam rasos d’água. A seca minha alma castigava”
Cearense, Arraes dizia que a sua consciência política começou quando adolescente na seca de 1932. O menino distribuía bolachas de sal para pessoas de sua cidade, que literalmente morriam de fome. Arraes sentiu o peso político quando viu dois homens que tentavam fugir da seca e ir para Fortaleza presos por esse motivo. Um ano depois, o garoto parte para o Rio de Janeiro para se tornar advogado, mas vai para Recife para concluir os estudos e começar os trabalhos.
Concursado, começou a trabalhar no Instituo do Açúcar e Álcool onde conheceu Barbosa Lima Sobrinho que se tornaria governador do estado e, em 1948, nomearia Miguel Arraes para o cargo de secretário da fazenda. Foi o primeiro cargo do cearense na política pernambucana. Dali para frente, Arraes não sairia mais da vida pública. Em 1950 se torna deputado estadual de Pernambuco por dois mandatos e prefeito da capital em 1959 pelo PSD, em 1959.
“Liberdade se conquista com educação. Juntando artistas e intelectuais”
Empossado prefeito, Arraes busca a luta social como ponto forte de seu governo. Como primeiro ato, amplia o sistema de fornecimento de água e energia na cidade, mas o principal ponto do mandato de Arraes à frente da prefeitura foi a verdadeira revolução no sistema educacional da cidade. Em 1930 ficou estabelecido que o governo estadual seria o responsável pelo que hoje chamamos de ensino fundamental. Porém, o governo do estado preferia atender o interior em busca dos votos das lideranças e deputados do que se preocupar com a capital do estado.
Sem nem um departamento de educação, Arraes assume Recife com mais de 100 mil crianças sem escola. A tarefa não era fácil, mas a administração criou o MCP (Movimento de Cultura Popular) que reuniu educares, artistas e intelectuais para levar educação para toda a Recife. Igrejas católicas e protestantes, centros espíritas, quadras de clubes, ligas de dominó; enfim, onde tinha um espaço para se dar aula, as aulas eram dadas e, em três anos de mandato, foram 201 escolas criadas.
Essa aliança com intelectuais, juventude e setores de diversas religiões levou o nome do prefeito para todo o estado e, mesmo sem apoio dos grandes coronéis, Arraes se candidata a governador do estado, em 1962, e ganha a eleição.
“Acordei o campo para haver justiça. Flora esperança nos canaviais”
Eleito dessa vez pelo Partido Social Trabalhista, Arraes foi apoiado pelo PCB e era um dos grandes aliados do presidente João Goulart que queria colocar em práticas as reformas de base. Seguindo a linha de Brasília, Arraes começou a pensar na situação dos trabalhadores rurais que trabalhavam nas plantações de cana de açúcar.
Os trabalhadores na maioria dos casos pelo interior de Pernambuco não tinham direitos trabalhistas, jornada de trabalho especifica e recebiam apenas um terço do salário mínimo. Vendo essa situação, o governo colocou na mesa de negociações usineiros e trabalhadores para negociações que foram interrompidas pelo golpe de 1964.
“Silenciar jamais”
Com o golpe militar de 31 de março de 1964, Arraes foi acusado de apoiar a reforma agrária. No dia 1º de abril daquele ano, tropas invadiram o palácio do governo e exigiram a renúncia do governador, que não aceita. Ele tem a prisão decretada e sai do palácio do governo dentro de um fusca direto para a prisão.
Preso pela ditadura, ficou encarcerado em Fernando de Noronha e depois transferido para o Rio de Janeiro. Onze meses depois da prisão, consegue um habeas corpus pelo Supremo Tribunal Federal; porém, a ditadura exigiu que Arraes deixasse o país e em 25 de maio de 1965 parte para a Argélia, onde conseguiu asilo político.
Na época, a Argélia era governada pela Frente de Libertação Nacional. Socialista, o presidente Ahmed Ben Bella deu status de exilado especial para Arraes que frequentava o poder do país do norte da África. Mesmo com a saída de Ben Bella, o brasileiro tinha certo status no país ainda governado pelos socialistas. Depois de 14 anos no exterior, o ex-governador pernambucano retorna ao Brasil em setembro de 1979 com a lei de Anistia, em uma das chegadas mais emocionantes e históricas da época.
“Arraes tá aí de novo. Arraes tá aí defendendo o nosso povo”
Já restabelecido no Brasil e os ventos da democracia começando a soprar em terras tupiniquins, Miguel Arraes volta para as urnas quando foi eleito, em 1982, deputado federal, pelo PMDB e participa da campanha das Diretas Já junto com ex-presos e exilados políticos.
Ainda pelo PMDB, a Frente Popular o elege e ele volta ao governo de Pernambuco nas eleições de 1986, mas o Brasil era outro daquele que Arraes tinha deixado em 1964. As necessidades do seu povo eram outras e o diálogo passou a ser mais difícil. Os movimentos sociais vinham de uma ressaca de mais de 30 anos de lutas – seja por direitos ou por liberdade – e a crise econômica não ajudou. Em 1990, Arraes deixa o governo, se ingressa no PSB e volta para a Câmara Federal.
Em 1995, renuncia ao mandato para voltar ao governo de Pernambuco. Um mandato de oposição ao governo de Fernando Henrique Cardoso, que tinha popularidade alta. A campanha de reeleição de Arraes já foi uma campanha perdida, mas mesmo assim foi até o último momento e perdeu a única eleição de sua vida política, em 1998, para seu ex-aliado, Jarbas Vasconcellos.
Depois disso, ainda se candidatou a deputado federal em 2002, onde cumpriu um mandato de pouco mais de um ano e faleceu de problemas respiratórios em 2004 no mesmo 13 de agosto que, dez anos depois, seu neto morreria – em uma tragédia já contada no início desse texto.
“Até o galo da madrugada se entregou à batucada misturando carnavais”
Arraes agora renasce e vai para a Marquês de Sapucaí como enredo da Unidos de Vila Isabel. O samba escolhido foi definido na madrugada desse domingo quando a parceria de Martinho da Vila, André Diniz, Mart´nália, Arlindo Cruz e Leonel venceu a disputa. Um samba que pode causar estranheza ao ser ouvido pela primeira vez, mas quando pegar para ler verso por verso é um dos sambas enredo mais lindos que já passaram pela avenida e o samba deve ficar melhor já que Martinho disse que esse foi feito ‘às pressas’ e que algumas mudanças devem ocorrer.
Martinho nunca negou seu lado político e aliado dos pensamentos de Arraes que agora vira tema da maior festa popular do mundo. Popular como as crianças que Arraes deu escola quando prefeito. Popular como os trabalhadores que Arraes lutou pelos direitos quando governador. Popular como aqueles que ele lutou mesmo lá da África. Popular como a Frente de partidos que o elegeu.
“As memórias do Pai Arraiá – um sonho pernambucano. Um legado brasileiro”
Martinho da Vila, André Diniz, Mart’nália, Arlindo Cruz e Leonel
Meus olhos ficavam rasos d’água
a seca minha alma castigava
o sol queimava e rachava o chão
os carcarás pousavam no sertão
cresci sonhando renovar os sonhos
revitalizar a vida
que se equilibra sobre a palafita
Dar pra gente mais sofrida dignidade e amor
pra essa gente aguerrida, dignidade, amor
Acordei o campo para um novo dia
com o futuro santo, lindos ideais
acordei o campo pra haver justiça
flora esperança nos canaviais
Carinhosamente… Pai Arraia
no lugar onde arrecifes desenham a praia
acolhi um movimento, real solução
mais do que alento, a cura dos ais
liberdade se conquista com educação
juntando artistas e intelectuais
Pra fazer a cartilha no cordel
ensinar do ABC à profissão e buscar na arte a inspiração
Tão bom cantarolar, me emocionar, estar aqui
pra ver na avenida
o valor da verdadeira vila
de gente humilde que defende a tradição no seu lugar
um movimento de cultura popular
Vem sambar no frevo e na ciranda
silenciar jamais!!!
Até o galo da madrugada
se entregou à batucada, misturando carnavais
Nota do autor: Os subtítulos do texto fazem parte do samba, como perceberam, exceto a parte que fala da volta de Arraes que remete aos jingles de Arraes para governador.
A letra acabou alterada. Li opiniões de quem se revoltou com isso. Não sei se é para tanto. Está certo que algumas soluções com a cara do Martinho desapareceram. Mas, no geral, a ideia original está mantida. Lamento só a troca de verdadeira Vila por mensageira Vila e a saída do “ABC à profissão”. No refrão principal acho que a letra foi melhorada, na métrica, com a inclusão do maracatu. No mais, parabéns à coragem da Vila. Falar (bem) de um político socialista hoje em dia poderia ter rendido um panelaço no Boulevard! Pensando bem…no Boulevard, não.
Gil, é outro samba praticamente – bem inferior ao original. Pena.
Bem inferior, Migão? Sei não. Com sinceridade, não consegui ver essa queda toda. Algumas soluções foram mais pragmáticas, talvez com temor de uma canetada. O que considero uma pena. Arte é arriscar. A Vila tem o direito. Outras soluções não achei que pioraram não. Como, já comentei, o refrão principal. Sou fã do Martinho, Do André, do Arlindo. E reconheço, sobretudo nos dois primeiros, traços poéticos indeléveis neste samba. Não quero ser viúvo de 2013. Festa no Arraiá foi único, fruto de um momento único. Não quero procurar na Vila do presente e do futuro um samba que substitua algum do passado. Apenas um que mereça dividir uma galeria. Esse merece. Mesmo com as mudanças.
Gil, como falou o Baltar no último “Bar Apoteose”, nem a ditadura militar fez tanto mal a Arraes… risos