Hoje temos escolha de samba da Imperatriz Leopoldinense e assim conheceremos todos os sambas do grupo especial para 2016 do carnaval carioca.
Bons sambas de uma boa safra. Até o momento em que escrevo nenhum erro grosseiro, tendência que acompanhamos já nos últimos anos, nenhum super samba e nenhum que vá passar vergonha. Tudo caminhando normalmente.
Mas dois fenômenos já antigos em concursos de samba-enredo estão cada vez mais em evidência e viraram assuntos esse ano, talvez pela mídia de carnaval hoje ser maior. Nosso “Bar Apoteose” é um exemplo disso.
O primeiro é o alto valor que hoje custa um samba-enredo. As disputas estão cada vez mais caras. Não é raro que parcerias finalistas invistam mais de 100, 150 mil reais em um concurso. Os mesmos cada vez inflacionam mais – algo surreal se observarmos a grave crise que o país passa – e a disparidade econômica entre as parcerias provocam consequências. Cada vez menos sambas nos concursos e assim opções de escolhas para as agremiações.
A coisa chegou a tal ponto que o próprio presidente da ala de compositores da União da Ilha disse em nossa transmissão pela Rádio Sambista que quer fazer um fórum para rediscutir a fórmula de escolha.
A segunda questão é até onde um samba conquista a comunidade por sua beleza, seu valor e não existe na verdade a torcida por um compositor ou parceria de compositores.
É o “Compositor F.C.”
Observo isso faz algum tempo e não só apenas em uma escola: na maioria. Um concurso de samba mal começa e já vemos pessoas torcendo por aquele samba. O fato em si não é normal, já que com o concurso iniciando é raro que um samba cative de cara. Mas a coisa piora quando vemos que todos os anos torcem pela mesma parceria. Aí passa a ser suspeito.
Alguns realmente torcem por se identificarem com a linha de sambas que determinado compositor ou parceria faz. Eu mesmo era assim com os sambas de Djalma Falcão na primeira metade da última década; entre 2000 e 2003 torci por todos os sambas, em todas as escolas que ele se envolvia. Conheço várias pessoas que por identificação de linha seguida torcem por compositores, algo inocente.
Mas tem aqueles que torcem porque levam alguma vantagem. Alguns compositores já perceberam que não adianta ter uma quantia exorbitante de dinheiro se não souber investir. O tempo que um samba ruim vencia por ter a maior torcida passou, as escolas finalmente perceberam que essas torcidas compradas em nada ajudam a agremiação já que acabou o concurso, vão embora e nunca mais voltam.
Essas parcerias não abrem mão da torcida comprada, evidente, mas começam a mesclar com a comunidade. Evidente que nem todas as comunidades são assim. Vimos a Portela em 2012 e o Salgueiro esse ano com as comunidades escolhendo na marra: eram os sambas que elas queriam. Na Viradouro também esse ano a comunidade se apaixonou tanto por um samba que o presidente mandou que a comunidade cantasse a obra na hora da escolha – vídeos acima.
Mas não dá pra fazer isso em todas as escolas, não dá para confiar em todas as comunidades. Compositores bancam churrascos, vão a festas de alas, algumas vezes até o acordo sai diretamente no financeiro e assim algumas disputas já começam com parte da escola fechada com uma parceria.
Isso dá impressão de adesão espontânea e ter a adesão espontânea da comunidade é o mundo perfeito de um compositor de samba-enredo.
Disputa de samba é algo cada vez mais político. Compositores entre agosto e outubro agem como políticos. Ficam simpáticos com quem nunca conversaram durante o ano, viram inimigos mortais de quem era amigo até outro dia apenas porque concorre contra o mesmo ou criticou seu samba.
Gastam rios de dinheiro, fazem alianças com formadores de opinião. Tudo isso em algo que devia ser predominantemente artístico. O próprio Migão disse semana passada no “Bar Apoteose” que uma disputa de samba hoje é muito mais uma disputa política e de poder dentro de uma agremiação que propriamente um concurso artístico.
Mas apesar de, mais uma vez, falar que acho o samba-enredo o melhor gênero musical do país uma escolha dele se afasta cada vez mais da arte. Infelizmente tem gente atualmente que pensa em todos os ganhos pessoais possíveis e só depois nas escolas.
Tem futebol, política, tem tudo.
Menos amor ao samba.
Twitter – @aloisiovillar
Facebook – Aloisio Villar
A escolha da Imperatriz não é hoje e sim amanhã!
Perfeito, Aloisio!! E se a gente começar a puxar exemplos, ficamos até o Natal escrevendo!