No meio das várias finais de samba das escolas do Grupo Especial que estão ocorrendo há duas semanas no Rio de Janeiro, chegou a vez da Portela, hoje. Como é tradição no Ouro de Tolo, é hora de apresentarmos os sambas finalistas e dar uma rápida impressão do que ocorreu na disputa até aqui.
Para começar, já aviso aos portelenses, especialmente aqueles que torcem para algum samba, para se prepararem emocionalmente para essa final. Pela primeira vez desde 2011 (para o Carnaval 2012), ela parece ser imprevisível, mesmo que seja de uma forma bem diferente da que ocorreu há parece anos na quadra da Caprichosos de Pilares.
De início, cabe explicar ao leitor que, apesar da disputa mais longa (cada samba finalista já fez 8 apresentações), a quadra, a comunidade muito pouco se manifestou em toda a disputa. Nenhum dos sambas em nenhum momento conquistou uma adesão maciça. Claro que vez ou outra algumas pessoas demonstravam simpatia por um ou outro samba, mas nunca passou de movimento isolado. Nunca tinha visto isso na Portela desde que comecei a acompanhar as disputas com afinco, exatamente em 2011.
Quanto a cortes polêmicos, até pela própria apatia da quadra,é difícil comentar, mas na minha opinião houve dois deles.
O primeiro, ainda na semana da junção das chaves (3a apresentação dos sambas), foi, mais uma vez, o corte da parceria de Juan Espanhol. É verdade que o samba não era nenhuma obra-prima, como não é nenhum outro da safra portelense, mas afirmo com tranquilidade que ele teria que ficar pelo menos mais umas 2 ou 3 semanas antes de cair.
O segundo corte foi o da semifinal. Ocorreu com Jorge do Batuke e parceiros exatamente a mesma coisa que ocorreu com David Correia há dois anos atrás: caiu na semifinal sendo a melhor parceria da noite. Mesmo assim, esse samba, tal como todos os finalistas, teve apresentações irregulares. Algumas eram muito boas, outras nem tanto.
Por fim, aplaudo a decisão da Portela que colocou desde as oitavas de final todos os sambas para correr direto por 25 minutos. Com isso já temos uma boa noção do rendimento dos três finalistas em períodos mais longos.
Considerações feitas, vamos a apresentação dos três sambas finalistas, pela ordem alfabética do primeiro nome da parceria.
Assim, começamos pela parceria Noca da Portela / Celso Lopes / Charlles André / Vinicius Ferreira / Rafael Gigante / Andre do Posto 7. A atual campeã tentará mais uma vitória, a qual daria a Noca a proeza de ser o primeiro compositor da história da Portela a ganhar 8 vezes na escola (quem leu a série do Ouro de Tolo mês retrasado sabe que hoje ele divide esse recorde com David Correia).
Assim como todos os outros finalistas, esse samba adotou a estrutura de três refrães, mesmo que um deles de apenas uma linha. É um samba que tem algumas passagens em que a melodia não encaixa bem com a letra e isso acaba incomodando os ouvidos e cansando a medida que o tempo de execução aumenta. Por isso, vejo tecnicamente esse samba alguns passos atrás em relação aos outros dois finalistas. Detalhe: na semifinal minha noiva, que estava visitando a Portela, não resistiu aos 25min e acabou dormindo. Ainda assim, pelo que parece leva algum favoritismo na noite de hoje.
Outra parceria finalista é a parceria de Toninho Nascimento / Luiz Carlos Máximo / Gustavo Albuquerque /Elias Camilo / Jorge Jr. / Alexandre Fernandes. Desta parceria, senti a falta do gênio Toninho Nascimento na quadra durante o concurso esse ano por motivos pessoais, mas o encontrei semana retrasada casuisticamente e espero revê-lo em nossa escola em breve. Em caso de vitória desta parceria, o destaque ficará por conta do sexto samba vencido por Máximo na Portela, o que fará ficar em terceiro na história ao lado dos bambas Candeia, Waldir 59 e Ary do Cavaco.
Apesar de ainda ser filho da linha criada pelo “Madureira sobe o Pelô”, especialmente nos dois refrães do meio do samba, este samba não tem o mesmo toque de genialidade; talvez reflexo de uma falta de reinvenção da parceria após o sucesso absurdo de 2012. O refrão principal, mesmo que melhorado na quadra após a gravação, ainda é o ponto fraco deste samba, que contrasta com uma letra de primoroso trabalho poético, característica que esta parceria não perdeu.
Por fim temos a parceria de Wanderley Monteiro / Samir Trindade / Elson Ramires / Lopita 77 / Dimenor / Edimar Jr. . O portelense Samir já “chegou chegando” na escola e já faz uma final logo no primeiro ano após deixar de assinar pela Beija-Flor. Alias, caso ganhe, essa primeira vitória de mais um compositor famoso na Portela será o destaque.
É um samba de melodia bem trabalhada que não deixa a dever para o samba de Toninho. Porém, por um daqueles mistérios dos deuses do samba, o samba após fortes passadas iniciais só com o cavaquinho perde rendimento assim que a bateria começa a tocar.
Que fique claro que não estou fazendo nenhuma insinuação que a bateria da Portela esteja tratando concorrentes de modo diferente. Pelo contrário, até aqui o comportamento da bateria tem sido absolutamente exemplar. Apenas tem casos em que samba e bateria simplesmente não combinam. Na minha avaliação, por enquanto com a bateria tocando reto, é apenas isso. Após uma eventual escolha, com a bateria fazendo um trabalho específico para o samba, isso deve ser resolvido.
Por fim, esse samba tem uma parte em seu refrão principal que me incomoda demais: “Eu sou a águia, falem de mim o que quiser, mas é melhor respeitar, sou a Portela”. A Portela nunca foi uma escola que “pede respeito”, o respeito vem naturalmente. Ainda mais da forma como está escrito, incomoda ainda mais. Talvez a letra dos dois refrães de meio também possam ser lapidados.
O primeiro nome da parceria até a semifinal era o de Samir Trindade, porém recebi informações que isso será invertido para a final, por isso esse samba encerra a ordem alfabética.
O que irá ocorrer na final? Como já disse acima, respondo, com toda sinceridade, que não sei. A impressão que tenho é que a escola está dividida entre os três sambas e nada está definido, embora o samba assinado por Noca pareça ser ligeiramente favorito.
Se eu fosse apostar em um vencedor na quinta antes da semifinal, apostaria em um. Se fosse no sábado, logo depois da semifinal, apostaria em outro. Na segunda-feira já mudaria a aposta para um terceiro. Não sendo escolhido o samba do Noca, estarei feliz e a Portela terá um bom samba para o seu desfile, ficando na primeira metade da safra com folgas.
Como sou humano e tenho minha opinião, não me furtarei a dá-la aqui: não tendo nenhum samba muito superior aos outros, eu votaria no samba de Toninho pois o samba casou muito bem com a bateria e essa química fez com que o samba não caísse de rendimento até o 25° minuto de todas as apresentações. Será um samba que não necessitará de grandes modificações e o trabalho de harmonia será facilitado durante os ensaios e na avenida.
A propósito, estarei comentando a final integrando a equipe da Rádio Sambista – www.radiosambista.com – na transmissão da final, que se inicia à meia noite. Apresentação de Celso Cajal e Alex Cardoso, comentários meus, de Allexandre Valle e Aloisio Villar, reportagens de Hellen Manhães. O editor chefe não estará na equipe de comentaristas por questões éticas, dada a posição que ele ocupa na diretoria da escola.
Veremos quem vencerá a final de hoje. Abaixo o leitor poderá conferir na íntegra os áudios da semifinal, não somente dos finalistas como do samba cortado na eliminatória. Alea jact est!
Algumas perguntas:
1) O fato de não existir um consenso na escola e na comunidade, entre os sambas concorrentes, pode ser reflexo de alguma coisa? No caso do samba do Máximo, pode ser a questão da não reinvenção dos compositores, como foi levantado. Mas e nas demais?;
2) Diante de eventual impasse, e dos sambas em questão terem seus pontos fortes e fracos, existe a possibilidade de junção? Portela, pelo seu histórico, já teve junção em suas eliminatórias?;
3) Qual a preferência dos baluartes? Monarco deu palpite? Surica?
Fabrício, vou tentar responder rapidamente:
1) nenhum samba galvanizou a escola, simples;
2) não e não, chance zero de junção a meu ver;
3) não sei
Ótima análise Rafael!
O meu samba predileto desde o começo foi o do Samir,e com a ajuda dos deuses do samba ele conseguiu a vitória.
Acho apenas que a bateria correu demais no vídeo de apresentação do samba,há que se mudar algo nesse sentido para que não atrapalhe a escola na evolução .
E,se possível,troque REFRÃES por REFRÕES .
Abraços de Minas Gerais a toda equipe.
Rhamon,
Estava na quadra ontem e saí com impressão completamente diferente. Ontem a bateria encaixou o ponto certo no samba do Samir, tanto na apresentação como após o anúncio. Samba não cansou em momento nenhum, pelo contrário, arrasou.
1o fez a melhor apresentação de um samba nesta disputa, depois deixou a quadra em êxtase cantando o samba após a disputa. Vitória merecida.
Quanto ao refrães, acredite se quiser, esse é o certo realmente. Eu mesmo demorei para me acostumar.