O Campeonato Brasileiro de 2015 tem como uma de suas características um novo horário de partidas: após teste bem sucedido no Campeonato Paulista, algumas partidas foram marcadas para o horário das 11 horas da manhã, no domingo.

A princípio Flamengo e Corínthians não jogariam neste horário a pedido da televisão que detém os direitos, mas o sucesso de público e crítica foi tal – apesar das reclamações das comissões técnicas, em especial devido ao calor – que as duas equipes acabaram pedindo para atuar neste horário.

O Corínthians fez duas partidas (ambas em casa) e o Flamengo também, sendo uma fora – seriam três se o confronto contra o Grêmio não tivesse sido vetado por determinação da PM.

Faço este preâmbulo para contar a história de que no último domingo o Flamengo jogou no Maracanã neste horário, e farei uma análise sobre este horário, o serviço envolvido e as características.

20151004_105832Este ano estive em duas partidas anteriores do Flamengo, ambas noturnas: contra o Atlético Paranaense e o Cruzeiro. Optei por ir nesta partida contra o Joinville porque seria uma boa oportunidade de levar a família ao estádio, e minhas filhas ainda não haviam assistido a um jogo do Flamengo no novo Maracanã – a última vez havia sido no Engenhão em 2011, no novo estádio somente na Copa do Mundo.

Não sou sócio torcedor do Flamengo, por fatores que não vem ao caso neste artigo, então a compra dos ingressos foi pelo site do Maracanã. Os compradores de inteira, como eu, podem retirar na primeira compra pelo site um cartão que posteriormente é recarregado direto sem a necessidade de ir à bilheteria (como aconteceu na partida contra o Cruzeiro). Entretanto, tive de trocar os ingressos de minha esposa e filhas – todos para o setor Leste.

Optei por ir antes do jogo, na quinta feira. Comprei ingressos de menor (não de estudante) para minhas filhas – de 8 e 9 anos – e na hora da troca, mesmo com os documentos, houve certa resistência da bilheteria em fazer a entrega dos ingressos. Vale lembrar que elas poderiam ter entrado sem pagar caso fôssemos para os setores Norte ou Sul, ou seja: não faria o menor sentido eu estar buscando me fazer valer alguma vantagem. Ainda que houvesse poucas pessoas na fila, a demora foi considerável.

20151004_103732No dia do jogo, o relato é de que houve grande tumulto e muitas filas, a ponto de, no intervalo da partida, ainda estarem entrando pessoas no setor onde eu estava. Isso se deve a três fatores: lentidão no sistema de informática, excessiva burocracia na conferência dos documentos e no próprio hábito do público de deixar tudo para fazer no limite do prazo.

Também contribui o fato de não haver venda de cerveja (com álcool) dentro do estádio: as pessoas acabam deixando para entrar no estádio em cima da hora. Ao contrário dos jogos noturnos em que estive presente, desta vez o controle do consumo lá fora estava bem mais frouxo: se podia levar a bebida até quase a catraca de entrada – no jogo contra o Atlético, por exemplo, estava havendo repressão ao consumo a mais de um quilômetro de distância dos acessos.

Veremos o que ocorrerá quando a recente lei aprovada liberando a venda nos estádios cariocas entre finalmente em vigor. Acredito que irá diminuir o tumulto na entrada do Maracanã.

Por outro lado, é inegável que o público é completamente diferente neste horário. Muitas famílias, muitas pessoas que normalmente não frequentam estádios e muitas, mas muitas crianças. Diria que, onde estava, uns 30% do público era formado pelos pequenos – e nos Setores Norte e Sul, onde existe gratuidade até 12 anos, a proporção era semelhante.

Um ponto importante é que a meia entrada teve sua fiscalização apertada por parte dos administradores do estádio: agora o documento também precisa ser mostrado no acesso e não mais na compra. Sou totalmente a favor do aperto, porque infelizmente há muita gente que acaba se utilizando da meia entrada sem ter direito a tal.

20151004_101812Só acho que o rigor não precisaria ser tão grande nas meias entradas para menores de 21 anos: eu tinha os documentos comigo, mas não precisava exigir das minhas filhas quando bastava olhar para elas para se perceber que não tinham 21 anos – como o leitor pode ver pelas fotos. Minha mais nova chegou a brincar dizendo que “só se eu fosse anã para ter 21 anos…”

Dentro do estádio, a estrutura disponível de um local que, recentemente, foi sede da final da Copa do Mundo. A se destacar somente que os números das cadeiras estão quase todos apagados, e com os lugares marcados – e respeitados – isso gerou grande dificuldade nas pessoas em localizar seus assentos. É algo que a concessionária do estádio deveria verificar.

Mas sob o aspecto do público pode-se dizer que a experiência foi um sucesso absoluto: praticamente 60 mil presentes e pouco menos de R$2,5 milhões de renda. Praticamente igualou o público da partida contra o Santos, estreia de Paolo Guerrero no Rio de Janeiro.

20151004_105820Quanto à partida, é inegável que o horário atrapalha o desempenho. Mesmo sem sol, estava bastante quente, fator potencializado pelo teto do estádio em uma espécie de lona que se transforma em uma verdadeira estufa. Além do calor o próprio horário muda o biorritmo dos atletas e a prestação não é a mesma de uma partida às 17 horas, por exemplo.

O calor proporcionaria algo que eu não me lembro de ter visto nas últimas duas décadas, pelo menos: o Flamengo jogando de branco no Maracanã. A cor retém menos o calor e ainda forçou o adversário, também rubro negro, a jogar com seu uniforme número 1 de camisas escuras.

O efeito do horário se fez sentir no segundo tempo da partida: após o gol de abertura do placar o Flamengo, que dominara integralmente as ações até ali, diminuiu bastante o ritmo. A equipe se ressente de maior qualidade técnica como um todo – algo que até minha esposa, que acompanha muito pouco futebol, comentou – mas esteve bem mais organizada que nas partidas anteriores. Talvez pelo fraquíssimo adversário que, nas palavras da minha filha mais nova, “se está atrás do Vasco precisa melhorar para chegar ao inferno…”

O comportamento da torcida me surpreendeu. Esperava um público mais frio dado o perfil das pessoas, mas até que participou bastante da peleja, buscando incentivar. Vale destacar também que, na “ola” ao final (inevitável), os torcedores adversários entraram na brincadeira e também participaram.

A saída do estádio e depois o trânsito é que ficou um pouco lento, mas normal com 60 mil pessoas no Maracanã. Saída totalmente ordeira, façamos o registro.

No balanço geral, a experiência é positiva para o público. Este horário atrai mais gente especialmente pela possibilidade de se otimizar o dia, pois há tempo para se almoçar tranquilamente e empreender outras atividades no restante do dia.

Por outro lado, é inegável que há um prejuízo técnico devido à alta temperatura e à própria preparação para a partida, que é diferenciada. Brincávamos nas cadeiras dizendo que um certo jogador do Flamengo parecia ter vindo diretamente da balada para o jogo…

Fim das contas, vitória por 2 a 0, minhas filhas felizes com o time ganhando e com a experiência, o pai também pelo Flamengo e pela família. 44 pontos, risco de rebaixamento praticamente nulo, uma classificação à Libertadores me parece difícil; hora de pensar nas eleições de dezembro e no planejamento para 2016.