Continuando as análises dos sambas da Série A, hoje falo sobre as sete escolas que desfilarão no sábado na Marquês de Sapucaí. O formato é o mesmo, dando notas de 9 a 10 sem uma ligação com regulamento ou qualquer divisão entre letra e melodia. Começamos por Curicica e terminamos na Cubango.

União do Parque Curicica

Enredo: “Corações Mamulengos”

Compositores: Washington Motta, Pitimbú, Vagner Silva, Alexandre Alegria,
Telmo, Léo do Taberna, Marcelo Valência, Adelson e Márcio André Filho

Intérprete: Ronaldo Yllê (Part. Especial: Elba Ramalho).

Esse samba é um que eu gosto. A composição ganhou vida com a interpretação de Elba Ramalho no CD e belo desempenho de Ronaldo Yllê, que mais uma vez fez grande gravação. O samba conta muito bem o enredo e a melodia, que tem uma ou outra quebra incômoda, envolve e contagia. Entretanto, não consigo achar o samba da Curicica uma grande composição. Mesmo sendo bastante animado, fazendo com que eu acredite num bom resultado na avenida, no efeito comparação com outros sambas, este não brilha como outros. Por outro lado, é uma composição que servirá pra escola e não fará feio na avenida como frisei acima. A gravação ficou interessante, com Elba dando um show a parte.

Nota: 9.7

Paraíso do Tuiuti

Enredo: “A farra do Boi”

Compositores: Rafael Júnior, Jorge Maia, W Correia, Dilson Marimba e Claudio Russo.

Intérprete: Daniel Silva

Um dos grandes sambas de um CD que no geral tem ótimo nível. A composição tem sacadas divertidas e totalmente pertinentes ao enredo. Estas aparecem tanto na letra quanto na melodia, que pra mim é mais uma vez o ponto forte do samba. Mas não pensem que a letra fica por menos. Pelo contrário, a letra consegue fazer o que o enredo pede, sendo extremamente pertinente e engraçada por isso mesmo. Os trechos do refrão de meio e os três últimos versos da segunda parte são os meus favoritos nesta bela obra do povo de São Cristóvão. Entretanto, novamente, a comparação infelizmente impede que gostemos mais da composição. A interpretação de Daniel Silva agrega e muito ao ótimo samba da escola.

Nota: 9,9

Inocentes de Belford Roxo

https://www.youtube.com/watch?v=1OpJaWgJEx8

Enredo: “Cacá Diegues – Retratos de um Brasil em cena”

Compositores: Serginho Castro, Tentenzinho Jr, Rudá Neto e Marcelo Fernandes.

Intérprete: Nino do Milênio

Outro samba que cresceu comigo na avaliação do CD. A obra do pessoal da Baixada ficou extremamente agradável na voz de Nino do Milênio. A letra da composição chama a atenção pela ótima descrição do enredo e a melodia deixa o samba bastante simpático por conta de sua felicidade na construção, deixando a obra muito gostosa de escutar. O único porém do samba são as típicas expressões de fechar métrica como a rima do refrão principal que diz “Meu coração é pura emoção”, o que prejudica a beleza poética da obra. Junte isso à comparação com outros sambas e a obra da Inocentes fica com uma nota aquém do imaginado inicialmente. Como já dito anteriormente, Nino do Milênio tem um dos melhores desempenhos do disco. Uma observação necessária é o show da bateria na segunda passada, sendo esta pra mim, a melhor bateria do disco. Grande atuação da Cadência da Baixada.

Nota: 9,8

Império Serrano

Enredo: “Silas canta Serrinha”

Compositores: Arlindo Cruz, Aluísio Machado, Arlindo Neto, Zé Gloria, Andinho Samara e Lucas Donato. Participação Especial: Carlos Sena, Beto Br e Ronaldo Nunes.

Intérprete: Pixulé

Samba da nossa escola é sempre mais difícil de avaliar. Dizer que eu acho esse samba ruim é mentira, mas também não o acho fantástico ou espetacular como o enredo prometia. Com uma melodia um tanto esquisita e uma letra espetacular, temos aí o desequilibrio que é o samba do Império Serrano pra 2016. A letra é fantástica e temos momento de felicidade ímpar em sua composição. Confesso ao leitor que sempre me emociono no trecho: “Estava o Império Serrano, reizinho do meu lugar, pro santo guerreiro abençoar”. Porém, infelizmente, o motivo que me não deixa ser arrebatado é justamente a melodia, que está muito para trás para o meu gosto. Apesar disso, tenho a certeza de que o Império Serrano terá um bom samba na tentativa de voltar ao seu lugar. A interpretação de Pixulé é emocionante na segunda passada, principalmente no fim, quando se lembra do Jongo remetendo a Roberto Ribeiro.

Nota: 9,8

Caprichosos de Pilares

Enredo: “Tem Gringo no Samba!”

Compositores: Gabriel Fraga, Régis, Rute Labre, Franco Cava, Luiz Careca e Ricardo Santiago.

Intérprete: Thiago Brito

Esse é um samba que muita gente não gosta e, mesmo sem ser perfeito, me agrada bastante. Confesso que quando saiu o enredo em homenagem aos gringos que fizeram sucesso no Brasil com enfoque especial ao Petkovic, fiquei com muito medo de algo pior. Quando escutei o vencedor da escola fiquei aliviado. Se não é uma obra espetacular, essa não passa vergonha. Pelo contrário, a composição é alegre como a escola e conta bem a salada que é o enredo. Gosto muito da melodia, que foi construída pensando na animação. A letra não é uma tragédia, mas é um tanto pobre por conta do enredo. Por conta disso, mesmo sendo um samba legal de se ouvir, não dá pra avaliar a obra muito bem, sendo apenas um samba que deve funcionar na avenida. O intérprete Thiago Brito não consegue fazer uma boa gravação, tendo desempenho razoável.

Nota: 9,6

Unidos de Padre Miguel

Enredo: “O quinto dos infernos”

Compositores: Toninho do Trailler, Jr Beija flor, Marcelo do Rap, Thiago Alves, Alair Perobelli, Diego Alan e Samir Trindade

Intérprete: Luizinho Andanças

Outro samba que me agrada muito é o da Padre Miguel. O enredo “O quinto dos infernos” é contado de forma espetacular pela composição que é crítica, sarcástica e irreverente no ponto certo. A letra é debochada e tem sacadas que eu considero simplesmente fantásticas como as vistas nas linhas: “Lá vem João, seu banquete à frente, comeu o frango e restou osso pra gente” e “somos a terra dos esfarrapados, igual ao índio nos deixaram pelados”. Por outro lado, a melodia, apesar de bastante correta, não tem em minha análise o mesmo brilhantismo da letra. Não sendo, portanto, uma obra tão homogênea e fazendo com que não leve a minha nota 10. Luizinho Andanças, se não brilha e agrega a obra, tampouco faz uma gravação ruim, tendo assim uma atuação segura.

Nota: 9,9

Acadêmicos do Cubango

Enredo: “Um banho de mar à fantasia

Compositores: Sardinha, Gustavo Soares, Wagner Big, Diego Moura, Julio Alves, Marco Moreno, Samir Trindade, Elson Ramires e Cláudio Russo.
Participação Especial: Adriano Boinha

Intérprete: Hugo Júnior

Último samba do grupo era um dos que mais me agradava em sua versão concorrente. O samba da verde e branco de Niterói – que teve uma gravação no CD muito abaixo do que se espera – é muito bem construído melodicamente, o que encanta quem escuta. A letra, em que pese a confusão do enredo da escola, que mistura Água, Irmãos Grael, Orixás e muito mais coisas, segue uma linha interessante, sendo dessa forma correta. Entretanto, a citada por outro lado não consegue por conta do enredo ser do mesmo nível da melodia, causando outra vez um desequilíbrio na obra. Portanto, apesar da confusão do enredo e da produção da faixa abaixo do esperado, a Cubango terá mais uma vez uma obra bastante agradável para encerrar os desfiles da Série A. Hugo Júnior não consegue fazer uma boa gravação mascarando um pouco a beleza da obra.

Nota: 9,8

A Gravação do CD

A produção do CD mudou de mãos para o Carnaval de 2016, saiu Leonardo Bessa e entrou Ivo Meirelles. A troca causou muita polêmica já que a produção do CD de 2015 foi bastante elogiável e rendeu até um “Disco de Ouro” para a Lierj. Feita a troca, com a divulgação da primeira passada do CD de 2016, mais polêmica pintou. Houve muitas críticas pelas mudanças do CD, causando inclusive uma defesa acalorada de Ivo Meirelles ao CD em seu Facebook.

Um destaque positivo que faço do CD é a assinatura da bateria da escola no fim de cada faixa. Criando uma identificação rara, essa ideia me causou boa impressão, já que valorizou o que eu considero um dos pontos mais importantes de uma escola de samba. Negativamente, não me agradou a introdução do grito de guerra dos intérpretes no meio da faixa, essa decisão poderia ser revista para o próximo ano. Além disso, a primeira passada em minha visão não teve um resultado satisfatório, sendo merecedora das críticas iniciais.

Portanto, apesar das polêmicas, o resultado do CD não ficou tão ruim quanto se pinta, algumas escolas tiveram suas obras valorizadas pela bateria (Império Serrano e Inocentes) ou pela atuação de seus intérpretes (Renascer e Tuiuti). Muito por isso, apesar de aquém da produção de 2015, em minha visão, o resultado geral se não é espetacular, é digno e pode melhorar ao longo dos anos se mantido.

Ranking do CD

Como houve notas iguais, vou colocar a preferência no ranking pelo meu gosto e não por achar melhor. Muito por isso, Renascer estará em primeiro e Viradouro em segundo.

1° – Renascer

2° – Viradouro

3° – Tuiuti

4° – Padre Miguel

5° – Alegria

6° – Império Serrano

7° – Inocentes

8° – Cubango

9° – Santa Cruz

10° – Rocinha

11° – Curicica

12°- Caprichosos

13° – Porto da Pedra

14° – Império da Tijuca

E você, leitor, qual é o seu ranking? Comentários, elogios, divergências ou xingamentos ao autor podem ser feitos nos comentários. Estarei respondendo a todos.

É isso!

Um abraço!

9 Replies to “Os sambas de enredo da Série A (Grupo de Acesso) do Rio de Janeiro – Sábado”

  1. Concordo com praticamente tudo!!! Ótima análise.
    Principalmente na análise da Serrinha, linda letra, mas falta algo principalmente no refrão principal com mais força, apesar de apresentar o desejo de muitos imperianos, se o refrão principal fosse menos arrastado seria um samba ótimo, para mim o refrão do meio é melhor. Minha ordem acho que não é muito diferente

    1 Viradouro
    2 Renascer
    3 Alegria da zona Sul
    4 Tuiuti
    5 Unidos Padre Miguel
    6 Império Serrano
    7 Cubango
    8 Santa Cruz
    9 Inocentes
    10 Curicica
    11 Rocinha
    12 Caprichosos
    13 Porto da Pedra
    14 Império da Tijuca

    1. Opa, fico feliz que gostou, de verdade.

      Só invertemos algumas escolas por questão de gosto pessoal que não tem jeito varia de pessoa pra pessoa. Mas é por aí mesmo, não discordo do seu ranking.

      Agradeço a leitura e o comentário.
      Abraços!

  2. Nesta análise, só discordo do Império Serrano: pra mim é 10. E poderia ser o melhor do ano se não fossem pequenos detalhes que fazem a voz do Pixulé ainda não se adaptar ao samba.

    Mas fico ansioso para ver seu desempenho na avenida. Será algo como o samba da D. Ivone Lara!!

    Mais uma vez, ótima análise!!

    1. Samba do Império é uma poesia, mas a melodia me incomoda bastante é muito para trás pro meu gosto. Mas faz parte, a letra é contagiante mesmo e enfoca perfeitamente o meu “Reizinho de Madureira”

      Obrigado pelo elogio, pela leitura e pelo comentário
      Abraços!

  3. Só eu achei lamentável a concepção do CD como um todo? Ivo Meirelles bebeu água de privada quando produziu o trabalho? Ideia de jerico colocar o tradicional grito de guerra entre a primeira passada do samba e a segunda. Não gostei. O trabalho do Leonardo Bessa na gravação de 2015 foi ANOS-LUZ superior a este disco.

    Mas a sorte é que a safra tem coisas boas. Aliás, vão me apedrejar se eu disser que um dos sambas que mais gostei é o da Alegria da Zona Sul?

    1. Mattar, se você viu o Bar Apoteose especial sobre os sambas do Acesso sabe que eu também gosto muito deste samba. O problema é que ele é mascarado pelo carro de som, que está longe de ser de ponta – mesmo para os padrões do grupo de Acesso.

      1. A ideia do grito no meio da faixa é simplesmente lamentável. No entanto, gostei das baterias, criou uma identificação rara no CD.

        Sobre a Alegria, concordo com o chefe.

        Obrigado pela leitura e comentário.
        Abraços!

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