Dois “adeus” me chamaram a atenção nas últimas semanas.
Rogério Ceni, pelo menos parece, vai finalmente encerrar a carreira. Com mais de 40 anos de idade entendeu que é o momento. Momento difícil na vida de um jogador; que como dizem morre duas vezes: na morte propriamente dita e quando encerra a carreira.
Rogério, chamado de “M1to” pela torcida são paulina, sempre foi um obstinado, um cara que gostava de superar limites e o que deixou aparentar é que não aceitava que a carreira poderia ter fim. Protelou ao máximo; pelo menos durante dois anos parecia que iria se aposentar e no fim da temporada aumentava um pouco mais, fosse para disputar Libertadores ou até o fim do ano. Aí chegava dezembro, voltavam os papos de encerramento e ele voltava atrás e continuava.
A questão toda, que me pareceu, é que Rogério não aceitava encerrar a carreira perdendo, justo ele um cara tão vencedor. O São Paulo não passa uma boa fase. Desde o tri brasileiro em 2008 só venceu um título, numa final de sul americana que durou apenas quarenta e cinco minutos, e nos últimos anos a situação política do clube fez parecer tudo estar bagunçado demais.
Rogério, supercampeão, não aceitava isso. Queria continuar, queria sair por cima campeão, queria ganhar novamente a Libertadores. Mas o São Paulo não chegava mais nem perto desse título. A cada fracasso a sensação que acabara, mas a cada dezembro e uma nova classificação para o torneio sul americano a esperança voltava.
Até que o corpo não aguentou mais. Corpo tão requisitado e sacrificado ao longo de mais de vinte anos de carreira começou a sentir o desgaste natural da idade e Rogério não venceu a luta contra o tempo.
Ninguém vence.
Poderia ter encerrado a carreira no fim de 2013 ou 2014, jogando como Kobe Bryant vem fazendo. Outro grande jogador, supercampeão que não venceu o tempo. Os problemas físicos começaram, a decadência do time prejudicou a tudo e veio a difícil decisão em uma linda carta. Kobe vem tendo mais sorte que Rogério. Pode se despedir jogando e recebendo aplausos em todos os ginásios. Coisa que não ocorreria com Rogério graças à rivalidade imbecil que existe no futebol aqui.
O cara não é ruim, bandido ou mau caráter porque fez carreira em outro clube e se consagrou lá. Ninguém é obrigado a jogar só no seu time. O torcedor imbecil tripudia, fala mal, vaia sem perceber que tratar assim um jogador rival é o maior dos elogios porque mostra o quanto esse atleta lhe incomoda.
A torcida do Corinthians mesmo tentando menosprezar Ceni mostra o quanto ele é importante e lhe machucou, assim como a torcida do Flamengo faz até hoje com Edmundo.
Nas arenas da NBA não ocorre isso porque o torcedor sabe que aquele rival também lhe ajudou a amar o esporte.
Pessoalmente nem acho Rogério Ceni um dos maiores goleiros que já vi; acho comum. Mas a torcida do São Paulo lhe ama e quem sou eu para julgar o amor? Além disso não dá para discutir que sua grande habilidade com a bola nos pés, que lhe transformou em artilheiro, e o imenso carisma fazem sim desse momento especial.
Já de Kobe sou grande fã, até porque sou Lakers. Virei torcedor da franquia de Los Angeles no momento errado, quando começava a dinastia Bulls.
Kobe Bryant, Phill Jackson, Shaquille Oneal e cia me deram alegria de ser campeão da NBA (coisa que Pedro Migão não sabe como é), várias vezes campeão. Shaq ainda me irritava nos lances livres, Kobe me dava a alegria e o prazer de ver meu time com grande maestro.
É triste quando um ídolo para até porque no mundo de hoje é difícil surgir novos ídolos, ainda mais quando o dinheiro fica mais importante que o amor ao esporte. Por isso é hora de agradecer a Rogério Ceni e Kobe Bryant tudo o que fizeram.
Quis o destino que de tanto protelar o fim que Rogério se aposentasse sem jogar. Quis o destino que Kobe se aposentasse em um dos piores Lakers da história. Mas o destino quis que os dois fossem imortais. Eles não têm do que reclamar.
E nós só temos a agradecer.
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[N.do.E.: Kobe Bryant afirmou em entrevista que gostaria de encerrar a carreira nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Resta saber se será convocado pelo ‘Coach K’, técnico do Dream Team. PM]
Imagens: Arquivo Ouro de Tolo e Espn