Você que é leitor do Ouro de Tolo já deve ter visto um bom número de análises sobre os sambas do Grupo Especial feitas pelos nossos colunistas nas últimas semanas. Ainda assim, resolvo quebrar esse longo hiato de mais de sete meses sem falar de Carnaval para começar a colocar aqui no Ouro de Tolo as minhas impressões acerca dos desfiles que se aproximam. Para começar, claro, escolho fazer uma análise sobre o CD oficial dos sambas-enredo do Grupo Especial do Rio de Janeiro.
O CD é o mais agradável de se escutar no Século XXI. Embora considere também a melhor safra nesse período, reconheço a concorrência próxima do ano de 2012, o que me deixa em dúvida quanto a essa supremacia. Por outro lado, a fantástica produção e o ótimo nível dos sambas que ficam na parte inferior da preferência de quase todo mundo me fazem crer que trata-se, sem sombra de dúvida, do melhor disco desde que a palavra “disco” caiu em completo desuso. A produção comandada pelo competente time da Liesa com Zacarias Siqueira, Mário Jorge Bruno e Laíla valorizou como há muito tempo não se via os coros das comunidades. Em algumas faixas a voz do povo chega a cobrir a voz do cantor principal, o que dá uma impressão muito louvável de que estamos ouvindo o samba na Avenida.
Um outro ponto a se considerar é a melhora inquestionável dos enredos e das próprias escolhas do samba. Discordei de várias delas, mas nenhuma escola desperdiçou um grande samba em detrimento de uma obra de qualidade ruim. O primeiro fator contribuiu para uma melhora absurda do nível das disputas, enquanto o segundo, também influenciado pelo primeiro, garantiu a ótima qualidade do produto final. Sem mais delongas, vamos aos sambas, na ordem inversa de minha preferência e em uma série de três artigos: hoje, os classificados entre o décimo segundo e o nono; amanhã do oitavo ao quinto e sexta do quarto ao melhor, além das notas finais.
https://www.youtube.com/watch?v=M3vaqPXBYio
12) Acadêmicos do Grande Rio: “Fui no Itororó beber água, não achei. Mas achei a bela Santos, e por ela me apaixonei…” – Emerson Dias
Composição: Márcio das Camisas / Mariano Araújo / Competência / Kaká / Dinho Artigrili
Um dos motivos que me fazem acreditar que esse é o melhor CD do Século XXI é o fato de ter o melhor pior samba de uma safra nesse período. Embora seja o samba que menos me agrade na safra, o hino da Grande Rio para o enredo sobre a cidade de Santos é, curiosamente, o melhor da escola nos últimos anos, talvez perdendo apenas para 2013 (samba esse pelo qual tenho uma inexplicável simpatia, registre-se). Os compositores tinham missão complicada, já que o enredo não foi nada bem desenvolvido, mas foram bem.
Agrada-me bastante a opção da escola por sambas mais alegres na falta de uma obra de maior qualidade. Depois do arrastado samba de 2012, a agremiação de Caxias está bem mais solta e os compositores foram muito felizes no desenvolvimento da obra, apesar de alguns deslizes que comprometem a qualidade do samba tecnicamente falando. Para começar com elogios, destaco o refrão principal. Apesar de não apresentar nenhuma inovação e usar de rimas simples, não compromete. É animado e passa a essência do enredo nos versos “Desembarquei no porto da felicidade / Quanta beleza pra curtir nessa cidade”.
A letra na primeira parte é bem construída – à exceção da falta de concordância em “Beber na fonte que me faz apaixonar” – separando com clareza os trechos que contextualizam o enredo e os que iniciam a história. Essa transição é bem explícita inclusive melodicamente, com a mudança do verso “Santos… Maravilha de lugar” para “De além-mar chega o colonizador” encaixada através de uma extensão depois do primeiro “(vou contar)”. Porém, a estrofe seguinte, que começa em “Veio gente de todo lugar pra somar”, tem muitas mudanças melódicas, quebrando totalmente a continuidade dos desenhos musicais. Para piorar, os três refrães colados foram unidos sem repetição pela escola, o que aumentou ainda mais o estranhamento quanto à melodia. Um problema da melodia na primeira parte persiste nesta estrofe: o samba é construído em um tom excessivamente alto, o que não agrada aos ouvidos e prejudica o canto.
A segunda parte é mais tranquila, mais agradável de se ouvir, mas novamente apresenta mudanças melódicas incômodas, como a transição mal resolvida entre “Celeiro do eterno campeão” e “Ê! Menino bom de bola!”, além de um descompasso visível em “Tá no gramado a paixão”, onde a letra é atropelada pela melodia. Pensando em Avenida, é um samba agradável e que pode render, mas, tecnicamente, deixa a desejar. Emerson Dias fez uma excelente gravação, a melhor de sua carreira, e deu outra cara ao samba.
https://www.youtube.com/watch?v=E8AyeN0_4Vw
11) União da Ilha do Governador: “Olímpico por natureza. Todo mundo se encontra no Rio” – Ito Melodia
Composição: Capitão Barreto / Miguel / Marquinhus do Banjo / Roger Linhares / Paulo Guimarães / Dr. Robson / Jamiro Faria / Gugu das Candongas
Não é um samba ruim, mas o enredo sobre os deuses do Olimpo conhecendo o Rio de Janeiro no ano dos Jogos Olímpicos ganhou um samba que não se destaca em uma safra de altíssimo nível, embora tenha seus bons momentos. A letra é muito bem feita e capta com muita clareza a essência do enredo. O enredo é leve, pra cima, e a letra também é. Gosto muito dos versos iniciais: “Vem, chega mais perto, sente o meu calor / Bem-vindo à Ilha do Governador / Braços abertos, vou te ver chegar”, embora, na sequência, apareça um pouco feliz verso “Os deuses por Zeus abençoados”, que não faz o menor sentido e acaba beirando o trash.
Porém, na sequência o samba volta aos trilhos e conduz com clareza o passeio insulano pelo Rio de Janeiro que os deuses encontraram. Outro trecho muito inspirado é o da saída do refrão do meio: “Ser carioca é tipo assim / Paixão, prazer, amor sem fim”. Sem sobressaltos, a letra continua sendo conduzida com muita clareza. O refrão principal me incomoda pelo verso “Meu maior desejo é vencer ou vencer”. Para o meu gosto, a frase não apresenta muito sentido e apresentou uma solução simples para completar a rima da estrofe.
Quanto à melodia, fico bastante incomodado quanto à ausência de um momento de maior explosão. O samba segue o tempo todo uma linha melódica calma, que contrasta com o enredo, chegando a se arrastar em alguns momentos, inclusive o refrão principal. O samba sai de sua “zona de conforto” apenas uma vez: nos versos finais, a partir de “Já somos todos irmãos”. O problema é que a transição não foi bem resolvida e ficou desconexo melodicamente, além de, na sequência, apresentar uma subida de tom desagradável em “E todo mundo cai no samba”, seguida de uma descida abrupta que leva ao refrão principal. Ito Melodia mudou seu estilo de interpretação para encaixar ao samba que vai na mão contrária de seu perfil (Ito é explosão e esse samba é bastante sereno) e mais uma vez gravou com extrema competência.
10) Mocidade Independente de Padre Miguel: “O Brasil de La Mancha: Sou Miguel, Sou Cervantes, Sou Quixote Cavaleiro, Pixote Brasileiro.” – Bruno Ribas
Composição: Jefinho Rodrigues / Marquinho Índio / Jorginho Medeiros / Jonas Marques / Domingos PS / Paulo Ferraz / Lauro Silva / Lero Pires / Wander Pires
Devo dizer que gosto muito desse samba e desse enredo. Sinto falta de críticas sociais no Carnaval e apesar da falta de clareza da sinopse, vejo com bons olhos essa mistura entre literatura nacional e estrangeira em contextualização com o momento atual do Brasil. O samba, assim sendo, não é de fácil compreensão e comunicação, mas é bastante agradável. Porém, tal como no caso da Grande Rio, acho que, apesar de muito bem idealizado, o hino da Estrela-Guia tropeça em alguns pontos quase banais que acabam falando alto em uma avaliação mais técnica.
Começo pelos elogios, porém. Acho o refrão principal um dos mais bonitos de todo o CD pois, ao mesmo tempo, faz uma declaração de amor à escola e encaixa um trecho do hino nacional, o que tem perfeita conexão com o enredo. A propósito, já digo logo que não tenho nenhuma ressalva quanto à melodia do samba. Do início ao fim, é construída com muita competência, sem nenhuma quebra mais estranha, e se desenvolve respeitando a letra, sem atropelamentos. Melodicamente, os dois refrães são os pontos que chamam atenção, fazendo com que o samba não se arraste. Além disso, temos uma descida de tom maravilhosa em “Caminhando e cantando uma nova canção”. Depois, um novo momento de explosão em “Lavando a alma da “Mocidade””, respeitando o momento mais “alto astral” do enredo.
Voltando à letra: o início do samba faz um esforço perceptível para explicar a ligação entre Cervantes e a história que ali será contada. E consegue. Porém, derrapa no mais simples: não há conexão entre os dois primeiros versos – “Louco, apaixonado…” e “Voar, sem limites sonhar…”. Por outro lado, destaco na primeira parte os versos “Errante, acerta o rumo da história / Pras manchas desse quadro remover”. Na outra mão penso que faltou cuidado com a concordância nos versos “A honra do negro, a tal liberdade / Que sempre haveria de ter”.
Na segunda parte, o primeiro ponto que me causa incômodo é o verso “”Ser tão” Conselheiro regando as veredas”. A necessidade de se fazer esse trocadilho com “sertão” e “ser tão” vem sendo tão grande e automática no Carnaval que, nesse caso, os compositores não conseguiram com que fizesse sentido. Gosto da ideia do verso “Faz clarear as tenebrosas transações”, que abre um trecho que vejo receber muitas críticas, mas que acho de uma poesia a princípio não muito perceptível.
Vejo também uma sintonia maravilhosa com o enredo e com o que imagino ser a plástica proposta pelos Carnavalescos em “Lavando a alma da “Mocidade” / Lançando “jatos” de felicidade” porque o trecho final do enredo é justamente esse: a superação das mazelas e a alegria trazida pelo Carnaval. Aliás, também me agrada demais o trecho “Numa ofegante epidemia que se chama Carnaval”. Acho forte e muito bonito. Em sua parte final, entretanto, o samba dá mais uma derrapada. Me incomoda o “É hora da estrela que sempre vai brilhar!”. O final do desfile e do samba não pode ser “a hora” da estrela porque o samba começa dizendo justamente “Que a luz da estrela vai guiar”. Destaque-se a ótima gravação de Bruno Ribas, que deu vida nova ao samba.
https://www.youtube.com/watch?v=ttR44-onAZg
9) Estácio de Sá: “Salve Jorge! O Guerreiro na Fé.” – Leandro Santos, Dominguinhos do Estácio e Wander Pires
Composição: Júlio Alves / Edson Marinho / Adilson Alves / Jorge Xavier / André Félix / Jorge Babu / Salviano
Não é nenhum samba espetacular, mas é um samba muito forte. Dentro do espírito do enredo sobre São Jorge, o Berço do Samba volta ao Grupo Especial com um samba valente, pesado e muito correto. A mensagem do enredo é transmitida com muita clareza e a obra recorre a expressões que são facilmente assimiladas ao Santo Guerreiro. Um bom exemplo é o refrão principal, onde destaco um verso interessante: “Por dia mato um dragão, sou brasileiro”. Apesar da letra muito boa, entretanto, há um descompasso melódico justamente no verso que destaquei, onde a letra é atropelada pela melodia.
A exemplo do que ocorre no samba da Mocidade, a melodia aposta em uma construção homogênea, sem sobressaltos, optando por se destacar pelos refrães. O refrão do meio, por sinal, também me parece extremamente popular quando pega trechos da oração a São Jorge: “Estou vestido com as armas de Jorge / Meus inimigos não vão me alcançar”. Porém, nesse refrão do meio fica flagrante um erro que me incomoda bastante em todo samba. A letra basicamente se divide, à exceção do final, em duas partes. Uma biográfica, que conta a história de São Jorge em terceira pessoa, e uma mais religiosa, falando diretamente a ele em segunda pessoa.
O problema é que as duas partes acabam se confundindo e se misturando, quebrando completamente a conexão da letra. No citado refrão do meio, repito, isso fica claro pois depois dos versos apontados vem “Tu és bondade pelo mundo inteiro / Santo Padroeiro, igual não há”. Melodicamente falando, o trecho que mais me agrada é justamente a saída do refrão do meio. A estrofe, na verdade, ganha uma continuidade no início da estrofe seguinte em “Rogar teus milagres em devoção”. Na sequência, contudo, vejo nova quebra de sentido na letra nos versos “Em proteção, orai ao glorioso Pai / Mesmo da Lua por nós olhai”, onde fica subentendido que é São Jorge que ora a Deus, o que pelo menos a mim não faz tanto sentido.
Daí em diante, porém, letra e melodia ganham entrosamento perfeito quando passam o clima da Alvorada de São Jorge. Destaco os versos finais: “Prepare o feijão, ê, baiana, põe tempero / Dá no couro, batuqueiro / Pra minha Estácio de Sá / Fazer da Avenida seu altar”. É outro trecho bastante popular e de fácil assimilação. Fiquei surpreso com a opção por uma gravação homogênea com Leandro Santos, Dominguinhos e Wander Pires (o primeiro já saiu da escola e o segundo enfrenta problema sério de saúde). Foi uma opção interessante, que não permitiu que nenhuma voz se sobressaísse. Ótima gravação.
Amanhã continuamos, com mais quatro sambas.
Léo, assim como o “tenebrosas transações” foi muito bem pinçado de “vai passar” do Chico, “a hora da estrela” é um livro da Clarice Lispector. Vale o registro e parabéns pela análise.
Valeu, Raphael!