O Vasco da Gama está novamente rebaixado para a Série B do Campeonato Brasileiro. Tetracampeão nacional, dono de uma das maiores e mais apaixonadas torcidas do futebol brasileiro e um dos maiores patrimônios futebolísticos do país, o cruzmaltino conheceu pela terceira oportunidade em sete temporadas a dor de terminar a última rodada de um Brasileirão nas quatro últimas posições. No ano que vem, pela terceira vez em sete anos, passará toda a temporada em um lugar que não é o seu: a segunda divisão.

O futebol pode ser cruel às vezes. Um ano mal planejado pode te jogar sem piedade para a Série B. Muitos foram os times que vinham bem, estáveis, com boas campanhas e de repente pararam na Segundona. Por outro lado, não foram muitos os que não se planejaram e conseguiram permanecer na elite. O futebol é cruel e raramente perdoa. Quem não se planeja, quem para no tempo, quem acha que “time grande não cai” recebe, cedo ou tarde, a conta. O futebol não perdoa descaso.

É impressionante como todas essas coisas se encaixam no caso do Vasco.  Um dos mais vencedores no Brasil entre 1989 e 2000 (três títulos brasileiros e uma Libertadores), o Vasco ficou conhecido por grandes times e também por um nome. Eurico Miranda. Fanfarrão, polêmico, falastrão. Autoritário, dono de um pensamento muito conhecido por aqui. Dono da linha de pensamento que acha que com um charuto e uma meia dúzia de palavras e conchavos, se resolve qualquer coisa.

mensaloeuricoNão é assim. Não é mais assim, pelo menos. Ano a ano, Eurico foi vendo desmoronar o Império da Canastrice e foi vendo o Vasco se tornar coadjuvante. O time não perdeu sua grandeza, mas tua imensa torcida bem feliz viveu de espasmos. Nem Carioca ganhava mais.

Até que um dia, em um ano onde o time não se planejou direito, veio o rebaixamento. Com ele, uma troca de comando. A esperança em um jogador de futebol, o maior da história do clube. Era bom e colorido acreditar que o rebaixamento veio por acidente. A volta por cima em 2009 somada a um ano fantástico em 2011 e a um bom 2012 corroboravam com isso. Os problemas existiam, mas o Vasco trilhava um bom caminho, diziam os otimistas.

Roberto Dinamite não foi um bom Presidente. Foi um Presidente ruim, mas que pouco gritou. Tentou, de um jeito mambembe, administrar um clube com o pouco que sabia. Não conseguiu. Veio 2013 e, de maneira ainda pior que em 2008, o time lamentável do Vasco caiu de novo. Começava a ficar difícil falar em acidente. Para piorar, 2014 trouxe um imenso sufoco para a volta à elite. Um sufoco que jamais algum grande passou na era dos pontos corridos – foi o primeiro deles a voltar sem ser campeão. Era hora de mudar. Ou não. A “mudança”, na verdade, foi uma volta aos pouco saudosos anos 90 do futebol brasileiro. Uma aposta de risco. Uma aposta em Eurico Miranda.

O Vasco apostou na tese de que quem fala mais alto sempre vence. O Vasco apostou que em 2015 ainda “respeitam” uma figura caricata que deveria ser peça de museu – e longe da seção das glórias. Não há o que comentar sobre o resultado. O Vasco volta para a Série B e sequer pode falar que foi injusto. Por mais que a campanha no segundo turno tenha sido boa e que o time tenha sido a meu ver bastante prejudicado pela arbitragem, quem soma 13 pontos nos 24 primeiros jogos do Campeonato pode reclamar de pouca coisa. O rebaixamento do Vasco é uma consequência óbvia e natural das escolhas que o time fez na área administrativa e que levaram a uma série de decisões erradas dentro de campo.

vascofluminenseengenhaoO Vasco seguiu em 2015 uma cartilha para ser rebaixado. Montou um elenco fraco e velho. Se iludiu com um título em um dos piores Campeonatos Carioca da história. Começou mal e, a partir daí, foi contratando à baciada para dar respostas à torcida. O falastrão Eurico, como era de se esperar, não pensou em momento algum neste 6/12/2015. Pensava sempre na resposta imediata. Em uma frase de efeito que confortasse a torcida que, inocente, não sabia mais no que se agarrar.

Não dá para culpar. Torcedor não tem lógica. A culpa é de quem votou e de quem acreditou que os anos 1990 não passaram. Tenho certeza que, nesse momento, muitos dos que elegeram Eurico ainda acreditam que o Super-Herói que foi criado pelo próprio Eurico para justificar suas insanidades vai conseguir, com seu charuto que é quase uma varinha mágica, uma virada de mesa que mantenha o cruzmaltino na Série A.

Não, não vai. Não vai porque o futebol não é assim. Não é de Eurico que o Vasco precisa. O Vasco precisa de um rumo. Aproveitando o nome do clube, faço uma analogia com a navegação. O Vasco é uma caravela sem rumo. Sem timão, sem bússola e com um comandante que pensa que com algumas baforadas vai levar a embarcação para onde quiser. Não, não vai. Qualquer brisa é mais forte que as baforadas do Dr. Eurico e, por isso, não é ele quem dita os rumos do clube.

O Vasco está entregue ao sabor do vento. Para onde o vento assoprar, o Vasco vai. A embarcação é forte, não afunda. Não há comandante que tire a beleza e a grandiosidade dessa caravela. Nada vai fazer os seus ocupantes – aqueles que são verdadeiramente apaixonados por esse clube – pulem do barco. É uma relação tão bonita e única que apenas aumenta a necessidade de um comandante de verdade. Nenhum salvador da pátria. Apenas alguém que saiba guiá-los. Que fale menos e trabalhe mais. Nenhum “acidente de percurso” acontece três vezes em sete anos. Não é difícil notar que o vento que supera as baforadas só consegue encaminhas o Vasco da Gama para as tenebrosas terras da Série B.

Coritiba 0 x 0 Vasco

Um resumo do que foi o segundo turno do Vasco. Um time extremamente limitado, consciente de suas limitações e que compensa com uma boa dose de luta a deficiência técnica que possui. O Vasco, muito mais desesperado que o Coritiba, enfrentou um gramado pesado e pouco pôde fazer. O tempo todo tentou ligações diretas na esperança de que Nenê resolvesse as coisas como resolveu em alguns momentos no Campeonato. À medida que o tempo foi passando, o desespero foi aumentando e novamente apareceu a limitação física. Impotente, o Vasco ainda sofreu com perigosos contra-ataques e pouco assustou efetivamente. Poderia ter vencido o jogo, se tivesse um pênalti a meu ver claríssimo marcado a seu favor. Ainda assim, teria sido rebaixado. E não foi, insisto, injusto. Foi o reflexo do que apresentou no Campeonato.

atleticomgpalmeirasAtlético Mineiro 3 x 0 Chapecoense

Ah, se o Atlético tivesse jogado assim o Campeonato Brasileiro todo… Com um Mineirão surpreendentemente cheio (cada vez entendo menos o amor dos atleticanos pelo Independência), o Galo pegou um time muito bem organizado e passeou. Tocando muito bem a bola, apostou em jogadas rápidas e assim as chances foram saindo. Ter feito o gol no início também ajudou o time da casa a se soltar mais e a atuação veio em uma crescente até culminar nos dois outros gols que definiram o jogo. A Chapecoense, por sua vez, foi o oposto. Burocrática, quase de férias, assistiu à grande atuação mineira resistindo apenas pela boa compactação tática de sempre. Um ótimo final de ano pro Galo, coroado com o vice-campeonato, antes de um 2016 ainda incerto.

Santos 5 x 1 Atlético Paranaense

É inacreditável o que o Santos fez para perder essa vaga na Libertadores. Ao focar totalmente na Copa do Brasil, marcou apenas 2 pontos contra Flamengo, Joinville, Vasco e Coritiba. Agora, depois do fracasso na final, uma atuação perfeita, digna do grande time que possui. Começou, é bem verdade, com um susto provocado pelo gol do Atlético Paranaense. Depois disso, porém, um passeio. Contra um Furacão extremamente frágil e com muitas falhas de marcação, o Santos passeou com muita velocidade e um toque de bola infernal. Os gols, apesar dos erros atleticanos, foram todos frutos de jogadas pensadas com inteligência e o Santos goleou sem fazer muita força. Ironicamente, uma vitória para deixar muito torcedor de cabeça quente. É quase inacreditável ver o Santos de fora da Libertadores.

Joinville 0 x 2 Grêmio

Um jogo extremamente prejudicado pela chuva, como foram várias na Arena Joinville. O Grêmio fez um gol no começo do jogo e aí ficou basicamente controlando a vitória contra um Joinville que estava ali apenas para tentar encerrar com dignidade uma trágica campanha na Série A do Brasileirão. E o Joinville foi até um pouco superior ao Grêmio em alguns momentos. Pouco antes do trágico segundo gol que sofreu, por exemplo, tinha colocado duas bolas na trave. Depois da trapalhada com a poça d’água que definiu a vitória gremista, o jogo seguiu até o final sem muitas emoções e assim terminou.

em-2001-vampeta-estreava-pelo-flamengo-na-primeira-vitoria-dos-cariocas-contra-os-baianos-em-12-anos-2-x-0-fora-de-casaFlamengo 1 x 2 Palmeiras

Jogo extremamente chato com um primeiro tempo trágico e que me deu a impressão de que nem a torcida estava interessada no que se passava ali – os flamenguistas foram lá comer e rir da cara do Vasco. O segundo tempo seguia pelo mesmo caminho e só deu uma mudada de rumo quando o Palmeiras fez o gol e o Flamengo foi tentar minimizar o péssimo Brasileirão que fez. Contando com uma bobagem absurda do sistema defensivo palmeirense – fica cada vez mais claro que o Fernando Prass não pode se machucar nunca -, o Flamengo empatou. Mas o time é tão desorganizado e sem rumo, que foi só o empolgado Palmeiras forçar mais um pouquinho de novo que a décima nona derrota no Brasileirão veio. Podia ter sido muito melhor para ambos, mas se tem alguém que tem que jogar uma pedra em cima de 2015, é o Flamengo. [1]

Corinthians 1 x 1 Avaí

Mais uma péssima atuação do Campeão Brasileiro. A impressão que eu tive é que o Avaí entrou na Arena sabendo que só escaparia do rebaixamento se seus rivais perdessem. E que ficou surpreendido quando viu que o Corinthians não conseguia jogar. Até começou animado, tocando com velocidade e ditando seu ritmo, mas foi murchando aos poucos e os catarinenses foram se animando. Com um dos times mais limitados desse Brasileirão, os catarinenses foram jogando do jeito que dava e aproveitando a sonolência do adversário conseguiram o gol de sua salvação. Se é que existe isso, o gol veio “cedo” demais. Deu tempo para o Corinthians ir atrás de seu recorde de melhor time da história dos pontos corridos com 20 clubes e, com extrema superioridade, empatou o jogo. Não virou não sei como, porque perdeu no mínimo duas ótimas oportunidades. Nada a se lamentar, mas esse final de temporada do Timão foi bem fraquinho. Ao Avaí, o destino que eu pelo menos esperei desde o início. Ter chego à última rodada com chances foi quase um milagre.

Internacional 2 x 0 Cruzeiro

O Inter resolveu se despedir fazendo o jogo que deveria ter feito desde o início do Campeonato. Pegou um time forte e dominou completamente. A fase de Vitinho, autor do golaço que abriu o placar, é iluminada e o time prova que tem um potencial gigantesco. Venceu com autoridade, jogando bem e errando pouco. Ajudou um pouco a passividade de um Cruzeiro sem objetivos, mas não dá para tirar os méritos da boa atuação colorada. Pena para seus torcedores que foi tarde demais. O estrago causado pelos imensos pontos bobos perdidos ao longo das outras 37 rodadas acabou sendo, como não era difícil de prever, irremediável.

Goiás 0 x 1 São Paulo

Se durante 37 rodadas o São Paulo fez tudo o que podia para ficar fora da Libertadores, no último jogo não foi diferente. A torcida do Goiás, que parece ter achado apenas no último jogo o caminho do Serra Dourada, empurrou o time e fez do virtual rebaixado uma equipe superior àquela que lutava por G-4. Não no primeiro tempo porque neste nada aconteceu, mas sim no segundo, quando, em determinado momento, a salvação do rebaixamento parecia possível. O Goiás perdeu chances e o São Paulo, vivendo um marasmo inacreditável, não conseguia reagir. O Tricolor abusou da sorte e brincou com a dita cuja. Esteve, realmente, muito perto de não jogar a competição internacional. Mas não conseguiu. A entrada do atacante Rogério deu novo gás ao time e foi o nordestino quem marcou o gol que acabou com o sufoco e decretou o fracasso da “estratégia” de destruir completamente um ano que tinha tudo para ser promissor. Ao Goiás, a volta para a Série B sequer abre margem para qualquer reclamação. Era simplesmente impossível qualquer final diferente para um dos piores times da história do clube.

Figueirense 1 x 0 Fluminense

De longe, o melhor jogo da rodada. A começar pela tensão dos dois lados. O Figueirense precisava vencer para escapar da Série B. O Fluminense precisava provar que não entregaria vergonhosamente o jogo. E o resultado foi uma partida aberta, com um primeiro tempo extremamente intenso e equilibrado, com boas chances dos dois lados. São dois times limitados, mas com bons valores e que cresceram com seus técnicos (o interino Hudson e o tricolor Eduardo Baptista). O gol logo no início do segundo tempo animou o Figueirense e esfriou o Fluminense, que também não tinha muitos motivos para comer grama. Embora houvesse sim a sombra da entrega, não se comparava à necessidade catarinense de vitória. E, no fim das contas, o grande ponto positivo do jogo foi afastar completamente qualquer suspeita de resultado arranjado. O Figueira ganhou na bola e ficou com toda a justiça na Série A. Sequer era pra ter se enfiado nesse buraco por tanto tempo.

Ponte Preta 0 x 1 Sport

Jogo tenebroso de ruim. Dois times preguiçosos, estádio vazio, pouca coisa em jogo e sensação de dever cumprido já fixa na cabeça de ambos os times, que fizeram ótima temporada. Afora o gol de Diego Souza em jogada muito bem trabalhada, quase nada a destacar. Vejamos se as duas equipes conseguem manter esse pique na temporada de 2016. Com um pouco mais de acertos ao longo do ano, brigar por Libertadores ou até por algo mais não vai ser nenhuma surpresa.

Classificação

Terminado o Brasileirão, eis a classificação.

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Público e Gols

– O Brasileirão terminou com uma boa média de público na última rodada, chegando assim a 16.924 torcedores por jogo. Fica atrás de 2007, com 17.357, 2008, com 16.955, e 2009, com 18.152. Nos demais anos foram 12.571 em 2006, 14.414 em 2010, 15.002 em 2011, 12.994 em 2012, 14.990 em 2013 e 16.394 em 2014.

– O gol do Palmeiras no fim do jogo lá no Maracanã permitiu que o Brasileirão chegasse a 900 gols, número superior no atual formato apenas a 2014 e seus 859 tentos. Nos demais anos, tivemos 1.028 em 2006, 1.025 em 2007, 1.004 em 2008, 1.072 em 2009, 965 em 2010, 1.016 em 2011, 940 em 2012 e 935 em 2013.

[N.do.E.: não iria mudar muita coisa, mas vale ressaltar que, da mesma forma que no jogo entre as duas equipes no turno, o Flamengo teve um pênalti cristalino a seu favor não assinalado pelo árbitro. PM]

Imagens: Arquivo Ouro de Tolo e RBS (Figueirense e Fluminense)