No final do ano, normalmente o calendário esportivo se torna bastante escasso. Mesmo a maioria dos campeonatos de futebol europeu para nas épocas de festas – com exceção aos torneios britânicos, que prosseguem as atividades, até com uma intensidade maior que o normal.
Outro país em que o calendário esportivo continua a todo o vapor nas viradas são os Estados Unidos, inclusive com eventos tradicionais – como a rodada da NBA no dia de Natal. Entretanto, uma boa opção para quem não dispensa assistir um evento esportivo mesmo entre as festas de fim de ano, a ceia farta, o recesso da maioria dos trabalhadores e a presença maciça daqueles familiares que você não vê há séculos, é o futebol americano universitário, que atinge sua fase mais aguda nesta época e é uma competição muito interessante, com transmissão ao Brasil, e desconhecida de parte do pessoal que assiste a modalidade por aqui – e que dá mais atenção à NFL.
No ano passado, nesta época, já escrevi uma coluna explicando todas as peculiaridades que fazem o chamado college football atrativo, apesar da complicadíssima fórmula de disputa.
Com jogos mais voláteis que a NFL, devido ao nível não tão profissional e às regras um pouco diferentes, o futebol americano universitário é capaz de proporcionar times (quase) virando um jogo após estarem perdendo por 49-14 no último quarto, como ocorreu no último Bahamas Bowl.
Existem, nesta temporada, outros 40 jogos*, como o Bahamas Bowl, que são comemorativos, mas importantes para as faculdades. Eles rendem prestígio, dinheiro para o programa esportivo (a fundação principal de todas as modalidades americanas e um dos motivos deles serem uma potência multiesportiva), para a academia em si e para as conferências em que as universidades envolvidas estão afiliadas (são 10 na primeira divisão do college football).
Sete desses jogos são bem importantes e três, de fato, são os que decidem o grande campeão da temporada. São os chamados bowls do New Year’s Six** (assim chamados porque acontecem entre o dia 31/12 e 1º/1) e a grande final nacional, que nesta temporada acontece em 11 de janeiro.
Escolhidos por um comitê de 13 nomes entendedores de futebol americano, incluindo a fanática torcedora de Stanford, Condoleezza Rice – que outrora foi secretária de Estado dos EUA, os quatro times iniciam o playoff do college football na véspera do Ano Novo (ao contrário da temporada passada, quando as semis foram no dia 1º).
Às 19:00, ao invés de ver aquelas matérias tradicionais e pautas sem criatividade do jornal estadual, de como será o réveillon na sua cidade, bote na ESPN (o canal que passa os jogos) e assista ao jogo entre Clemson, invicta na temporada, contra Oklahoma, um programa tradicionalíssimo que volta à disputa do título após sete anos.
Clemson, uma universidade da Carolina do Sul, tenta o primeiro título nacional desde 1981. O consistente trabalho do técnico Dabo Swinney sobe mais um degrau e, após duas aparições no Orange Bowl de 2012 e 2014, os Tigers agora disputam, de fato, o troféu principal.
Swinney assumiu o comando do time em 2008, foi campeão da conferência Atlantic Coast, a ACC, em 2011, o que deu a Clemson uma vaga no Orange Bowl. Entretanto, o time foi surrado por West Virginia por impressionantes 70-33. Dois anos depois, mesmo sem ganhar a conferência, Clemson voltou ao Orange Bowl pela campanha, já que Florida State, campeã da ACC em 2013 jogou a final nacional. Neste ano, Clemson e Swinney se redimiram da lavada anterior, ganhando da tradicional Ohio State por 40-35.
Já em 2015-16, a universidade da Carolina do Sul chega à virada do ano invicta, campeã de sua conferência e tendo sido indicada como a melhor dos EUA desde o primeiro ranking do comitê do College Football Playoff. Assim, Clemson chega de volta ao Orange Bowl, que agora vale como semifinal do futebol americano universitário, no segundo ano deste novo sistema de disputa.
Por outro lado, Oklahoma, comandada pelo quarterback Baker Mayfield, retorna ao local onde perdeu o título há sete anos, por 24-14 diante de Florida e Tim Tebow. Diferentemente daquele ano, Oklahoma vem com um ataque mais característico do futebol americano universitário atual, ou seja: com ritmo rápido, usando muito as pernas do QB e as jogadas de opção (formações nas quais o ataque pode decidir pelo passe, pela corrida com os running backs ou mesmo com o quarterback). Já na última aparição dos Sooners pelo título, havia um ataque mais próximo do profissional, apesar de uma inclinação muito forte ao passe, visto que o time contava com Sam Bradford under center.
Mayfield teve uma excelente temporada, concorreu ao Heisman (4º lugar), prêmio de melhor jogador do ano, com 70% de passes completos e 33 TDs marcados, além de ter comandado a equipe a três vitórias contra os outros três times fortes da conferência Big 12 em 2015. Texas Christian, Baylor e, principalmente, Oklahoma State não resistiram ao ataque dos Sooners. A arquirrival Oklahoma State foi vitima da vitória simbólica de Oklahoma no ano, por 58-23. Estes resultados fizeram o time brilhar para os olhos do comitê, que os deu a oportunidade de disputar o título.
Porém, uma derrota para a medíocre equipe de Texas, no meio do ano, evitou que Oklahoma ficasse a frente de Alabama e Michigan State, que terminaram com a mesma marca de só uma derrota no ano. Assim, os Sooners tem que encarar o time #1 do país.
Alabama e Michigan State se enfrentam na segunda semifinal da véspera do ano novo. O jogo vale pelo Cotton Bowl, antigamente disputado no estádio de mesmo nome (no qual o Brasil bateu a Holanda por 3×2, nas quartas de final da Copa de 1994), e hoje acontece no AT&T Stadium, do Dallas Cowboys, da NFL.
Aliás, a partida acontece às 23:00, na hora de Brasília. Ou seja, jogo para quem quer evitar os fogos da virada e para ser assistido na ceia de ano novo, dependendo do horário em que ela é servida…
Alabama chega ao jogo contando com a clássica fórmula de sucesso do treinador Nick Saban (acima). Defesa forte, quarterback longe de ser uma estrela – mas seguro, e um livro de jogadas mais focado em corridas e passes curtos, sempre contando com um running back muito forte. No caso, Derrick Henry, o ganhador do Troféu Heisman de 2015.
Henry correu para 1986 jardas em 13 jogos durante o ano (média de 152,8 por partida), o recorde da conferência Southeastern, além de ter anotado 23 touchdowns. O jogador é basicamente imparável, mesmo para fortes defesas. Florida, na final da conferência, cedeu 189 jardas ao jogador, mesmo sendo a 22ª defesa no quesito dentre 128 equipes – estatística liderada por Alabama, diga-se de passagem.
Além de tudo, conta a favor da Maré Vermelha (Crimson Tide), a experiência do técnico Nick Saban e seus quatro títulos nacionais, sendo três nas últimas seis temporadas.
O adversário Michigan State tem uma história um tanto semelhante à de Clemson. Um programa com sua tradição, que ficou um tanto apagado nas últimas décadas, mas agora volta ao palco principal com um firme e gradual trabalho de um técnico, no caso, Mark Dantonio.
Os Spartans não vencem um título nacional desde 1966. A universidade vem de duas vitórias seguidas em bowls tradicionais. Em 2014, Michigan State bateu Stanford no maior de todos, o Rose Bowl e, no ano passado, venceu o Cotton Bowl contra Baylor. Com o segundo título da Big Ten em três anos, a equipe volta a Dallas, desta vez num Cotton Bowl que serve de semifinal nacional também.
A equipe de Dantonio conta com uma defesa forte e um quarterback consistente em Connor Cook – apesar do jogador ter tido um ano praguejado por lesões. A vitória contra a então invicta Iowa na final de conferência veio no minuto final, com um TD para selar um placar baixo de 16-13. O triunfo colocou Michigan State no top-4 final do comitê, e tirou Iowa. Basicamente, o jogo foi uma “quarta-de-final” não oficial.
Durante o ano, Michigan State foi quem melhor aproveitou o nível forte das defesas e a enxurrada de jogos duros na Big Ten (das 30 melhores defesas do país, em pontos cedidos, sete são da conferência). A equipe, tal qual Oklahoma, venceu os três jogos contra as equipes mais fortes da conferência, além de Iowa, contra Ohio State e Michigan. Ambas as vitórias no minuto final. Aliás, na jogada final (contra Michigan, num retorno de punt bloqueado, com o relógio zerado). Assim como os Sooners, os Spartans também tiveram uma derrota para um time 5-7 (Nebraska).
A posição #3 para Michigan State é apontada por muitos como um capricho do comitê para permitir um confronto entre as tradicionalíssimas Alabama e Oklahoma apenas na final.
Alabama e Michigan State estão entre as 20 melhores defesas do país em pontos cedidos. Então, não esperem um jogo com muitos touchdowns. As duas equipes se enfrentaram pela última vez no Outback Bowl de 2011. Vitória de Alabama por 49-14. Enquanto Clemson e Oklahoma jogaram no Russell Athletic Bowl da temporada passada. Clemson também venceu fácil por 40-6. Porém, dois jogos em situações bem distintas das atuais.
Além das duas semifinais, quatro outros bowls tradicionais completam a maratona de Ano Novo. Para quem não dispensa esporte, mesmo na virada, escolha a loucura do futebol americano universitário e divirta-se… E já sei que o Editor Chefe estará ligado na telinha na noite do dia 1º, haja visto ser torcedor da tradicional Ole Miss.
Dia 31/12 – Peach Bowl (Atlanta): #9 Florida State x #18 Houston, 15:00. Orange Bowl, semifinal (Miami): #1 Clemson x #4 Oklahoma, 19:00. Cotton Bowl, semifinal (Arlington, Texas): #2 Alabama x #3 Michigan State, 23:00.
Dia 1º/1 – Fiesta Bowl (Glendale, Arizona): #7 Notre Dame x #8 Ohio State, 16:00. Rose Bowl (Pasadena, Cailfornia): #5 Iowa x #6 Stanford, 20:00. Sugar Bowl (Nova Orleans): #12 Ole Miss x #16 Oklahoma State, 23:30.
Dia 11/1 – Final (Glendale, Arizona – arredores de Phoenix, sede do último Super Bowl), 23:30***.
* Há diversos critérios para cada jogo, mas o requisito mínimo para um time ir a um bowl era ter vencido seis jogos durante a temporada. Como o número de vagas nos bowls foi maior que o de times com seis vitórias, equipes com cinco triunfos também entraram na festa.
** Assim como os playoffs, os participantes dos outros bowls maiores, os New Year’s Six, também são definidos pelo comitê dos 13.
*** Todos os horários são de Brasília.
**** A lista completa dos bowls, em português e nos horários de Brasília, pode ser vista no site The Fraternity. A previsão é de que cerca de 30 das partidas tenha transmissão para o Brasil.