Antes de tudo, amigos, peço licença ao companheiro Aloisio Villar para pegar emprestado de uma ótima coluna dele o título para este texto. Afinal, um dos Carnavais mais comentados até hoje nas mesas de bar, mesas redondas, rodas de samba ou fóruns de internet é aquele de 1989. Não sem motivo, como relembraremos a partir de agora.

Em diversas áreas da sociedade, aquele 1989 foi também marcante. Para os torcedores do Botafogo principalmente, pois o jejum de 21 anos sem título acabou com o famoso gol de Maurício sobre o Flamengo na final do Carioca. Para os fãs da Fórmula 1 também, graças ao embate entre Alain Prost e Ayrton Senna, vencido pelo francês após este ter causado uma colisão na penúltima prova da temporada, no Japão.

O começo de 1989 também é lembrado por mais uma troca de moeda, no caso o Cruzado Novo. Mas a inflação continuava firme e forte… Acabar com esse monstro, aliás, era o desafio dos candidatos à primeira eleição presidencial direta desde 1960. No fim, venceu Fernando Collor de Mello, que seria defenestrado do cargo em 1992.

Também em 1989, o Muro de Berlim foi colocado abaixo num símbolo da reunificação da Alemanha e do inevitável naufrágio do Socialismo.

Por aqui, o ano já começou também com um naufrágio, mas este, lamentavelmente, na acepção da palavra. A embarcação Bateau Mouche IV afundou na Baía de Guanabara durante os festejos do réveillon, matando 55 dos 142 ocupantes. O barco estava com mais de o dobro da lotação, sem contar os diversos problemas de infraestrutura.

Sócio de um dos empresários responsáveis pelo Bateau Mouche, Chico Recarey seria um dos homenageados no desfile de 1989, vejam só, pela Estação Primeira de Mangueira. Na época, Recarey era considerado o Rei da Noite carioca e a escola exaltaria a “Trinca de Reis”, formada por ele, Walter Pinto e Carlos Machado.

Nunca ficou provado, mas muitos disseram à época que Recarey, no auge da fama, teria, digamos, “investido” no desfile. O Baile da Verde e Rosa, diga-se de passagem, acontecia no Scala, famosa casa noturna de Recarey no Leblon, Zona Sul do Rio. Se o enredo por si já era polêmico, o samba escolhido então foi considerado pavoroso pela crítica.

Se a vice-campeã de 1988 estava envolta em críticas, a campeã Vila Isabel recebeu total apoio ao escolher o enredo “Direito é Direito”, sobre os 40 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. O samba era dos melhores do ano, mas a escola ainda sofria com a falta de quadra e recursos.

Quem também chegava debaixo de muita expectativa era a União da Ilha, com o enredo “Festa Profana”, sobre a história do Carnaval. O samba era muito popular e já estava na boca do povo antes mesmo do desfile. O refrão central, então, era daqueles que grudavam no ouvido: “Eu vou tomar um porre de felicidade/Vou sacudir, eu vou zoar essa cidade”.

A Beija-Flor apostava num enredo de crítica social extrema e prometia levar para a Sapucaí o “luxo do lixo” e o “lixo do luxo”. Joãosinho Trinta confeccionou uma alegoria com um Cristo Redentor mendigo e, nos dias que antecederam o desfile, a Igreja conseguiu vetar o carro na Justiça. Mas João garantia levar a alegoria assim mesmo…

Outras escolas tradicionais também vinham com bons enredos e/ou sambas, e esperava-se boas apresentações especialmente de Salgueiro, Portela e Império Serrano. A Imperatriz Leopoldinense, depois de escapar do rebaixamento após um acerto nos bastidores, prometia se recuperar com um samba antológico e o enredo “Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós”, sobre o centenário da Proclamação da República.

Como nenhuma agremiação acabou rebaixada no Carnaval anterior, 1989 marcou um recorde no número de escolas desfilantes: 18, com o retorno de Arranco e Unidos do Jacarezinho ao primeiro grupo.

OS DESFILES

A escola do Engenho de Dentro abriu de forma bastante digna o desfile de domingo com o enredo “Quem vai querer?”, no qual papéis históricos eram invertidos: por exemplo, os índios exploravam os colonizadores, as aves voavam livremente enquanto os homens ficavam engaiolados e o jogador de futebol negociava o dirigente.

O agradável samba dos compositores Sylvio Paulo, Juan Espanhol e Jarbas da Cuíca foi bem cantado e tinha um interessante verso que sintetizava o enredo: “E no avesso que criei/Você pode ser o rei desta folia”. 

A escola parecia com boas chances de permanecer no grupo, mas infelizmente o desfile acabaria marcado pelo acidente da destaque Neuza Monteiro, que caiu de um carro alegórico próximo à dispersão e, dias depois, viria a perecer.

Em seguida, passou a Unidos do Cabuçu, homenageando Milton Nascimento com um razoável samba-enredo mas sem um conjunto estético dos melhores. O carnavalesco Alexandre Louzada deixou a escola no meio da preparação, que ficou a cargo de Beto Sol, e a agremiação não tinha tantos recursos.

Como Milton só aceitou ser homenageado se o desfile fosse ecologicamente correto, ou seja, sem plumas e enfeites de origem animal, o trabalho do carnavalesco ficou ainda mais limitado.

Mas, como já vinha sendo praxe na escola, foi mais um enredo em homenagem a uma personalidade da cultura brasileira e por isso a assimilação para o público foi fácil, já que a divisão de carros e alas foi coerente. Uma apresentação simpática.

Já a Unidos da Ponte, ao contrário de anos anteriores, não tinha no samba-enredo o seu ponto forte, a despeito de contar com o grande Aroldo Melodia como intérprete para a trilha sonora do enredo “Vida que te quero viva”, sobre a preservação da natureza.

Tradicionalmente uma escola sem muito dinheiro para o barracão, a Ponte voltou a passar com alegorias e fantasias bastante simples. Com isso, a simpática escola de São Mateus era candidata ao descenso, já que quatro agremiações seriam rebaixadas.

A primeira das escolas mais fortes da época a entrar na pista foi a Mocidade Independente de Padre Miguel, com uma homenagem a Elis Regina. Sem contar com Fernando Pinto na confecção do desfile, a escola teve bom conjunto de fantasias mas nem tanto de alegorias – inclusive um carro quebrou ainda na concentração e nem passou.

O longo samba era muito agradável, sobretudo no refrão principal “Agora sou uma estrela/Trago um sorriso de amor e de verdade/Eu sou o samba/Sou a Mocidade”, e a Bateria Nota Dez como de costume o sustentou com muita firmeza no que seria o último desfile do cantor Ney Vianna, morto meses depois.

O destaque do desfile em alegorias foi o carro do Trem Azul, um dos grandes sucessos de Elis Regina.  No resto, um desfile típico de meio de tabela, mas sonhar mais era difícil dado o equilíbrio do desfile e o grande número de escolas.

Cercada de boas expectativas após a ótima estreia em 1988, a Tradição voltou a se apresentar com um excelente samba-enredo de João Nogueira e Paulo Cesar Pinheiro sobre o Rio de Janeiro.

Mas a escola não repetiu a boa exibição do ano anterior, muito por conta de problemas de evolução causados pelo excesso de alas coreografadas e pela demora na entrada devido ao longo grito de guerra, que só acabou quando o cronômetro já apontava mais de cinco minutos de desfile.

O conjunto alegórico também não foi dos mais auspiciosos, sem que houvesse um grande impacto nos elementos. De qualquer forma, naquele instante não parecia haver risco iminente de rebaixamento.

ilha1989Por volta das 4h15 de segunda-feira, a União da Ilha entrou com tudo na avenida. O samba de J.Brito, Bujão e Franco (este sem assinar) – ou “marchinha descarada e sem-vergonha” na opinião de Fernando Pamplona no comentário na transmissão da TV Manchete – explodiu como se esperava e a Tricolor fez a melhor exibição até aquele momento.

A escola contou os origens do Carnaval desde os séculos anteriores, passeando por outras manifestações que remetessem ao que nós conhecemos como a Folia de Momo. Falando nele, a comissão de frente tinha seus componentes representando o rei da folia. O bonito carro “Carruagens de Fogo” seguiu o cortejo, com fumaça saindo da parte traseira e coloração alaranjada representando o sol da Ilha. Logo depois, alas de pierrôs, arlequins e colombinas mostravam os personagens do Carnaval.

Outros belos elementos mostraram a folia no Egito, em Roma e em Veneza. Na alegoria que representava a Grécia, quem fez a festa de forma, podemos dizer, um tanto desinibida, foi a modelo Enoli Lara (foto), completamente nua… Em 2015, ela escreveu o pósfácio do livro “As primas sapecas do samba”, dos jornalistas Anderson Baltar, Eugênio Leal e Vicente Dattoli (ed. Nova Terra), sobre Caprichosos, São Clemente e União da Ilha. No texto, a ex-modelo, que havia tido relacionamento com o ex-jogador Paulo Roberto Falcão, comentou o nu total no desfile da Ilha: ilha89

“Convidada pelo carnavalesco Ney Ayan para encarnar Afrodite na avenida, fiquei à vontade para criar minha fantasia. Passara o domingo do desfile fazendo amor com o ‘Rei de Roma’. Na avenida, senti-me como um totem espargindo energia sexual, vibrações e emanações amorosas na orgia sacro profana. O carro alegórico reproduzia um templo, e eu, no alto trazia nos braços uma capa de musseline transparente, que, em movimentos dançantes, num abrir e fechar de braços, exibia por segundos a nudez total. Todos enlouqueciam diante da minha passagem. Amigos, repórteres, fotógrafos, cinegrafistas, seguranças movimentavam-se desordenadamente. Mas os olhares hipnotizados se mantinham fixados no meu centro gozoso.”

Com ótimo conjunto visual, a Ilha teve uma evolução vibrante do começo ao fim, amparada pela sabidamente esplêndida bateria – que caprichou nas paradinhas – e pela atuação engraçada e contagiante do intérprete Quinho, que era o cantor principal da escola apenas pela terceira vez – as primeiras haviam sido em 1985 e 1988. Certamente a escola brigaria pelas primeiras colocações.

Já com o dia clareando, a Caprichosos, sem o intérprete Carlinhos de Pilares (que se transferiu para a Unidos do Jacarezinho), entrou com o enredo chamado “O que é bom todo mundo gosta”, que criticava a exportação desenfreada e o repasse de nossas riquezas.

Renato Lage e Lílian Rabello prepararam um bom conjunto de fantasias e alegorias, com destaque para o abre-alas, no qual existia um cais do porto em que tudo nosso ia embora, e o carro das artes e cultura, com esculturas de mestre Vitalino e de cerâmica da Ilha de Marajó.

Como era característica dos carnavalescos, havia muitos tripés identificando os setores do enredo, que bateu pesado também na exportação do nosso petróleo e no desmatamento da Amazônia. Agradou também o carro que tinha o Congresso Nacional sendo roído por ratos. Bem atual, não?

Lamentavelmente o samba-enredo não ajudou, e a escola passou mais fria do que de costume. Além disso, a evolução não foi das mais coesas, mas as expectativas eram razoavelmente boas para a apuração.

Salgueiro-1989Ex-carnavalesco da Caprichosos, Luiz Fernando Reis era o responsável pelo desfile do Salgueiro, que o Migão já comentou no blog. E, ao contrário da temática descontraída e crítica que permeava seu trabalho em Pilares, ele desenvolveu o enredo “Templo Negro em Tempo de Consciência Negra”, no qual relembrava os enredos afro apresentados pela escola em anos anteriores e questionava, a exemplo do que fizera a Mangueira em 1988, a realidade da abolição.

O resultado na pista foi absolutamente espetacular. Com fantasias luxuosas e extremo bom gosto, o Salgueiro entrou com tudo e os componentes cantaram com força o excelente samba interpretado por Rixxa, que ganharia o Estandarte de Ouro de melhor puxador daquele ano.

O conjunto alegórico também foi muito bem concebido e o acabamento estava à altura. Luiz Fernando Reis também lançou mão de diversos tripés e alegorias de mão, que deram ótimo resultado. O abre-alas era chamado “Templo Negro” e tinha muitas panteras, e este elemento era sucedido pela belíssima alegoria “Navio Negreiro”.

Mas o destaque do cortejo foi o carro que representou o enredo “Bahia de Todos os Deuses”, de 1969, todo em branco e tendo como destaque Paula do Salgueiro. Nesse mesmo setor, vinha a exuberante ala das baianas, com um figurino claro.

A Vermelho e Branco se colocou como uma das candidatas ao título, mas acabou pecando num aspecto fundamental: evolução. Como desfilava com mais de 5 mil componentes, a agremiação teve dificuldades para dar vazão a esse povo todo.

Os principais problemas foram verificados na (belísssima) ala das crianças, que estava coreografada com o minueto, e na entrada da bateria no recuo, pois houve, primeiro, uma indecisão e depois uma pressa para a manobra.

A Vermelho e Branco teve de correr para não estourar o tempo e conseguiu a duras penas, mas mesmo assim foi aclamada pelos jornais como a melhor escola de domingo, logo à frente da União da Ilha.

Sob chuva moderada, encerrou o desfile de domingo a Mangueira. Como já foi escrito no começo do texto, a escola chegou ao sambódromo cercada de críticas. E o desastre na avenida se confirmou, com uma série de equívocos.

Embora os componentes estivessem possuídos cantando o fraquíssimo samba-enredo puxado por Jamelão, Sobrinho e Eraldo Caê, a Verde e Rosa fez uma das piores apresentações de sua história, com um enredo que desagradou desde o anúncio.

As fantasias ainda estavam razoáveis, mas o conjunto alegórico tinha claros problemas de concepção, com muito de preto se misturando ao verde e ao rosa, e formatos pouco atraentes e criativos. Isso sem contar os problemas de acabamento causados pela chuva. Pena que o saudoso carnavalesco Julio Mattos, falecido em 1994, tenha se despedido assim da Mangueira.

No desastre mangueirense, salvaram-se apenas a harmonia e a bateria, bastante firme o tempo todo, e que rendeu um desfile ao menos animado – até hoje os mangueirenses riem (para não dizer choram…) com o verso “Mas hoje tem o Chico Recarey”, sucedido por um caco hilário de Sobrinho: “RE-CA-REYYYY”. No fim, parte do público invadiu a pista no famoso arrastão (na época essa palavra ainda não tinha tanto assim a conotação de assalto…).

Em vez de começar com um arrastão, a segunda-feira surgiu com um arrastado e problemático desfile da Unidos do Jacarezinho, com o confuso enredo “Mitologia, Astrologia, Horóscopo, uma bênção para o Carnaval Brasileiro”.

A ideia era contar na avenida como os astros influenciavam a vida humana. Mas o conjunto alegórico, embora numeroso, não tinha grande destaque, e a divisão cromática não agradou – talvez a escola pudesse ter desfilado mais enxuta para dividir melhor seus recursos, já que estava voltando à elite e não tinha o hábito de se apresentar com muitos componentes e alegorias.

O desfile já começou com problemas porque os integrantes da comissão de frente simplesmente ficaram presos no trânsito do entorno da Sapucaí e tiveram de ser substituídos em cima da hora por sambistas da velha guarda.

Para piorar, nem a competência de Carlinhos de Pilares e Luizito salvou do arrastamento o samba-enredo, um dos mais longos e criticados que já passaram pelo primeiro grupo. Salvou-se a boa bateria, e só. Num desfile com quatro rebaixadas, o descenso era dado como certo.

Em seguida a Imperatriz Leopoldinense se recuperou do terrível desfile de 1988 com uma das melhores exibições de sua gloriosa história. Com Dominguinhos do Estácio de volta ao microfone da escola, o espetacular samba de Niltinho Tristeza, Preto Joia, Vicentinho e Jurandir, que já era aclamado pela crítica, caiu no gosto do público de cara e proporcionou uma evolução vibrante do começo ao fim do desfile.

A bateria esteve com um andamento perfeito, além de o naipe de tamborins se destacar por “falar” bem alto e apresentar ótimos desenhos e convenções. No entanto, um desacerto nas proximidades do setor 3 poderia render perda de pontos. Uma novidade na sustentação do samba era o banjo acompanhando o cavaquinho.

Reestreando na Rainha de Ramos (pois já havia tido passagem nos anos 70), o carnavalesco Max Lopes deu uma aula de como se deve conceber plasticamente e didaticamente um desfile de escola de samba, tanto em alegorias como em fantasias.

imperatriz892O cartão de visitas da Imperatriz foi uma série de tripés simbolizando as asas da liberdade. O abre-alas tinha uma enorme e simplesmente espetacular coroa  espelhada (foto ao lado), que dava um belíssimo impacto visual. Outro carro que chamava a atenção era o de Duque de Caxias, bastante alto (foto acima), com diversos cavalos montados por destaques, um deles assustadoramente alto diga-se de passagem. Tão assustadoramente alto que o destaque que viria como Duque de Caxias não quis desfilar e foi substituído por outro componente.

Chamou muito a atenção também a alegoria que representava a Carta Magna de 1891. De tão bem feita, parecia que a escola havia conseguido com alguém o documento original e tirado uma cópia colorida bastante ampliada.

O desfile passeou com perfeição pela época imperial que precedia a proclamação da República, com figurinos de extrema fidelidade, bom gosto e acabamento.

Embora houvesse certa discussão à respeito da abordagem política do enredo, fato é que Max Lopes e a Imperatriz proporcionaram um desfile arrebatador em todos os aspectos.

Pela primeira vez naquele Carnaval, o público se manifestou com mais entusiasmo, cantando a plenos pulmões e agitando os braços nas arquibancadas, principalmente no refrão principal.

Por isso, e pela grandeza de sua apresentação, a Verde e Branco, depois da lanterna em 1988, se tornou candidatíssima ao título de 1989, até porque não teve os problemas de evolução que o Salgueiro apresentou.

A Unidos da Tijuca foi outra escola que se saiu bem nos quesitos visuais ao defender o enredo “De Portugal à Bienal no País do Carnaval”, sobre as artes plásticas no país. Mesmo sendo um tema talvez erudito demais para o público, tudo foi dividido com bastante coerência.

O carnavalesco Mário Monteiro optou por dividir cada quadro do enredo com reproduções de pinturas famosas, no que obteve êxito. Mas o grande destaque do desfile foi o carro “Favela dos Meus Amores”, que simbolizava o quadro de Heitor dos Prazeres.

Outro ponto alto foi a atuação da bateria de Mestre Marçal, já que o samba-enredo não era lá essas coisas, e a evolução não foi das mais vibrantes. Mas a Tijuca deixava a pista certa de estar bem longe das últimas posições, o que era uma vitória, já que a escola tentava voltar a se firmar na elite.

Crítica como de costume, a São Clemente levou à passarela o enredo “Made in Brazil, Yes Nós Temos Banana”, que tinha temática semelhante, para não dizer, igualzinha à da Caprichosos de Pilares. E, no confronto direto, a Azul e Branco claramente levou a melhor.

A começar pelos quesitos plásticos, nos quais o conjunto clementiano teve um dos poucos pontos altos o abre-alas, no qual caixotes (de exportação, claro) formavam o Pão de Açúcar, numa solução bem criativa. Outro elemento interessante era o que mostrava Serra Pelada.

Mas o desfile acabou se perdendo depois que o carro da caravela portuguesa quebrou e ficou empacado na lateral da pista. As alas tiveram de passar ao lado do carro, que voltou a andar mas ficou fora de posição no desfile. Isso, claro, causaria despontuações nos quesitos Evolução, Enredo e Alegorias e Adereços.

Como o samba também era mais fraco em relação aos dos anos anteriores, a evolução não foi das mais vibrantes, e a São Clemente provavelmente ficaria do meio para trás na tabela.

Outra que teve exibição irregular foi a Estácio de Sá. O enredo se chamava “Um, Dois, Feijão com Arroz”, sobre esses dois alimentos que não podem faltar na mesa dos brasileiros. A carnavalesca Rosa Magalhães até que concebeu belas alegorias e fantasias, com destaque para o lindo carro do Japão, país no qual o arroz é base da alimentação.

O enredo foi contado desde as origens do feijão e do arroz, e abordou bastante os locais nos quais os alimentos surgiram, tornando a explanação arrastada segundo os críticos. No fim, havia uma ala inteira com camisas do Fluminense para lembrar o pó de arroz usado pela torcida tricolor no Maracanã, o que tornou o feijão com arroz mais uma salada.

O samba-enredo era quilométrico, ao contrário do que a própria Estácio vinha fazendo, e a harmonia não foi das melhores. Para piorar, a evolução não se deu com tanta fluidez e a bateria passou direto pelo recuo, o que atrapalhou ainda mais a harmonia. Enfim, um típico desfile de meio de tabela.

Por outro lado, o samba da campeã de 1988 Vila Isabel para o enredo “Direito é Direito” era excelente e certamente proporcionaria emoções na avenida. Presidente da escola, Lícia Maria Caniné, a Ruça, trocou o tradicional grito de guerra por um trecho da Carta Universal dos Direitos Humanos:

“Que ninguém mais seja submetido a torturas, que todos tenham direito a uma educação e remuneração justas”.

Grande emoção foi sentida já na apresentação da comissão de frente, formada por mulheres grávidas simbolizando o direito à vida. Os direitos da liberdade de expressão, liberdade ao credo, liberdade à alimentação, enfim, todos os direitos que faziam parte do enredo foram transmitidos.

Mas os problemas com algumas alegorias, que desfilaram fora da posição prevista, acabaram atrapalhando a apresentação da escola, que, no entanto, manteve o pique até o fim e deixou ótima impressão apesar dos percalços.

“A Vila comemorou na Passarela o título do ano passado, o que não pudera fazer, traumatizada pelos temporais, que arrastaram casas e desabrigaram suas famílias logo após o carnaval vitorioso de ‘Kizomba’. Fez a festa este ano, sem se importar com o resultado. Era a alegria de voltar a poder desfilar”, apontou Haroldo Costa no debate do Estandarte de Ouro, de “O Globo”.

Já com o dia clareando, a Portela questionava a versão oficial sobre o Descobrimento do Brasil com o enredo “Achado não é roubado”. O samba era um tanto inferior ao dos anos anteriores (convenhamos, o nível da Portela sempre foi altíssimo), mas a bateria do Mestre Timbó esteve bastante cadenciada.

O carnavalesco Silvio Cunha levou ao público os povos que podem ter chegado ao país antes dos portugueses, como vikings, assírios, chineses, entre outros. Não era considerado pelos críticos um enredo dos mais inspirados.

“Aquela confusão de enredo não podia dar certo. É pior do que surrealismo. Não é nada”, carregou nas tintas o portelense Albino Pinheiro.

Apesar disso, plasticamente a Portela passou bem, assim como foi bastante correta nos quesitos de pista, como Harmonia e Evolução. A expectativa era a de que a Águia ficasse razoavelmente bem colocada, embora o desfile não tenha sido tão bom quanto os de escolas como Imperatriz, Salgueiro e Ilha.

beijaflor89A penúltima escola a desfilar no longo Carnaval de 1989 foi a Beija-Flor de Nilópolis. Para muitos, foi o maior desfile já visto na história do Carnaval. O enredo “Ratos e Urubus, larguem minha fantasia” é considerado até hoje o maior momento do gênio imortal Joãosinho Trinta.

Para contextualizar esse desfile, vale lembrar que o carnavalesco sempre foi muito criticado pelo excesso de luxo nos seus trabalhos. Diziam os detratores de João 30 que o Carnaval estava sendo descaracterizado e o samba deixado de lado em detrimento dos quesitos plásticos. João não aceitava essas críticas e certa vez teve atribuída a ele a seguinte frase: “Pobre gosta de luxo, quem gosta de pobreza é intelectual”.

Pois bem, em 1989 Joãozinho resolveu fazer uma crítica social bem eloquente e, ao mesmo tempo, mostrar que sabia fazer Carnaval sem luxo. O objetivo dele era mostrar o que de podre tinha o luxo e o que o lixo representava de verdade. Todos os tipos de lixo, concretos ou abstratos, seriam colocados no desfile da Beija-Flor, desde o que havia de lixo nas guerras, no sexo, nos brinquedos e até na imprensa.

O Cristo Mendigo, de fato, não pôde ser exibido no desfile e uma solução genial foi encontrada por Laíla (apesar de João ter dito que a ideia foi dele): cobri-lo com um enorme plástico preto e um cartaz, segundo o próprio João disse na concentração em entrevista à TV Manchete, mais impactante do que a própria alegoria: “Mesmo proibido olhai por nós”.

Com este choque inicial, a Beija-Flor, quem diria, entrou na avenida com mendigos, sucatas e farrapos. Apenas depois, conforme o desfile entrava na parte do “lixo do luxo”, a divisão cromática mudou, com tons de rosa, preto, dourado (numa pesada crítica à igreja) e azul tomando conta de fantasias e carros, todos pertinentes à proposta do enredo.

beijaflor89aOs componentes, evidentemente empolgados com a catarse que acontecia, cantaram o samba por toda a pista com muita vontade, e o público acompanhava. Samba que, diga-se de passagem, não era tão poético como os de Imperatriz, Salgueiro, por exemplo, mas deu conta do recado com valentia.

Outro ponto emocionante do desfile foi a apresentação simultânea de oito casais de mestre-sala e porta-bandeira, que no fim se uniam numa roda e saudavam o público.

Joãosinho Trinta e outros componentes da diretoria desfilaram fantasiados de garis da Comlurb, e o carnavalesco se divertiu com uma mangueira de água. Extasiado, João 30 chegou à Praça da Apoteose com a escola recebida com gritos de “é campeã”. Um desfile inesquecível.

beijaflor89bDepois do choque causado pela Beija-Flor, o Império Serrano encerrou o Carnaval-89 com uma bonita homenagem a Jorge Amado. Com o cantor Paulo Samara no microfone pela primeira vez como cantor principal, o Império fez um passeio pelos romances do escritor e aspectos típicos da cultura baiana.

No enredo concebido pelo saudoso carnavalesco Oswaldo Jardim, destaque para as alegorias que lembraram o romance “Dona Flor e Seus Dois Maridos” e “Quincas Berro d’Água”.

Como curiosidade, a porta-bandeira Andrea, filha do lendário compositor Aluísio Machado, teve como par na avenida justamente… o pai. Isso porque o mestre-sala Zequinha havia sido assassinado poucas semanas antes do desfile e Aluísio, num ato de amor à escola, quebrou esse galho – o casal levaria duas notas 8 e uma 9,5.

Mas houve falhas de evolução e harmonia, além de mistura de alas, o que certamente prejudicaria o Império na apuração. O samba do saudoso Beto sem Braço contava bem o enredo, e a bateria deu o recado, embora com andamento mais “pra frente”. Era uma apresentação parte de cima da tabela, mas não para brigar pelo título.

REPERCUSSÃO E APURAÇÃO

Terminado o desfile, a Beija-Flor era a grande favorita ao título, mas Imperatriz e Salgueiro também poderiam brigar pelo campeonato. E uma tensa apuração rende polêmica até hoje, mais de três décadas depois.

Em cada quesito, a menor nota seria eliminada. No entanto, em caso de igualdade entre duas ou mais escolas, essas notas descartadas teriam peso para o desempate. E ali a Beija-Flor perdeu o campeonato.

Num julgamento marcado por inúmeras distorções em quase todos os quesitos envolvendo várias escolas, Imperatriz e Beija-Flor empataram em 210 pontos, mas, como a escola de Nilópolis havia descartado três notas 9, a Verde e Branco levou o título.

Uma nota em especial revolta a comunidade nilopolitana até hoje. O jornalista João Máximo aplicou nota 9 ao samba da Beija-Flor alegando que o refrão “Leba larô, ô ô ô ô/ Ebo lebará laiá laiá ô” era ofensivo à língua portuguesa. Na verdade, tratava-se de um canto africano muito pertinente ao enredo… No entanto, além do 9 em samba, a Beija-Flor levou mais duas notas 9, em Conjunto e Evolução, ou seja, não foi Máximo quem tirou o campeonato da Beija-Flor.

Já a Imperatriz Leopoldinense não levou dos 30 julgadores nenhuma nota diferente de 10, e conquistou o terceiro título de sua história no primeiro grupo. A escola de Ramos igualou o feito do Império Serrano, que em 1982 também havia levado o caneco após ter sido a última colocada do ano anterior – em ambas as ocasiões, claro, não havia se dado o descenso.

anisioluizinhoO curioso é que no fim da apuração, os patronos Luizinho Drumond e Anísio Abraão David não se deram conta do desempate e chegaram a comemorar o que seria um título dividido (foto), mas no fim apenas Ramos sorriu, enquanto Nilópolis chorou.

“Não questiono a escolha dos jurados mas acho estranho que apenas três entre milhões de pessoas não tenham achado perfeito o carnaval da Beija-Flor”, disse Anísio.

Joãosinho Trinta apontou outro motivo para a Beija-Flor ter sido superada pela Imperatriz:

“Ao contrário do povo, os juízes não entenderam nada. O que vale para eles é o que se está fazendo. O normal ganha do novo. Mas esta não foi a visão do povo. O povo viu a mudança, e é isso que importa.”

A destacar no resultado final o excelente terceiro lugar da União da Ilha, que ficou a apenas um ponto de Imperatriz e Beija-Flor. Também merece registro a 11ª posição da Mangueira, pior resultado da Verde e Rosa até então. Presidente da escola, Elíseo Dória ficou inconformado e denunciou:

“A Mangueira não quer mais fazer parte da liga. Vamos cuidar do processo de desligamento o mais rápido possível. São todos uns safados e covardes. O regulamento foi mudado, a Mangueira deu um voto de confiança na Liga, mas fomos traídos. Eu cheguei a prever essa armação, houve até quebra de sigilo. Dez minutos antes de abrirem os envelopes, as escolas já sabiam das notas. Cheguei a levar a denúncia ao Capitão Guimarães (presidente da Liesa) mas de nada adiantou”.

A polêmica também chegou às posições inferiores. A Tradição, mesmo tendo feito um desfile inferior ao de 1988, foi injustamente canetada por muitos jurados, o que causou o primeiro rebaixamento da escola.

Além da escola de Campinho, caíram Unidos da Ponte, Arranco (também injustamente para alguns) e Unidos do Jacarezinho. Vale lembrar o regulamento previa que as cinco últimas colocadas seriam rebaixadas, e só a campeã do Acesso subiria. Só que a Lins Imperial, vice do segundo grupo, pediu na Justiça o direito de acesso por entender que era pouco apenas uma escola ascender, e ganhou. Em seguida, foi decidido que a 14ª colocada do primeiro grupo, no caso a Unidos do Cabuçu, não seria rebaixada, o que deixaria 16 escolas na elite em 1990.

Já no Grupo 2 a campeã foi a Acadêmicos de Santa Cruz, que fez um enredo em homenagem ao escritor Stanislaw Ponte Preta, e lamentavelmente caiu para o Grupo 3 a Em Cima da Hora, com um enredo sobre o réveillon – o Migão também já escreveu no blog sobre esse desfile.

Duas escolas de fora da capital conseguiram o acesso ao Grupo 2: a campeã Unidos do Viradouro e a vice Acadêmicos do Grande Rio, que no ano seguinte subiriam para a elite ao alcançarem as mesmas posições. A escola de Niterói apresentou o enredo “Mercadores e Mascates”, enquanto a agremiação de Caxias se exibiu com o tema “O mito sagrado de Ifé”.

RESULTADO OFICIAL

POS. ESCOLA PONTOS
Imperatriz Leopoldinense 210
Beija-Flor de Nilópolis 210
União da Ilha do Governador 209
Unidos de Vila Isabel 207
Acadêmicos do Salgueiro 207
Portela 206
Mocidade Independente de Padre Miguel 203
Unidos da Tijuca 201
Estácio de Sá 200
10º Império Serrano 199
11º Estação Primeira de Mangueira 197
12º Caprichosos de Pilares 194
13º São Clemente 189
14º Unidos do Cabuçu 184
15º Unidos da Ponte 179 (rebaixada)
16º Tradição 172 (rebaixada)
17º Arranco do Engenho de Dentro 172 (rebaixada)
18º Unidos do Jacarezinho 169 (rebaixada)

No Desfile das Campeãs, os ânimos ainda estavam aflorados por causa da apuração. No Salgueiro, quinto colocado, uma enorme faixa com os dizeres “Nem melhor nem pior. Apenas roubado” abria o desfile.

Já o número de desfilantes da Beija-Flor teve o “acréscimo” de três bonecos de judas representando os jurados que não deram dez à escola. Por outro lado havia um cartaz mais ameno: “Ao povão e à imprensa, os agradecimentos da Beija-Flor”.

Por fim, quando a alegoria que abriu o cortejo chegou ao meio da pista, os componentes resolveram tirar o plástico do Cristo Mendigo, levando o público ao delírio e proporcionando um épico e emocionado desabafo de Fernando Pamplona na transmissão da Manchete. Em seguida, diretores de alas e harmonia recolocaram o que foi possível do plástico.

Em 2011, 22 anos depois do polêmico resultado, o jurado Claudio Cunha, que deu 9 para a Beija-Flor em Evolução, admitiu arrependimento em entrevista ao jornal Extra. Não pelo critério usado, pois ele sustentou que houve um claro desarranjo na evolução da escola. Mas ele disse: “Se soubesse que a nota tiraria o título, teria dado 10 à Beija-Flor. Lamento por aquilo. A escola estava impecável”.

Não sou de ficar em cima do muro em relação a julgamentos do Carnaval, mas este é talvez o único caso em que eu ficaria plenamente satisfeito com um empate. Cada escola à sua forma fez um desfile digno de título, extraordinário. Talvez fosse o mais justo para o que Imperatriz e Beija-Flor fizeram naquele Carnaval.

Polêmico, bonito e emocionante. O ano de 1989 é lembrado com carinho como um dos melhores da história do Carnaval. E, enquanto eu escrevo essas últimas palavras, o desfile continua…

CURIOSIDADES

– Depois de um ano de ausência, a TV Manchete voltou a transmitir os desfiles em pool com a Globo. O time de comentaristas teve a volta de Sérgio Cabral para compor a equipe com o narrador Paulo Stein, além de Fernando Pamplona, José Carlos Rêgo, Haroldo Costa, Albino Pinheiro e Roberto Barreira. Um timaço!

– Na Globo, Fausto Silva, que estrearia o Domingão do Faustão no mês seguinte, passeou pelos camarotes e entrevistou celebridades.

– Antes da Era Globeleza, a vinheta da Globo na fase pré-carnavalesca tinha ninguém menos do que Jamelão cantando uma paródia do samba da Mangueira de 1983.

– Curiosamente o sambaço da Imperatriz quase não foi para a avenida. A obra que ficou nacionalmente conhecida (a ponto de ser tema da abertura da novela “Lado a Lado” da Globo em 2012) chegou a ficar fora nas eliminatórias, mas acabou sendo resgatada ao concurso. Uma “virada de mesa” para o bem do Carnaval.

– O desfile de 1989 foi o último de Pinah como destaque da Beija-Flor. Ela tinha 29 anos na época e depois seguiu desfilando pela escola, mas fora dos holofotes.

– Depois do 11º lugar em 1989, a Mangueira teria resultados tão ruins ou ainda piores na década de 1990. Dois anos depois, a escola seria apenas a 12ª colocada e, em 1994, novamente a 11ª.

O pavoroso samba da Unidos do Jacarezinho tinha absurdos 37 versos e um refrão minúsculo. Já o antológico samba da Imperatriz possuía dez versos a menos.

CANTINHO DO EDITOR (por Pedro Migão)

Foi neste Carnaval que me descobri portelense, ou melhor, fui escolhido pela Águia.

O fato de a modelo Enoli Lara ter desfilado nua levou à proibição da “genitália desnuda” por parte da Liesa para o Carnaval do ano seguinte – e deu a Joãozinho Trinta a ideia para o enredo de 1990 da Beija Flor.

Ao contrário do que muita gente pensa, não foi de Joãosinho Trinta a ideia de cobrir o Cristo Mendigo. Foi de Laíla. Também não foi do carnavalesco Luiz Fernando Reis a ideia da faixa “Nem Melhor, nem pior. Apenas Roubado” levada pelo Salgueiro no Desfile das Campeãs. A ideia foi do patrono da escola Miro Garcia. Em entrevista anterior a este blog o carnavalesco deixa claro que achou justo o quinto lugar naquele ano.

O samba-enredo da Em Cima da Hora sobre o Ano Novo é o único da história sobre o tema. Aliás, o grupo teve de ser enxugado e das dez agremiações do Acesso A naquele ano nada menos que cinco foram rebaixadas.

A cantora Simone puxou o samba da Tradição neste ano ao lado de Candanda. Por outro lado, o samba da Imperatriz possui alguns erros históricos – embora deva se ressaltar que o estudo de História avançou bastante nas pesquisas sobre a época nos últimos anos.

Segundo o livro sobre a história da Vila Isabel, todas as grávidas que compunham a comissão de frente eram da comunidade do Morro dos Macacos. Dez minutos antes do desfile todas foram ao banheiro, para evitar urinar durante o desfile.

À época eu cantava no samba da Mangueira “Carlos Cachaça fez teatro musical…” Imaginem um vetusto senhor de 90 anos dançando can can…

Com o início da filiação de vários blocos como escola de samba após polêmica decisão da prefeitura de cortar a subvenção aos blocos de enredo, tivemos a criação de um quinto grupo, que desfilou na Intendente Magalhães na segunda feira de Carnaval. Quatro escolas foram promovidas: a campeã Acadêmicos da Rocinha (com enredo de Joãozinho Trinta), a Unidos de Campinho, a Difícil é o Nome e a Boêmios de Inhaúma. As duas primeiras, à época, tinham fontes de financiamento “pouco ortodoxas”, por assim dizer…

O grupo 4, que desfilou na Avenida Rio Branco na segunda feira de carnaval, foi vencido pela União de Rocha Miranda – com enredo homenageando Arlindo Rodrigues. O Grupo 3 desfilou também na Rio Branco, mas no domingo.

Links

O desfile campeão da Imperatriz Leopoldinense

A antológica apresentação da Beija-Flor

O início do belo desfile da Ilha

O belíssimo desfile do Salgueiro

Fotos: O Globo e reprodução de TV

16 Replies to “1989: “Luxo” gresilense supera o “lixo” nilopolitano no ano que não acabou”

  1. Como foi citado no texto, o ano de 1989, segundo o filósofo insulano Aloísio Villar, foi “o ano que não terminou”

    Foi a última vez que a apuração foi realizada no Maracanazinho, até porque na hora de ler as notas era difícil pedir para as torcidas “respeitosamente calar a boca” para que os resultados fossem lidos. Até um vídeo desta apuração circulava no YT, mas foi retirado graças ao arrastão da Globo de imagens do carnaval.

    O desabafo do Pamplona no desfile das campeãs sobre o Cristo Mendigo foi uma das coisas mais sensacionais que já vi na internet sobre carnaval. “Entrem agora no meio do povo se tiverem coragem!” Pamplona mito!

    Liberdade! Liberdade! como foi mencionado foi o primeiro samba-enredo a ser tema de abertura de uma novela.

    Festa Profana ganhou uma versão bem rubro-negra antes mesmo de ser reeditada pela Porto da Pedra em 2005, apesar do refrão ter sido “adaptado” de “Oi joga água que é de cheiro/Confete e serpentina/Lança-perfume no cangote da menina” para “Oi joga água que é de cheiro/Confete e serpentina/Vou dar porrada na torcida vascaína”

    Falando em reedição, além de Festa Profana, “Quem vai Querer” e “Viva Que Te Quero Viva” foram reeditados pelas escolas originais em 2005 e 2012, respectivamente.

    Esse caco “RE-CA-REYYYY” do Sobrinho acho sensacional.

    Eu sou da teoria de que, em 89, a Imperatriz fez o melhor desfile do ano e a Beija-Flor fez o melhor desfile da história.

  2. Minha nossa, como queria ter um pouco mais de idade para acompanhar este carnaval! Tinha 8 anos de idade e não tenho nenhuma lembrança (o encanto foi feito em 1991 pelo abre-alas da Mocidade).

    Mas esse ano, só a Beija-Flor e Imperatriz já valeriam o ingresso. Digo isso por tudo que leio e assisto.

    E como as coisas são: se a imperatriz tivesse realmente caído, será que a Beija Flor teria algum adversário a altura? E, teorias da conspiração a parte, será que a Beija Flor ter insistido no Cristo mesmo que coberto, pode ter feito a Igreja nos bastidores prejudicar a escola?

    E uma pergunta aos amigos: se alguma escola reeditasse Ratos e Urubus e outra Liberdade, Liberdade…qual seria o resultado?

    Abraços!

    1. Não sabemos qual seria o resultado, mas certamente o samba da Imperatriz seria descontado por trazer uma abordagem da Proclamação da República que não é mais válida nos dias de hoje. É até duro dizer isso, mas o samba, em si, está datado.

  3. “Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós”, é o meu samba predileto na era sambódromo! Logo, não tenho como não gostar do título da Imperatriz, porém esse desfile da Beija-Flor foi épico! Realmente o empate seria mais justo…
    Aparentemente, os “Ratos e Urubus” do enredo também seriam os críticos de Joãozinho Trinta e seu estilo de Carnaval. Saudades desse gênio…

  4. Boa tarde!

    Prezado Fred Sabino:

    Já pensei muita coisa sobre 1989, e, apesar de ser torcedor da Imperatriz, “Ratos e Urubus…” merecia o título pela ousadia e crítica postas numa vitrine gigantesca que é o desfile das Escolas de Samba. Além disso, elevou o poder desta vitrine, da festa como um todo. Devemos muito a ele.

    Sobre o discurso inflamado de Pamplona, saliento que bem antes, logo no comecinho do desfile, ele nos dá uma belíssima aula de arte, mostrando que o Cristo mendigo faria bem ao catolicismo, e não representaria algo ofensivo. Palavras sábias de um mestre sábio.

    Guardo o carnaval de 1989 com carinho em minhas recordações, apesar de meus 6 anos à época. Foi o primeiro carnaval com Escolas de Samba do qual me lembro efetivamente, muito por causa de uma fita k7 com sambas deste ano que meu pai comprou, o que se manteria até 1997, último ano em que esta plataforma seria disponibilizada (De 1998 em diante, só CD!).

    Atenciosamente
    Fellipe Barroso

    1. Fellipe,

      Vou buscar esse discurso do Pamplona. Se tiver algum link, agradeço.

      E você me fez relembrar a fita K& que eu tinha de 1997!

  5. Faz 27 anos. 1989 não acabou. E não acabará tão cedo.

    Assim como não acaba o rancor dos torcedores da Beija-Flor, que não se conformam com a derrota naquele carnaval.

    Deveriam ter orgulho, isso sim. Valorizaram a vitória de um desfile igualmente épico, de uma escola que convive – até hoje – com a antipatia popular, culpa da mídia que a rotulou de “certinha” e “fria”. Se é tudo isso, vejam os vídeos – quaisquer vídeos – do desfile de 1989 e verão se a Imperatriz era fria ou certinha. Até morto se levantou na Sapucaí.

    E foi um grande carnaval, pela “marchinha sem-vergonha” e imortal da União da Ilha, o desfile da Vila com as grávidas na comissão de frente – ganhando uma estranha nota baixa de um dos jurados, que não entendeu a proposta do “direito à vida”.

    A Tradição também foi canetada, ganhando a menor nota de todos os jurados em comissão de frente por conta de um erro da escola – ao que parece. Não sei se existia um caderno explicando os setores, mas antes da própria comissão de frente, havia uma das inúmeras alas coreografadas que a dissidência da Portela botou na avenida. Só podia dar merda. E deu.

  6. Apenas acho que o resultado mais justo seria um tríplice empate, com escolas com estilos de desfile totalmente diferentes: Imperatriz, com um desfile plasticamente impecável e com um samba-enredo maravilhoso; Um desfile digno de uma “Imperatriz” no sentido literal da palavra; Beija-Flor com a loucura de Joãozinho Trinta, um desfile épico; Quem teria a ousadia,nos tempos de hoje, levar um “Cristo Mendigo”??? Sensacional!!!! E a União da Ilha com o seu “porre de felicidade” um samba cantado até os dias de hoje, A Ilha mais Ilha um verdadeiro baile de carnaval e para mim até hoje, Jamelão, o maior desempenho de um “puxador” um desfile. Quinho, que estava “possuído” naquele desfile. Um performance antológica! 1989 realmente não acabou…

  7. Ratos e Urubus, Kizomba e Ziriguidum. Cada uma à seu estilo foram marcantes!!

    Óbvio que a zoeira pelo título da Imperatriz começa pelo fato de que ela deveria estar na Segundona em 1989. E tal qual o Império Serrano, trouxe um samba inesquecível para se recuperar.

    Muito mais obra do samba, na minha opinião, o título da verde e branco em 1989!! Merecido, aliás!

  8. Vou me permitir discordar de alguns e até, de certa forma, do próprio Fred. Não sei como nem em que quesitos mas, na minha opinião, era Beija-Flor. Pela mesma lógica de 88, em que a Mangueira teria sido campeã em vários outros anos com um desfile daqueles, mas não naquele ano. Ali era, e foi, da Vila. Em 89, Ratos e Urubus transcendeu tudo. Coisa de gênio. O desfile da Imperatriz foi excelente. Mas foi mais um desfile muito bom em tantos anos. Os mendigos do Joãozinho são eternos, foram mais do que um desfile de escola de samba perfeito. Um segundo lugar para a Imperatriz seria uma honra também. Algo do tipo “olha, fizemos uma das maiores apresentações da NOSSA história mas perdemos para A MAIOR apresentação da história”. Felizmente pude ver esses desfiles in loco. Um dos maiores anos do carnaval carioca, sem dúvida alguma.

    1. A discordância é a alma da democracia! No meu caso, pelo menos, vejo as duas escolas atingindo praticamente a perfeição, cada uma na sua proposta. Por isso, eu daria empate! Abração!

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