Uma das imagens mais emblemáticas do fim de carreira daquele que foi um dos mais emblemáticos jogadores de futebol de todos os tempos une o futebol ao samba. Quer dizer, une porque Garrincha estava vestido com o uniforme da seleção e sentado numa alegoria da Mangueira, no desfile de 1980 (“Coisas Nossas”). Na verdade, a simbiose ali era artificial. Ou estava alagada em aguardente. Não havia, de fato, grande interação e/ou integração do personagem com o que acontecia ao seu redor.
É um tanto deprimente, claro. Sobretudo porque sabemos que o ídolo, ali, estava nas últimas. Já era escravo do implacável alcoolismo. Escolhi essa imagem um tanto trágica para ilustrar uma relação feita de mais baixos do que altos. Justamente os enredos com temática esportiva.
Para não ir longe demais. E até porque os registros anteriores a este 1980, se existem, são esporádicos, o ponto de partida foi este “Coisas Nossas” que não deu o campeonato à verde e rosa em ano de empate triplo. Mas este enredo apenas resvalava na temática. O futebol representado por Garrincha era uma, entre tantas, coisas nossas, brasileiras, nacionais. Este sim o verdadeiro tema.
Não seguirei ordem cronológica.
Já vimos outros jogadores passarem na avenida. A homenagem ao R9 pentacampeão, feita pela Tradição, não comoveu nem mesmo o próprio. Ronaldo Nazário mandou a mãe representá-lo. Anos depois, na Gaviões da Fiel, ele deu o ar da graça. Mas eu pouco assisto aos desfiles de São Paulo e, dessa forma, não posso dizer se a escola da torcida uniformizada do Corinthians passou bem ou mal no Anhembi. Nem lembro o resultado, pra ser sincero. E também não parei de escrever para visitar o pai Google de Oxossi.
Uma década depois de Ronaldo na Tradição, a homenagem da Imperatriz ao Zico foi bem mais feliz em termos visuais. Sem contar que o samba enredo era bem melhor que o do Condor do Campinho falando do Fenômeno. Muita gente torceu o nariz para o enredo – como fizeram com o deste ano – e se surpreendeu com a bela apresentação leopoldinense. Problemas de evolução, especialmente, tiraram qualquer chance de título mas a escola voltou merecidamente às Campeãs.
Pelé não foi enredo. Ele, o Rei. Mas esteve presente em alguns carnavais. Fazia parte da Grande Constelação das Estrelas Negras, do (contestado) título nilopolitano de 1983. Tinha o nome citado no samba, inclusive. A mesma Beija-Flor citou grandes ídolos do futebol e os grandes clubes cariocas, bem como a seleção brasileira, no belíssimo “O Mundo é uma bola”, três anos depois (1986). A chuva tanto lavou a alma quanto prejudicou plasticamente a apresentação luxuosíssima da escola de Joãozinho Trinta. Em 1998, em novo enredo sobre a força da negritude, a Caprichosos se segurou no Especial, ao qual retornava, cantando que Pelé tinha magia no pé. E o refrão colocava o Rei do Futebol lado a lado com Benedita da Silva e Mandela.
O eterno camisa dez do Santos estará representando novamente este ano no desfile da Grande Rio. Mas ainda não sabemos se poderá desfilar. Certamente, seria um grande trunfo para a tricolor de Caxias. Ainda mais se outro citado no samba, Neymar, também puder comparecer, o que ainda é incerto.
Antes de passar para a temática olímpica queria lembrar da bonita homenagem que a Vila Isabel prestou à Enciclopédia do Futebol. Nilton Santos foi o enredo da branca e azul em 2002, no Grupo de Acesso. Tempos de penúria pelos lados do Boulevard e a agremiação não subiu.
Em 1997, a Mangueira engajou-se na campanha para fazer do Rio a sede dos Jogos Olímpicos de 2004 (que aconteceriam, no fim das contas, em Atenas). Foi o primeiro de uma série de desfiles em que colunas gregas, deuses, mitologia, roupas de ginástica, anéis olímpicos, uma porção de modalidades nem sempre presentes no programa oficial olímpico e exaltações à cidade Maravilhosa se sucederam na avenida. Mais ou menos uma prévia do que se espera (eu queria esperar mais) ver da União da Ilha em 2016. Também foi esse, em linhas gerais, o desenvolvimento feito pela Portela em 2007. O tema era a Olimpíada de então, o Pan. E tome de skate (?), malhados e malhadas fazendo supino (?), odes aos surfistas (?) e… Colunas gregas, mitologia, deuses encantados com o Rio. Para resumir, até hoje os enredos olímpicos, no universo esportivo do Carnaval, provavelmente foram os mais repetitivos em termos de soluções plásticas e de narrativa.
A mesma Ilha, em 2012, resvalou no tema. Falou de Londres, da Inglaterra. Que sediava os Jogos daquele ano. Não foi um desfile inteiro a respeito do evento. Mas explorou bastante o assunto.
Em termos de resultado, um outro enredo esportivo saiu-se muito bem. A Unidos da Tijuca foi campeã de 2014 homenageando Ayrton Senna, morto vinte anos antes. Muita gente não curtiu. Não foi um título daqueles incontestáveis. Pelo contrário. Muito embora tenha sido um ano em que não houve uma apresentação daquelas que fazem tremer a Sapucaí. Mesmo a Portela, com luxo e bom gosto, teve algumas falhas. Mas, no fim, acho que ela e, para mim, a Ilha (na verdade o desfile que mais me agradou foi o da Ilha) poderiam ter disputado o caneco. Mas, sabe como é… O apelo do nome Senna, a emoção, a comoção, isso teve impacto. Como teve Roberto Carlos em 2011. Bem, gostemos ou não, deu Tijuca.
O que esperar dos desfiles “esportivos” de 2016? A Santos e o Santos da Grande Rio. O Rio olímpico por natureza da União da Ilha? Sambas criticados, comentários preocupados em relação à situação financeira insulana, posições de desfile no domingo. À primeira vista as tricolores inspiram um certo pé atrás. Num ano em que bons enredos proporcionaram bons – ou até excelentes – sambas, apostar no esporte pode ter sido uma bola fora.
Mas o jogo só acaba… Quando termina.
Imagem: Arquivo Ouro de Tolo
Carlos, obviamente o enfoque do texto é nos Carnavais da Sapucaí, mas o Pelé foi enredo na Barroca Zona Sul aqui em São Paulo em 2003. Quem também foi enredo por aqui recentemente foi o Ronaldo, o Fenômeno foi enredo da Gaviões em 2014, enredo que conta com samba de muito apreço do nosso chefe Pedro Migão.
Abraços!
A Gaviões conseguiu fazer um samba sobre o Ronaldo PIOR que o da Tradição. Amigos, isso é uma proeza. Proeza maior ainda: Inacreditavelmente GABARITOU o quesito samba enredo…
Pois é, Bruno. Até citei o Ronaldo na Gaviões lá no início do texto. O Pelé na Barroca eu não lembrava. Não sabia, para ser sincero. Como confessei também no texto eu nunca acompanhei muito o carnaval paulistano. Sempre preferi ficar ligado no Acesso do Rio. Nenhum preconceito não. Quando criança passei muitas férias na casa do meu bisavô, bem colada à quadra do grande Camisa Verde e Branco, na Barra Funda. Mas é que os anos foram passando, me distanciei e não criei vínculos com as escolas de Sampa. Reconheço todo o valor cultural que têm mas não me considero capaz de analisar nada sobre elas com conhecimento de causa. Obrigado pela lembrança e pelo comentário.
Carlos,
Também concordo com você quando diz “…apostar no esporte pode ter sido uma bola fora…”.
A Ilha este ano aposta no “enredo oportunista”. Não oportunista no sentido pejorativo de aproveitador e sim no sentido de aproveitar os Jogos Olímpicos deste ano. E imagino que assim como a Portela em 2007, com o Pan, vamos ver um desfile de gregos, colunas, corpos, bolas, aros, mascotes…
Considero o samba-enredo da Portela 07 melhor que este da Ilha 16. Mas na avenida tudo pode acontecer.
Só complementando sobre os enredos: a Gaviões falando do Ronaldo em 2014 ficou no 10º lugar (pior colocação nos ultimos oito anos) e ela ainda cantou a história do Corinthians em 1998 (5º lugar) e 2010 (também 5º lugar). A Barroca em 2003 amargou o 14º lugar e ainda tivemos a Torcida Jovem (organizada dos Santos) no Acesso em 2011 também falou de Pelé e ficou em 8º (caindo).
Em 2010 a Vai-Vai fez um paralelo com os 80 anos da Copa do Mundo e 80 anos de sua fundação, ficando em 3º lugar e a Leandro de Itaquera em 2014, aproveitou a Copa no Brasil e falou do futebol e caiu após o 14º lugar.
Pai Google de Oxóssi foi genial, Gil.
O Carlos Gil tem razão ao dizer que ainda está para chegar algum carnavalesco que tenha uma boa ideia para tirar um enredo esportivo do lugar-comum.
De todas as representações esportivas que já vi na Sapucaí, a que mais me agradou foi o setor de “Esportes na Praça” da Rocinha no desfile de 2012. Soluções criativas e de muito fácil entendimento do Luiz Carlos Bruno sem resvalar na pieguice de coisas sem sentido no enredo
Desfile super simpático da Rocinha, por sinal. Pois é, Rafic. Os temas esportivos sempre esbarram em soluções deja vu. Como as clássicas alas reproduzindo as camisas e/ou mascotes dos times de futebol e bolas nos ombros, por exemplo. Ou as já citadas colunas gregas e coroas de louros na cabeça. Nesse aspecto, do visual, o Paulo Barros ousou. Com referências sempre pops aos desenhos animados da Corrida Maluca, por exemplo. Embora, no geral, a plástica de 2014 não tenha me agradado.
Carlos Gil,
Faço parte da produção da Jovem Pan e estou montando alguns especiais sobre o carnaval. Comentei aqui porque não consigo encontrar algum email ou contato mais direto para explicar, mas gostaria de saber se você daria uma entrevista sobre a história do carnaval e algumas curiosidades!
Obrigada desde já e desculpe contactar por aqui!