Lendo o recém lançado livro “As Matriarcas da Folia”, um dos capítulos, escrito pelo colunista deste Ouro de Tolo Luiz Antonio Simas, enfoca este samba, que foi alvo de nossa série em 2010. Então vamos revisar e atualizar este post, que fazia parte da pioneira série “Samba de Terça” desta revista eletrônica.
Em 2016 o Império Serrano vai para seu sétimo ano seguido longe do Olimpo do samba, o Grupo Especial. São seis desfiles consecutivos no Acesso, nos quais somente em duas ocasiões se pode dizer que a escola poderia ter voltado ao seu lugar de direito: 2012, quando foi injustiçada, e no ano passado. Entretanto, esta não é primeira crise que a escola enfrenta em sua história. Desde 1978, com o primeiro rebaixamento, que a história da Verde e Branco da Serrinha vem enfrentando altos e baixos.
Nosso artigo de hoje é sobre outra ocasião na qual a escola passava por um momento difícil em sua existência. E desta revolta com a situação saiu aquele que é considerado um dos únicos sambas enredo de protesto da história do carnaval carioca: “Fala Serrinha, a voz do Samba Sou eu Mesmo Sim Senhor”, 1992.
Voltemos a 1991. O Império foi rebaixado com o 15º e penúltimo lugar com um enredo dedicado aos caminhoneiros. As inovadoras e polêmicas soluções propostas pelo carnavalesco Ney Ayan não foram compreendidas pelos jurados, e, depois de 13 carnavais consecutivos entre as principais escolas, estava de volta ao Grupo de Acesso A. A Verde e Branca ainda teve pontos descontados devido a um suposto merchandising de uma distribuidora de combustíveis.
O enredo proposto era uma grande resposta aos jurados do ano anterior, que na palavra dos seus componentes haviam rebaixado injustamente a escola.
Proposto em 1987 pelo então carnavalesco da Mocidade Fernando Pinto – que fora lançado pelo Império Serrano nos anos 70 – o tema foi desenvolvido pelos carnavalescos Paulo Resende, Luiz Rangel e Wanderley Silva. Nas palavras deste último:
“O que a Império levará para a avenida é um protesto indignado e a Serrinha vem no chão para mostrar o que é samba.”
Os cinco setores do desfile eram “O baile de máscaras”, “As raízes do samba”, “A delegacia”, “Arquibancadas da Presidente Vargas” e “Os Campeonatos do Império”. Claramente eram uma alusão à tradição inovadora que a escola sempre deteve e que não fora “compreendida” pelos jurados no ano anterior.
Eram abordados no enredo Olegária dos Anjos, pioneira na confecção de fantasias de destaque, seu marido “Seu” Calixto, que introduziu os pratos na bateria, e lembranças como a da ala “Sente o Drama”, que também inovou sendo uma das primeiras alas coreografadas da história dos desfiles, na década de 60.
O samba, que seria o último do lendário Beto Sem Braço pelo Império, avançou ainda mais no protesto pelo rebaixamento. Lá estavam versos como “Pouca coisa não vai nos jogar no chão“, “O pior cego é aquele / Que enxerga e não quer ver” e “Eu vou enxugar com a sua ingratidão / Meus pés que vão suar de poeira.” Mas o refrão final era um “xeque mate”:
“Sou Império, sou patente
Só demente é que não vê
Do samba sou expoente
Abra meu livro, pois tu sabes ler …“
O livro referido era “Serra, Serrinha, Serrano: o Império do Samba”, lançado em 1981 de autoria de Suetônio e Rachel Valença e até hoje obra de referência sobre o glorioso Império Serrano. O recado era claro e nem um pouco sutil: os jurados haviam desrespeitado a verde e branco no ano anterior.
Fazendo um parêntese, o genial Beto Sem Braço não era exatamente um sujeito sutil. Ex-feirante que perdera o braço em uma queda de cavalo, era capaz de coisas como atirar no então presidente Jamil Cheiroso dentro da quadra após perder a disputa para o samba de 1988 ou dar a seguinte resposta a uma repórter novata que perguntara o porquê do apelido:
“É que eu sou estrábico”.
https://www.youtube.com/watch?v=0zNMSRfWbMM
A escola foi a décima quarta e última a escola a desfilar, já na manhã de 1º de março de 1992, domingo de Carnaval. Após o esquenta com “Aquarela Brasileira”, cantado por Roberto Ribeiro, o Império apresentou alegorias e fantasias simples, reflexo da penúria financeira que a escola apresentava. Mas a escola se apoiou no belíssimo samba e fez uma apresentação de muita garra.
Entretanto, a agremiação da Serrinha patinou em problemas de Harmonia e Evolução, em especial no recuo de bateria. Contudo, a escola saiu da Apoteose aos gritos de “é campeã”. Retornar ao Grupo Especial parecia sim possível.
Só que na abertura dos envelopes dos jurados a escola teve de se contentar apenas com o terceiro lugar, com 298 pontos – nada menos que quinze pontos atrás da Unidos da Ponte, segunda colocada. Sobre este resultado até hoje pairam suspeitas de que teria sido determinado antes mesmo dos desfiles propriamente ditos.
Lendas do carnaval, embora a diferença anormal de pontos das duas primeiras colocadas para as demais classificadas – em que pese o belo desfile da Acadêmicos do Grande Rio, campeã – deixe bastante plausível a hipótese de algum tipo de combinação prévia de resultado. Mas…
O samba de protesto de Beto Sem Braço, Jangada e Maurição conseguiria uma proeza: ganhou o Estandarte de Ouro de Melhor Samba do grupo de Acesso, naquela que é considerada a melhor safra de sambas da história deste grupo – e uma das melhores de todos os tempos.
Portanto, 1992 marca a primeira vez em que o Império não retornava ao Grupo Principal no ano subsequente ao rebaixamento – fato que se repetiria em 2010, início da sequência a que me refiro no início do texto. A escola subiria com o vice campeonato no ano seguinte, 93, com o enredo “Império Serrano, um Ato de Amor” – uma versão, digamos, tradicional do enredo de 92.
E que em 2016, dando sequência ao bom desfile de 2015, o Império Serrano possa retornar ao lugar que é seu de direito no carnaval: o Grupo Especial. Retornar para ficar. Afinal de contas… Fala Serrinha, a Voz do Samba sou Eu Mesmo, Sim Senhor!
Viemos cantar, sambar,
Mostrar, provar a nossa tradição
Pouca coisa não vai nos jogar no chão
O pior cego é aquele
Que enxerga e não quer ver
Etecétera e tal
Eu vou enxugar com a sua ingratidão
Meus pés que vão suar de poeira
Toda criação que eu criei foi pra brincar
Se não lembrar é brincadeira
Do prato, reco-reco, agogô
Que até hoje levanta o seu astral
Com miçangas e paetês bordei meu nome
Nos braços do mais belo carnaval
Pro Império não parar de entoar
Seu canto de euforia
E assim …
Atravessei fronteiras de emoção
Vi turista chorar
Meus fãs vão chorar saudade
Em não me ver no meu grupo desfilar
Sou Império, sou patente
Só demente é que não vê
Do samba sou expoente
Abra meu livro, pois tu sabes ler …“
Assisti a essa maratona da arquibancada. Da Unidos de Campinho ao Império Serrano, já no meio da manhã. Um ano de grandes sambas, realmente. Além do Império, destacaria o Engenho da Rainha, a Rocinha (talvez o melhor samba da história da escola e até hoje seu esquenta), Jacarezinho com Maria Clara Machado, Lucas tinha um samba valente (Baía com I), o do Arranco era divertido e a Grande Rio a partir dali viveu, provavelmente, a sua melhor época em termos de samba enredo. Foi um título justo. O vice-campeonato da Ponte pode até ser contestado, a distância em pontos foi absurda, embora eu não saiba cravar uma outra escola para subir no lugar dela. O samba da azul e branco de São Mateus era fraco (apesar de ter sido reeditado pela escola anos depois), mas a bateria, ótima. A escola tinha força política. Paulo de Almeida, que no ano seguinte assumiria a presidência da LIESA e, anos depois, seria presidente da Caprichosos de Pilares, comandava a Ponte. Ele foi vereador em São João de Meriti. O Império Serrano foi muito aguerrido mas pecou em vários quesitos também. Outro destaque negativo foi a apresentação do Império da Tijuca, que antecedeu à do Império Serrano. A homenageada da vez da Cabuçu foi a Xuxa.
Na época eu com 8-9 anos cantava: Sou Império sou patente, SÃO CLEMENTE É QUE NÃO VÊ… kkkk
Hahahahahahahaha