Dando prosseguimento à primeira parte da análise do CD de sambas-enredo do Grupo Especial de São Paulo, aí vão os textos sobre mais cinco obras que vão à passarela do Anhembi neste Carnaval.
9) Gaviões da Fiel: “É fantástico! Imagine, admire e sinta!” – Ernesto Teixeira
Composição: Luciano Costa / Alex / Bruno Mlk / Fadico / Francisco Ricardo / J Manfredini / Nascimento / Junior Fionda
O enredo abstrato adotado pela Gaviões da Fiel gerou um samba bastante correto, mas que deixa uma sensação de estranhamento por conta da discografia da escola. Ao contrário de praticamente todos os sambas trazidos pela Fiel Torcida nos anos anteriores, mesmo aqueles de qualidade inferior, o samba de 2016 não é empolgante e se destaca mais por passagens melodiosas e sacadas inteligentes na letra do que por um refrão extremamente animado ou alguma passagem que se proponha a levantar o público no Sambódromo do Anhembi. Não chega a ser algo relevante analisando exclusivamente a obra, mas é uma observação pertinente.
Até por conta do enredo, que não é muito simples de ser sintetizado em uma ou duas frases, o refrão principal aposta em repetir a fórmula de sambas anteriores (talvez o único ponto em comum deste samba em relação aos outros da Gaviões) e exaltar a escola e a Torcida. A única menção ao enredo aparece de maneira discreta no verso “Fantástico é ser fiel”. Ainda que não empolgue, é um ótimo refrão, muito apropriado ao perfil da escola e que peca apenas pelo verso “E nesse meu país”, que aparece de maneira forçada para completar a rima com o verso final, “Alvinegro é mais feliz”.
A primeira parte do samba tem uma construção melódica correta, sem descompassos ou alternâncias desagradáveis, mas demora a engrenar. Do primeiro verso até “Brincar de deus, remodelar a natureza”, a obra apresenta versos prolongados demais e o samba acaba se arrastando. A mudança até parece ser anunciada pelo ótimo verso “Fantástico… a metamorfose da vida”, mas o samba continua só vai engrenar mesmo no final da primeira parte, com os versos “Dar asas a imaginação / Ver a luz na escuridão / Sendo criador ou criatura”. A partir daí, o samba começa a se destacar tanto pela boa melodia quanto pela letra inteligente e apresenta seus melhores trechos.
O refrão do meio é um achado. Se a letra, bem como em praticamente todo o resto do samba, é apenas convencional, visto que o enredo não permite uma comunicação mais clara com o público, a melodia é muito animada e faz com que o samba, ao contrário do que ocorre na primeira parte, flua com muita facilidade. O refrão é bem construído tanto pelos seus versos, quanto pela entrada na estrofe final. Com ótima construção melódica, o início dessa estrofe tem em “Viajei e fui além do infinito / Mergulhei na arte de um sonho colorido / Nos contos posso ser o impossível / Da tela personagens encontrei / Na magia da história eu voei… Voei… voei” uma das melhores passagens de todo o samba. A letra é bonita, de fácil entendimento (não tem fácil contextualização dentro do enredo, mas tem fácil entendimento) e a melodia é excelente. Não é, insisto, uma passagem característica nos sambas da Gaviões, mas é excelente.
Os versos finais do samba ainda se destacam por uma mensagem muito bonita e por uma construção melódica correta. Os desenhos musicais “fecham” com perfeição e levam ao refrão principal sem sobressaltos, encerrando de forma muito agradável o samba. Vale também o destaque para mais uma excepcional gravação do intérprete Ernesto Teixeira, que deu outra vida ao samba e valorizou muito a obra.
8) Rosas de Ouro: “Arte à flor da pele. A minha história vai marcar você” – Darlan Alves Carneiro
Composição: Wellington da Padaria / Marcus Boldrini / Vaguinho / Fabiano Sorriso / Márcio André Filho / Rapha SP / Guiga Oliveira / Bolt Mascarenhas
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A Rosas de Ouro esteve a um verso de ter o melhor samba-enredo do Carnaval de São Paulo em 2016. Depois de alguns anos sem brilhar por completo neste quesito, a Roseira trouxe a obra mais surpreendente dos desfiles de 2016 neste enredo sobre a tatuagem. Um samba denso, lindo, diferente, com uma construção melódica ousada e muito bem feita. Um samba que tem um deslize gravíssimo em seu início, mas que, além disso, é praticamente perfeito. Ainda por cima, é um dos sambas com maior potencial para emocionar no desfile.
O refrão principal é espetacular. Aproveitando-se do enredo, promete “tatuar no seu coração / Pra vida inteira” versos muito bonitos: “És meu amor / Eterna como o tempo, Roseira”. É justamente na cabeça do samba que aparece o deslize do qual tiro todos os décimos que tirarei desse samba. Os dois primeiros versos são bem construídos e começam a contar a história do enredo, mas são seguidos de uma mudança melodicamente extremamente mal feita no verso seguinte, “Exposta na pele como troféu”. Os versos 2 e 4 são tão diferentes melodicamente, que este terceiro se encarregou de fazer a transição. No entanto, a tentativa não foi bem sucedida e arrebentou completamente com a melodia.
O samba apresenta outras transições melódicas em sua primeira parte, mas todas muito bem feitas como em “Essa herança dos tribais / Por muito tempo, a religião proibiu” e “Ao som do tatau, no ocidente, evoluiu / Marcando novas gerações”. Essa segunda, aliás, também era muito mal resolvida na época da disputa, mas foi bem trabalhada e mudou da água para o vinho. Agora, é melodiosa e não incomoda aos ouvidos. Os versos destacados apontam também para a força da letra, que passeia pelos pontos abordados da sinopse sem abandonar a poesia como podemos notar nos versos “Marcando novas gerações / Rebelde em seu jeito de ser / Na velocidade da luz / A muitos seduz, vem ver”.
O refrão do meio também é excelente. Animado, começa a viajar pela era da popularização da tatuagem com uma melodia muito bem construída e uma letra de fácil entendimento. Destaco os versos finais, que apresentam ótima ligação melódica entre duas ideias diferentes: “Floresceu paz e amor num fino traço / Dragão tatuado no braço”. Embora goste muito do refrão do meio, o ponto altíssimo do samba é a segunda parte. Agora sem se amarrar muito à história, o samba deixa aflorar a poesia e apresenta uma letra com ótimo entrosamento com a melodia e também com leitura simples. O acompanhamento melódico ajuda a tornar os versos agradáveis. Não é nem de longe um samba explosivo, mas pode e deve empolgar pela beleza.
Os diversos tipos de tatuagem ganham ligações inteligentes e que, em um conjunto, foram uma bela poesia. O início dessa estrofe evidencia isso: “Vem ser criança e brincar / No seu corpo desenhar / A fé que traz a esperança / Saudades, paixões e lembranças / Em formas radicais / Em notas musicais, vai além / Entre as grades nasce a flor também”. Repare: para juntar as tatuagens com cunho religioso, as tatuagens que revelam paixões, as radicais e todas as outras sem que o samba parecesse uma colcha de retalhos, os compositores uniram tudo isso a um ponto comum no primeiro e no segundo versos: “Vem ser criança e brincar / No seu corpo desenhar”. Tudo que se desenha no corpo se torna, então, uma grande brincadeira de criança. Também gosto muito do verso “Entre as grades nasce a flor também”. É muito bonito.
E é esse verso que puxa o ápice dentro do ápice. O melhor momento dentro do melhor momento do samba. Ao final dele, começa a se exaltar a escola de maneira muito bonita. A melodia mais acelerada contrasta com os versos mais prolongados, mas tudo acaba se realizando de maneira muito competente: “E a nação azul e rosa vai passar / Riscando o chão da passarela, a cantar (Roseira, Roseira) / Minha segunda pele é meu pavilhão / Orgulho estampado com ostentação”. Não é, reparem, uma exaltação sem contexto. A parte final do enredo realmente aponta a escola “marcando-se” para o público. Por isso, o samba inflama a escola e faz essa contextualização através de expressões como “Minha segunda pele” e “Orgulho estampado”. Um outro ponto surpreendente foi o desempenho absolutamente sensacional do intérprete Darlan Alves. Com sobras, é a melhor gravação da carreira dele. Ótima condução do samba, sem excessos e voz limpíssima para agregar ainda mais valor a este ótimo samba.
7) X-9 Paulistana: “Açaí Guardiã Do Amor de Iaça Ao Esplendor de Belém do Pará” – Royce do Cavaco
Composição: Accyoly Filho / Saulo Mesquita / Turko / Maradona / Fabio X9 / Thiago Japa / Rafa do Cavaco / Mixaria / Carlos Alberto / Dom Henrique / MP08
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Outro samba extremamente surpreendente vindo de uma escola que realmente precisava de um samba de maior qualidade dada a sua discografia recente. O fantástico enredo sobre as lendas em torno do Açaí e sobre os 400 anos da Cidade de Belém do Pará gerou um samba com ótimas características melódicas e uma letra bastante inspirada. Ao contrário do que a X-9 trouxe para a Avenida nos últimos anos, o samba não apela para o “oba-oba” ou para rimas simples, mas sim para uma construção densa e uma letra bem trabalhada.
A construção do samba privilegia versos prolongados, com subidas de tom comedidas e desenhos musicais que se repetem, formando um conjunto homogêneo e muito agradável aos ouvidos. Um bom exemplo desse estilo de composição é o refrão principal. Com letra mais descontraída, não apresenta nenhuma grande inovação, se destacando apenas pela melodia forte, e cumpre bem o papel de apresentar a escola e o enredo. A cabeça do samba apresenta um verso muito bem construído melodicamente, “Ecoou… O rufar do meu tambor” e é seguido por uma ótima mudança melódica no trecho “”Do amor de Iaça ao esplendor de Belém do Pará” / Lugar de rara beleza”.
O samba tem uma letra clara com início, meio e fim para contar a história da escola no Carnaval de 2016. A melodia mais cadenciada e o tom mais baixo faz com que o samba seja agradável de se ouvir, embora haja um leve arrastamento em “Índia tão bela, sua lágrima o fruto fez brotar” seguido do verso “Do solo sagrado brasileiro”, que destoou do conjunto do samba por ser muito acelerado e ter a letra atropelada pela melodia. O samba volta a entrar nos eixos no verso “Correu o mundo e tem história pra contar”, que leva a um dos grandes momentos do samba: o refrão do meio.
Ele foi completamente alterado pela escola em relação à versão concorrente, mas continua muito competente. Além da letra correta e da melodia muito agradável, o samba tem um encaixe perfeito com o início da segunda parte, que é ainda melhor. O trecho “Às margens do rio, mercado popular / Destaque na cor e no seu paladar” apresenta versos mais curtos, com boa cadência e “preparam terreno” para o momento mais alegre do samba: “Dela tudo se aproveita, árvore sagrada / Culto de mina-nagô / Ôôô, saúde e bem estar / Ôôô, pra revitalizar”. Esse trecho consegue sustentar um tom mais alto por quatro versos sem que fique desagradável. Pelo contrário, aliás. É o momento de maior clímax do samba e que leva aos versos finais, com uma referência clara à cidade homenageada e à devoção dos paraenses à Virgem Maria. Grande samba, que como de costume foi valorizado pelo sempre competente Royce do Cavaco.
6) Império de Casa Verde: “O Império dos Mistérios” – Carlos Jr
Composição: Carlos Jr / Fabiano Sorriso / Fabinho LS
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A Império de Casa Verde é outra escola que retoma em 2016 uma característica de seus sambas mais famosos. A Caçula do Samba, uma das duas escolas que não fizeram disputa de samba (no lugar, optaram por uma encomenda dentro da própria ala de compositores da escola), aposta em um samba com ótimas variações melódicas e um refrão longo. Alguns pontos da obra me lembram inclusive o samba de 2007, enquanto outros me remetem o samba de 2010. É uma obra que deixa a escola bem à vontade, que tem ótima qualidade musical, mas que me agradava mais na primeira versão divulgada pela escola.
O citado refrão longo é o melhor momento do samba. A melodia nos versos “Vem meu samba desvendar / Meu corpo arrepiar sou caçador de emoções” apresenta métrica muito bem construída e perfeito entrosamento com os demais versos: “Trago no peito um sentimento sem mistérios / Bate forte coração minha paixão, te amo… Império”. A primeira parte também tem uma construção melódica muito bem feita, apostando em desenhos musicais mais “pesados”. Como o samba é muito bem feito, mesmo cantado em um tom mais acima, não fica cansativo e nem desagradável. Os destaques nessa estrofe inicial são os versos “Terra sagrada “abençoada” ensina decifrar o seu valor” e “Sigo a lança do destino…cada um com sua crença / Crendo na cura da alma e no poder divino”. O primeiro pela cadência maravilhosa imprimida pela Bateria Barcelona do Samba. O segundo, pela letra inspirada.
O refrão do meio também é muito bom. A letra não é de fácil assimilação, mas cumpre bem o seu papel e a melodia, mais acelerada, colabora para que o samba flua com tranquilidade. O destaque, novamente por conta da bateria, é o trecho “O mar de ilusões…Atlântida / Mistérios dessas civilizações”. Na segunda parte, aparecem dois trechos que me agradavam mais na primeira versão disponibilizada pela escola. Os dois, no caso, pelo mesmo motivo: uma subida desnecessária no tom, já que os versos se destacavam justamente pelo tom mais comedido. O primeiro, logo no começo, é o trecho “Sinais em pedra…o dom de curar / Caminho traçado a outro lugar / Povo iluminado o tempo dirá”. Depois, em “Quando a saudade me abraça eu olho pro céu”, que, por sinal, abre um trecho muito inspirado, seguido pelos versos: “Vejo a luz que me acalma na imensidão”. O resto da estrofe se segue de maneira correta, concluindo bem o samba. À parte essas subidas de tom, Carlos Júnior cantou com a mesma competência de sempre.
5) Unidos de Vila Maria: “A Vila Mais Famosa é a Mais Bela, Ilhabela das Maravilhas” – Clóvis Pê
Composição: Dudu Nobre / Rafa do Cavaco / Turko / Maradona / Paulinho Miranda / Diego Nicolau / Garoto Bom / Nenê da Vila
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Quem também aproveitou o Carnaval de 2016 para voltar a apresentar um grande samba foi a Unidos de Vila Maria. O enredo sobre Ilhabela ganhou um samba que foge um pouco às características da escola e se assemelha mais ao estilo de composição de Dudu Nobre e Diego Nicolau, embora algumas das marcas mais fortes do estilo de composição da “parte paulistana” da parceria também estejam presentes. O samba tem ótimo aproveitamento do enredo e uma construção melódica muito bem feita. Não é inovador, mas cumpre muito bem o seu papel.
O refrão principal, por exemplo, é simples, mas muito bem feito. Tem uma ótima descida de tom em “A “Mais Famosa”… É ela!”, mas escorrega na primeira passagem do verso “Vila Maria canta Ilhabela”, que exige uma subida de tom para “fechar” a melodia, o que acaba por quebrar o conjunto melódico. Por falar em melodia, a primeira parte do samba é excelente, destacando-se os versos “Vem ver! / No horizonte, o sol vai despertar” e “O azul do mar revelando encantos e magias!”. Por outro lado, a construção melódica não foi tão bem trabalhada na passagem “Terra onde canta o tangará! / E o índio bateu o tambor… ôô”. Há um claro descompasso do primeiro verso para o segundo, sendo esse o único deslize mais perceptível na obra.
O samba volta a se destacar no refrão do meio. A melodia muito bem construída valoriza uma letra muito inteligente. Se os versos “E no balanço das ondas… mareia! / Tem reza forte tem… na aldeia… clareia!” são os mais agradáveis de se ouvir, os dois últimos, “Salve o sincretismo na religião! / Oxóssi é São Sebastião!” são os melhores em termos de letra. A melodia suave adotada em todo o samba segue sendo a regra na segunda parte. Me arrisco a dizer que é a estrofe com o melhor casamento entre letra e melodia em todo o CD do Grupo Especial. É gostoso de ouvir, é gostoso de cantar e é muito fácil de compreender o que está sendo retratado ali.
A estrofe foi tão bem pensada que para destacar os melhores versos, temos que lembrar praticamente toda a estrofe: “Lendas, mistérios e sedução! / Em busca do ouro, a ambição! / Vai e vem da maré! … Sinfonia do ar!” e “A grande capital da vela!… Ilhabela! / Dona das mais lindas cachoeiras… Deságua na Cadência do meu samba” são os trechos que acabam se sobressaindo em uma estrofe absolutamente perfeita. Mesmo sem grandes novidades, o samba é criativo e foge ao lugar-comum dos enredos CEP. Se está em quinto lugar nessa lista, na avaliação única e exclusiva do meu gosto pessoal está bem melhor colocado. Para isso, contribui uma boa atuação de Clóvis Pê, que valorizou bastante o samba e suas nuances melódicas. O belo alusivo na voz de Dudu Nobre é outro ponto marcante da faixa.