A fase pré-carnavalesca marcou uma grande novidade: no vigésimo aniversário do sambódromo, as escolas de samba foram incentivadas – e autorizadas, claro – a reeditarem sambas-enredos antigos. Quatro agremiações seguiram esse caminho: Portela, Império Serrano, Unidos do Viradouro e Tradição. No entanto, apenas as escolas de Madureira decidiram reeditar sambas próprios, o que gerou críticas às demais.
A Azul e Branco escolheu como enredo “Lendas e Mistérios da Amazônia”, de 1970, enquanto a escola da Serrinha optou pela reedição de “Aquarela Brasileira”, de 1964. Já a Viradouro quis reeditar o samba-enredo da Unidos de São Carlos de 1975 (“A Festa do Círio de Nazaré”), mas com novo título: “Pediu pra Pará, parou! Com a Viradouro eu vou pro Círio de Nazaré”. A Tradição, por sua vez, escolheu o clássico “Contos de Areia”, da Portela, em 1984 – vale lembrar que depois daquele desfile, a escola da Campinho foi fundada por dissidentes da Majestade do Samba. Curiosamente, a Viradouro chegou a iniciar uma disputa de samba para uma composição inédita e, no decorrer da mesma, optou pela reedição.
Das agremiações que escolheram enredos inéditos, a campeã Beija-Flor de Nilópolis tinha sem dúvida o melhor samba, para o enredo “Manoa, Manaus, Amazônia, Terra Santa: Alimenta o corpo, equilibra a alma e transmite a paz” – o compositor Aloisio Villar certa vez contou aqui no Ouro de Tolo bastidores da disputa de samba da escola para aquele ano. A vice-campeã Mangueira contaria a história da estrada real que corta Minas Gerais, também com um samba-enredo de qualidade.
Joãosinho Trinta novamente foi centro de polêmica na fase pré-carnavalesca: o carnavalesco escolheu para a Grande Rio o enredo “Vamos vestir a camisinha, meu amor!”. João prometia chocar o público com encenações e alegorias que reproduziriam cenas de sexo e esculturas de órgãos genitais. Dizia ele que o objetivo do enredo era alertar sobre o risco das doenças sexualmente transmissíveis, mas os críticos não pouparam o carnavalesco, o acusando de querer levar para a avenida um tema apelativo. Para piorar, o samba-enredo não ajudava nada nada…
A Imperatriz Leopoldinense prometia contar a história de Cabo Frio, tendo o pau-brasil e a cor vermelha oriunda da extração da madeira como fio condutor do enredo – em nova tentativa de driblar as imposições de um enredo patrocinado. Já a Mocidade Independente de Padre Miguel escolheu outro enredo de conscientização, no caso, sobre a educação no trânsito. O Salgueiro teria como tema o álcool combustível e seus diferentes benefícios, enquanto a Unidos da Tijuca levaria para a Sapucaí um enredo que misturava ciência e invenções. Quem atraiu a atenção da mídia foi a Caprichosos de Pilares, pois escolheu como enredo Xuxa, a Rainha dos Baixinhos.
A Unidos do Porto da Pedra teria como tema as formas de comunicação entre as pessoas, desde os primórdios da civilização até a era da internet. Completava o Grupo Especial a São Clemente, que, depois da polêmica vitória no Acesso em 2003, escolheu como tema uma crítica ao famoso jeitinho brasileiro, principalmente o dos políticos.
OS DESFILES
Sob chuva, a escola da Zona Sul apostou na irreverência ao defender o interessante enredo “Boi voador sobre o Recife: Cordel da galhofa nacional”. O tema do carnavalesco Milton Cunha partiu da primeira cobrança de pedágio do Brasil, no Recife, por Maurício de Nassau. Explica-se: este deu uma festa e, para, digamos, arrecadar fundos, anunciou que haveria um boi voador para o público ver. Claro que a promessa não foi cumprida, como muitas das que ainda existem hoje em dia.
Infelizmente devido à chuva, o conjunto de fantasias e alegorias, que tinha muitos elementos em espuma, acabou perdendo o efeito. Para piorar, às vésperas do desfile, Milton Cunha recebeu pressão de políticos para mudar a esperada escultura que mostrava um Tio Sam sentado no Congresso Nacional como se fosse numa privada…
Apesar da boa atuação da bateria, o samba não cresceu tanto na avenida, e a evolução não foi das mais vibrantes. Logo, a escola terminou o desfile já como candidata à parte de baixo da tabela. Curioso é que o samba dizia que “aqui o que é sério é Carnaval”, o que não deixa de ser uma tremenda ironia se lembrarmos as circunstâncias da ascensão da escola no ano anterior.
Cercada de expectativa do público, a Caprichosos de Pilares acabou fazendo um desfile alegre, mas bastante irregular, com o enredo “Xuxa e seu Reino encantado no carnaval da imaginação”. A proposta do enredo do carnavalesco Cahê Rodrigues foi bem apresentada em alegorias, mas as fantasias também foram prejudicadas pela chuva.
A comissão de frente era formada por bailarinas que saíam de um elemento alegórico com cogumelos e interagiam com o enorme abre-alas. O elemento tinha uma grande escultura de um mago segurando um bebê simbolizando Xuxa, com belo acabamento e movimentos. A homenageada desfilou no último carro e foi ovacionada pelo público (foto).
Mas o samba-enredo não era dos melhores, e nem mesmo o grande cantor Jackson Martins – no seu último desfile, veja mais na seção Curiosidades – conseguiu levantar o público, que se manifestou com mais entusiasmo apenas quando Xuxa passou.
Pena que a escola também teve sérios problemas de evolução, com diversos buracos entre as alas. Para piorar, a lentidão do começo do desfile se transformou em correria para que a Caprichosos não estourasse os 80 minutos regulamentares. Conseguiu a duras penas. Foi sem dúvida uma apresentação simpática, mas que deixaria a Caprichosos do meio para trás na tabela.
Na fase pré-carnavalesca, teve gente que ironizou a Unidos da Tijuca pelo refrão principal de seu samba: “Sonhei, amor, e vou lutar / Para o meu sonho ser real / Com a Tijuca campeã do Carnaval”. Ora bolas, como uma agremiação cujo único campeonato na elite remontava a 1936, havia sido rebaixada várias vezes, tinha como melhor posição no Grupo Especial nas últimas décadas um isolado quinto lugar (em 2000) e vinha de duas nonas e uma décima colocações nos três anos anteriores, achava factível ser campeã?
Pois bem, a chegada do ex-comissário de bordo Paulo Barros para a função de carnavalesco da escola proporcionaria uma imediata mudança de patamar para a agremiação do Borel e provocaria a última grande revolução estética do Carnaval do Rio de Janeiro.
Oriundo da Vizinha Faladeira e com passagens pelo Arranco do Engenho de Dentro e Paraíso do Tuiuti, Paulo Barros mesclou tecnologia, criatividade e o uso de materiais alternativos (e, literalmente, humanos) para proporcionar uma exibição arrebatadora e inesquecível com o enredo “O sonho da criação, a criação do sonho. A arte da ciência no tempo do impossível”, que contou a história das descobertas científicas e tecnológicas.
O cartão de visitas foi a supercriativa comissão de frente (foto acima) que representava “A Ciência Move o Homem”. Os integrantes estavam com uma fantasia dourada com uma “saia” que girava como uma engrenagem e era formada por texturas que simbolizavam circuitos de computador e ainda tinham relógios funcionando de verdade. Simplesmente magnífico!
O carro abre-alas chamava-se “Máquina do Tempo” e tinha um integrante fantasiado de Albert Einstein, já que a alegoria representava as teorias sobre tempo e espaço. O interessante carro “Da Alquimia à Química” tinha dezenas de grandes cápsulas de remédios esculturas de bruxas (já que os cientistas eram acusados de bruxarias) e apenas um destaque, que representava “O Grande Alquimista”. Parecia uma provocação para o que estava por vir…
A primeira demonstração da nova estética que Paulo Barros propunha era o carro “Energia”, que tinha dezenas de integrantes fantasiados de preto fazendo uma coreografia muito bem ensaiada mostrando o trabalho dos para-raios. Mas o carro chamado “Criação da Vida” veio a seguir para revolucionar o Carnaval.
Não havia praticamente nada além de uma estrutura de metal com pequenos acabamentos em dourado e 127 integrantes com o corpo pintado de azul claro e brilhante (foto ao lado). Mas por que isso foi uma revolução? Simplesmente porque os componentes formavam uma grande pirâmide humana e faziam uma coreografia simplesmente genial que representava o DNA. O efeito foi simplesmente de fazer cair o queixo.
As demais alegorias também chamaram muito a atenção, como a chamada “Viagens Extraordinárias”, que retratava o livro “20 mil léguas submarinas”, de Julio Verne, e tinha 300 mil canudinhos de refrigerante para representar o fundo do mar (foto acima). Paulo Barros também abusou de materiais mais baratos no carro “Ficção Futurista”, com 14 mil garrafas de plástico – além disso, a iluminação toda em branco dava um efeito espetacular.
Assim como os carros, as fantasias estavam muito criativas. Entre todos os figurinos, os que mais se destacavam eram os da bateria, que tinham enormes chapéus em formato de cérebros (foto), o que já era de impacto. Mas quando a bateria (que por sinal imprimiu um ritmo mais cadenciado do que o “afrevado” de 2003) saiu do box, os ritmistas abriram os cérebros e de lá saíam bolas azuis de gás.
Nos quesitos de pista, a despeito de pequenos descompassos de evolução, a Tijuca também esteve muito bem. O samba, que não era muito cotado na fase pré-carnavalesca, cresceu muito na avenida com a interpretação de Wantuir e os componentes estavam muito empolgados. O público aos poucos conheceu o samba e no fim cantou com a escola.
A Tijuca deixou a avenida sob aplausos e com a sensação de ter feito o melhor desfile de sua história. Ficou evidente que a escola do Borel brigaria com muita força pelas primeiras colocações, no mínimo. De qualquer forma, ainda era cedo para falar em título, já que grandes potências do Carnaval ainda desfilariam.
A primeira delas foi o Salgueiro, que, no entanto, apesar de ter feito uma apresentação correta, acabou não causando o mesmo impacto que a vizinha tijucana. Para começar, a escola entrava na avenida pela primeira vez em muitos anos sem o inesquecível Mestre Louro, o que já configurou uma quebra de tradição.
Mas não quer dizer que a Vermelho e Branco não tenha tido bons momentos com o enredo “A cana que aqui se planta, tudo dá…Até energia. Álcool, o combustível do futuro”, de Renato Lage e sua esposa Márcia Lage. O conjunto de alegorias era bem no estilo Lage, com muito high tech e soluções criativas. Agradou muito o carro “Alcoópolis”, que tinha uma pista na qual karts passeavam (foto). As fantasias estavam criativas e bem acabadas, com destaque para o diferente figurino da ala das baianas, simbolizando engrenagens de indústrias.
Outro destaque foi a comissão de frente, que retratava a origem da cana-de-açúcar e cujos integrantes faziam coreografias formando um elefante com seus elementos cenográficos. Mas nos demais quesitos de pista o Salgueiro não esteve num de seus melhores dias. Muito por conta do samba-enredo limitado, que não contagiou componentes nem público apesar de a bateria de Mestre Jonas ter feito uma boa apresentação.
Depois dos problemas graves de evolução nos anos anteriores, finalmente o Salgueiro resolveu reduzir seu contingente de 5500 para 4200 componentes. Mas, se em 2004 os desfilantes salgueirenses evoluíram com mais fluência, o já citado samba não proporcionou uma apresentação quente.
Aguardada com expectativa pelo terceiro lugar de 2003 e pela grande polêmica envolvendo Joãozinho Trinta na fase pré-carnavalesca, a Acadêmicos do Grande Rio fez uma apresentação muito aquém do que se esperava, com o enredo “Vamos vestir a camisinha, meu amor!”.
Para começar, o samba era arrastado e isso se refletiu no conjunto da escola, já que os componentes não estavam empolgados e nem o público cantou. Só mesmo a grande bateria do Mestre Odilon conseguiu agradar na despropositada apresentação tricolor.
João 30 era um gênio (para muitos o maior de todos os carnavalescos), mas desta vez errou a mão. O desfile começava inspirado na pintura “Jardim das Delícias” e mostrava como teria sido o primeiro ato sexual no Paraíso. Por decisão judicial, três alegorias que tinham símbolos de atos sexuais ou reprodução de órgãos genitais foram cobertas e tinham faixas com a palavra “Censurado” (foto). Outra alegoria simbolizava as casas noturnas, se é que me entendem…
As fantasias não eram das mais criativas, e preservativos formavam os figurinos do mestre-sala e da porta-bandeira. Nas vestimentas das baianas, havia placas com figuras do kama sutra. Até que havia alas dedicadas à proposta alegada do enredo, que era a de conscientizar a população sobre os cuidados com as doenças sexualmente transmissíveis, mas falou-se muito mais de sexo em si. Para piorar, a escola teve problemas de evolução e quase estourou os 80 minutos regulamentares.
Penúltima escola a desfilar na primeira noite, a Estação Primeira de Mangueira manteve o alto padrão de apresentações que vinha tendo desde a chegada do carnavalesco Max Lopes, três anos antes. O enredo “Mangueira redescobre a Estrada Real… E deste Eldorado faz seu carnaval”, sobre o desenvolvimento da região em que passava a antiga estrada de ferro e a importância do estado, foi muito bem desenvolvido.
Para começar, a comissão de frente liderada por Carlinhos de Jesus mais uma vez arrebatou a Sapucaí com uma grande apresentação e um figurino supercriativo: cada um dos 15 integrantes carregava quatro bonecos (presos a tubos) que representavam personagens de Minas Gerais como Tiradentes, Tancredo Neves, Carlos Drummond de Andrade e Juscelino Kubitschek, entre outros (foto acima). Com a coreografia da comissão, o efeito foi maravilhoso, e parecia que havia muito mais gente na pista.
O abre-alas, como vinha sendo costumeiro, era enorme, com muito dourado. Tiveram ótimo efeito a alegoria que representava o trem da estrada real (com 60 metros de comprimento) e o carro que se chamava “Casa da Sinhá Chica da Silva”, este com muito branco, dourado e rosa em tons suaves, além de uma enorme escultura de Chica. A alegoria “Arquitetura Barroca” também estava brilhante, parecia mesmo uma construção mineira. Aliás, em termos de acabamento de alegorias, a Mangueira foi a melhor escola do ano, mesmo sem surpreender tanto como a Unidos da Tijuca.
As fantasias também contaram muito bem o enredo, além de serem belíssimas. A ala das baianas, que representava a “Explosão Barroca”, estava maravilhosa, com figurinos em dourado e muito bem detalhados. Aliás, o dourado predominou durante toda a primeira parte do desfile (o que, apesar de um tanto exagerado, era até pertinente ao enredo), com o verde e o rosa da escola entrando apenas depois.
Depois dos problemas de saúde na fase pré-carnavalesca, Jamelão esteve na condução do agradável samba-enredo e a escola se apresentou bem no quesito Harmonia, com os componentes cantando a contento. Por outro lado, a evolução esteve um tanto descompassada em alguns momentos, dada a grandeza das alegorias e o excesso de alas coreografadas – mesmo sem grandes buracos, em alguns momentos houve lentidão, e em outros, pressa na passagem dos componentes.
A Mangueira terminou seu bom desfile mais uma vez credenciada a brigar pelas primeiras colocações pela correção na maioria dos quesitos e pela inegável beleza visual. Mas a Verde e Rosa desta vez não teve o impacto que se viu na apresentação da Tijuca, tampouco mexeu com o público como em 2002 (principalmente) e 2003.
Em seguida à Mangueira, desfilou a Portela – a meu ver, pela grandeza das duas agremiações, as mais populares e vitoriosas do Rio, ambas nunca poderiam desfilar no mesmo dia – e foi mais uma apresentação com qualidade na noite. Ou melhor, no caso da Portela, no alvorecer, como tantas e tantas vezes na história da maior campeã do Carnaval.
Depois do decepcionante desfile de 2003, no qual a falta de recursos limitou (e irritou) o carnavalesco Alexandre Louzada, claramente houve muito mais esmero para o conjunto visual portelense e isso se refletiu no que foi uma das boas exibições do ano. O novo carnavalesco Jorge Freitas ampliou a sinopse do enredo “Lendas e Mistérios da Amazônia” original e, em vez de três, abordou sete lendas daquela região.
A comissão de frente estava bem fantasiada e representava os “guardiões da água sagrada”. Já a águia sagrada (foto acima) simbolizava o Eldorado e estava deslumbrante, toda em dourado brilhante, além de ter um aspecto agressivo, para a frente, e com bons movimentos. Além disso, havia lindas esculturas de mulheres guerreiras. As outras alegorias também estavam muito bem concebidas e acabadas. Inteligentemente, Jorge Freitas usou cores que rendiam impacto com a luz do dia, tanto nos carros como nas fantasias e isso tornou a divisão cromática muito adequada.
O extraordinário samba-enredo, um dos maiores da riquíssima história portelense, dizia: “A lua apaixonada chorou tanto / E do seu pranto nasceu o rio-mar”, e a alegoria que representava este trecho era simplesmente emocionante, tamanha a felicidade de sua concepção e acabamento (foto).
Todos os outros carros também agradaram, especialmente o chamado “O Reino das Águas”, com duas esculturas de índios bem realizadas e muito verde em volta, e outra alegoria chamada “O Encantamento do Uirapuru”, com uma enorme ave no topo e também ladeada de muito verde, além de esculturas de araras e uma de jacaré que abria e fechava a boca. O primeiro e único Paulinho da Viola desfilou naquela alegoria ao lado de outros portelenses das antigas.
Depois de uma fase pré-carnavalesca tumultuada para a bateria da Portela, com a troca de Carlinhos Catanha por Mug a 40 dias do desfile, a Tabajara do Samba deu boa cadência ao samba, sem deixá-lo lento demais como era em 1970 ou acelerá-lo excessivamente como muitas baterias estavam fazendo naquele ano, mas ainda assim teve problemas – veja no Cantinho do Editor. Valorizando seus nomes históricos, a Portela colocou Dodô à frente dos ritmistas como madrinha – aos 84 anos, ela desfilou com uma alegria comovente (foto).
Lamentavelmente alguns setores do sambódromo ficaram vazios – naquele tempo já havia gringo demais e povo de menos nos desfiles do Grupo Especial, e sabemos bem que tem gente que não aguenta o tranco e sai antes de a última escola passar – mas quem esperou, aplaudiu a Portela, que apressou um pouco o ritmo no fim da sua apresentação para não estourar os 80 minutos regulamentares. Conseguiu. A Majestade do Samba encerrou seu desfile como uma das melhores escolas do dia, ao lado da Tijuca e da Mangueira.
A Tradição abriu a segunda noite de desfiles com outra reedição, a do famosíssimo samba “Contos de Areia”, mas teve uma apresentação irregular na maior parte dos quesitos. O conjunto alegórico até que era O.K., mas a forte chuva que caiu durante a apresentação da Azul e Branco causou danos, assim como nas fantasias.
Os cantores Lourenço e Wander Timbalada cantaram com garra, e até que os componentes passaram animados, afinal o samba-enredo era antológico e estava na ponta da língua.
Mas a evolução foi confusa, porque as alegorias e fantasias eram grandes e pesadas – sem contar as muitas alas coreografadas. Não havia risco iminente de rebaixamento, mas poderia ter sido um desfile melhor.
A chuva também atrapalhou a Unidos do Porto da Pedra, que levou para a avenida o enredo “Sou tigre, sou Porto, da Pedra à internet: O mensageiro na história da vida do leva e traz”. Infelizmente o conjunto visual da escola, que estava bem adequado à proposta do enredo, não resistiu à água.
Houve problemas ainda com a bem sacada comissão de frente, cujos componentes tiveram enormes dificuldades com as fantasias de cachorro (molhadas pela chuva) e sofreram até o fim do desfile.
O samba-enredo também não ajudou e, com isso, houve um desânimo entre componentes e público. Mas não foi um desfile desastroso porque o enredo foi bem passado e era bastante pertinente para uma época em que a internet cada vez mais alçava voos mais altos.
Terceira a desfilar, a Imperatriz Leopoldinense fez uma grande apresentação e se posicionou confortavelmente entre as melhores escolas do ano. No enredo “Breazail”, (palavra de origem celta que significa vermelho e parece com o do nome do nosso país), Rosa Magalhães contou a história de Cabo Frio por intermédio da extração do pau-brasil (que ocorria na região na época do Brasil Colônia) e do uso para tingimento em vermelho, além das origens da cor. Diga-se de passagem, o município patrocinou o enredo, que foi bem desenvolvido.
A Imperatriz contou com a ajuda de São Pedro, pois a chuva deu uma trégua, e a carnavalesca voltou a proporcionar à escola um conjunto visual de muita qualidade. Rosa Magalhães valorizou na divisão cromática o vermelho e o mesclou com a categoria de costume ao verde e branco da agremiação e ainda outras cores.
A comissão de frente de Fabio de Mello teve mais uma grande exibição, representando “bruxas alquimistas” com uma dança criativa. Em seguida, o abre-alas tinha uma enorme escultura de bruxa e de um caldeirão, de onde sairia a tintura vermelha. O segundo carro representava a alquimia e era inspirado no pintor holandês Jeronimus Bosch. Em seguida, a escola teve vários setores representando a China, que, segundo a sinopse, sempre valorizou o vermelho.
Em seguida, o desfile viajou pela extração do estanho pelos celtas, já que a cor vermelha era produzida por esse minério. Depois, finalmente a chegada à nossa terra, com a exploração do pau-brasil em Cabo Frio, local da primeira feitoria portuguesa. Por fim, uma mensagem de utopia baseada nas narrações das viagens de Américo Vespúcio e uma esperança de preservação da nossa mata atlântica, com muito pau-brasil, claro.
O samba-enredo seria cantado por David do Pandeiro, que, no entanto, foi dispensado durante um ensaio técnico, já após a gravação do CD. Ronaldo Ylê foi alçado à condição de intérprete oficial e teve condução segura. O samba teve bom rendimento na avenida, assim como a bateria de Mestre Beto, que esteve correta nas paradinhas.
A evolução da Imperatriz não teve buracos, mas acabou sendo rápida, tanto que as últimas alas ficaram paradas no fim da apresentação para que a escola não passasse abaixo dos 65 minutos mínimos exigidos. Mas foi um desfile simpaticíssimo, que deixou ótima impressão ao público e crítica.
Embalado por um dos melhores sambas-enredo de todos os tempos, o Império Serrano fez uma exibição emocionante, que remeteu aos grandes momentos do samba, quando o chão das escolas valia mais do que as questões estéticas. Foi sem dúvida o desfile que mais empolgou o público, que sabia cantar “Aquarela Brasileira” de cor e salteado – até os gringos se esbaldaram nas arquibancadas.
O cantor Nêgo, depois das críticas pela atuação infeliz em 2003 com a Unidos da Tijuca, conseguiu na sua estreia pelo Império o que para muitos era dificílimo: cantar uma obra antiquíssima sem causar arrastamento na harmonia da escola, ou imprimir um andamento veloz que assassinasse o samba. Claro que para isso também contribuiu a mágica bateria de Mestre Átila, que se consolidava como um dos grandes diretores do Carnaval do Rio.
Nos quesitos visuais, apesar de uma divisão cromática adequadíssima, com cores fortes sem serem cansativas, e de a proposta do enredo ter sido passada com correção, lamentavelmente houve uma visível irregularidade no conjunto, com algumas alegorias e fantasias com problemas de acabamento, mesmo sem estar chovendo com intensidade.
A preparação da escola foi muito prejudicada por liminares obtidas pela oposição que bloqueavam os repasses de verbas para a preparação do carnaval, tanto que a escola chegou ao desfile sob o comando de um interventor. Inclusive, a presidente Neide Coimbra fez um desabafo no microfone antes de Nêgo começar a cantar, e revelou que a verba havia sido desbloqueada apenas na sexta-feira anterior ao desfile.
Houve também problemas em evolução, que foi confusa na maior parte do desfile. Por outro lado, os componentes cantaram o samba o tempo todo. O Império saiu aplaudidíssimo da avenida pelo grande espetáculo musical e de empolgação. No entanto, os problemas citados atrapalhariam a Verde e Branco numa apuração que prometia ser equilibrada.
Além das adversárias, a campeã Beija-Flor de Nilópolis teve de encarar outro obstáculo impiedoso no desfile de 2004: a chuva. Justamente na passagem da Azul e Branco, a precipitação se acentuou, mas, a exemplo do que havia acontecido no histórico desfile de 1986, os componentes desfilaram com muita garra e cantaram com entusiasmo o lindíssimo samba “Manôa, Manaus, Amazônia, Terra Santa: Alimenta o corpo, equilibra a alma e transmite a paz”.
A bela comissão de frente representou as guerreiras da Amazônia (estavam vestidas com fantasias criativas) e o maravilhoso abre-alas (foto acima), que era acoplado, trazia uma grande embarcação dourada representando a ganância espanhola, já que eles chegaram ao continente americano no século XVI em busca de arrancar tudo da terra. Os componentes da alegoria fizeram coreografia simbolizando as velas da embarcação e havia um grande sol representado por uma impecável iluminação. Na segunda parte da alegoria, a escola lembrou o extermínio dos incas (foto ao lado).
Em termos de concepção, diga-se de passagem, a Beija-Flor teve sem dúvida um trabalho muito mais acurado do que nos dois anos anteriores, principalmente nos carros que reproduziam a natureza do local e os animais, como na excelente alegoria “Manôa, o fantástico reino do Eldorado”. O dourado visto mais no começo do desfile deu lugar ao verde e azul de águas e árvores, e outras cores das espécies da região; consequentemente, a divisão cromática foi muito adequada ao enredo.
No entanto, a forte chuva infelizmente causou danos consideráveis nas alegorias (sobretudo as do meio para o fim do desfile) e fantasias, cujos pedaços foram despencando na pista. O caso mais grave ocorreu no carro que reproduzia o Teatro Amazonas. Literalmente a alegoria foi se desmanchando pela avenida, o que talvez acarretasse numa perda de pontos que poderia ser fatal para as pretensões da escola.
Para piorar, como as fantasias ficaram mais pesadas pela chuva e pedaços também ficavam pendurados, houve também dificuldades para as alas evoluírem do meio para o fim da pista. Além do mais, houve problemas para os carros alegóricos serem retirados da avenida.
De qualquer forma, a proposta do enredo foi bem transmitida e, amparados pelo gigante Neguinho da Beija-Flor e a ótima bateria de Mestre Paulinho (que, aliás, imprimiu perfeito andamento ao samba e caprichou nas paradinhas e convenções), a escola manteve a pegada de sua exibição até a Apoteose e ficaria bem colocada. Restava saber se os jurados levariam em conta os danos de alegorias e fantasias.
Ainda sob forte chuva, a Unidos do Viradouro fez uma exibição emocionante ao levar para a avenida o Círio de Nazaré e também se credenciou à briga pelo campeonato. A ideia original da escola era fazer um novo enredo sobre a romaria paraense, mas, quando a disputa de samba-enredo já estava em andamento, o presidente José Carlos Monassa informou que a antiga obra de Dário Marciano, Nilo Mendes e Aderbal Moreira, da Unidos de São Carlos em 1975, seria reeditada.
Apesar da polêmica, o grande samba-enredo funcionou maravilhosamente quase 30 anos depois graças à brilhante interpretação de Dominguinhos do Estácio (um devoto fervoroso de Nossa Senhora de Nazaré) e à impecável bateria de Mestre Ciça, que, ao contrário de anos anteriores, nos quais estava acelerada, mostrou uma cadência perfeitamente adequada ao samba.
O carnavalesco Mauro Quintaes fez talvez seu melhor trabalho na carreira, com um bom gosto indiscutível nas fantasias e alegorias, e uma perfeita divisão cromática, valorizando as cores da escola e as mesclando principalmente com dourado e prata.
Agradou muito da alegoria que representava o órgão da Paróquia de Nossa Senhora de Nazaré, com um excelente jogo de luzes, em amarelo e vermelho e muitos espelhos, o que dava um efeito muito interessante. Já a alegoria chamada “Índio”, que simbolizava o primeiro filho do estado do Pará, era de extraordinária concepção, com um grande boneco de índio (foto ao lado) que reproduzia o nado nas águas dos rios – aliás, quase a alegoria não passa pelo famoso viaduto vizinho ao sambódromo. Outro destaque foi o carro “Lendas e Folclore”, de ótimo acabamento e diferentes cores, mas sem quebrar o conjunto visual.
Aliás, mesmo com a escola tendo desfilado no momento de chuva mais forte, tanto alegorias como (a maioria dos) figurinos resistiram de forma impressionante até quase o fim do desfile. E tudo estava perfeitamente adequado à proposta do enredo, que, além da procissão em si, passeou pelos aspectos mais importantes do Pará.
Mas nada foi mais emocionante no Carnaval de 2004 do que o começo do desfile da Viradouro. Para começar, a comissão de frente coreografada por Deborah Colker tinha seus integrantes representando os peregrinos e a grande corda da procissão, que saía de um elemento alegórico que simbolizava uma casa e, em dado momento, envolvia os componentes. A seguir, uma enorme ala (foto acima) de romeiros tipicamente caracterizados, com barcos e casas na cabeça faziam pedidos à santa e erguiam os braços no refrão central “Ó, Virgem Santa, olhai por nós/Olhai por nós, ó, Virgem Santa/pois precisamos de paz”.
A Viradouro terminou seu desfile sob aplausos do público, já que fez uma tocante exibição do começo ao fim. A escola também não conseguiu ser surpreendente como a Unidos da Tijuca, mas foi muito bem nos quesitos e estava firme na briga pelo título.
Última escola a desfilar, a Mocidade Independente de Padre Miguel entrou na avenida pouco antes do amanhecer e fez uma exibição abaixo em relação aos anos anteriores. O enredo “Não corra, não mate, não morra. Pegue carona com a Mocidade” alertou sobre os riscos da direção imprudente e, justiça seja feita, foi bem desenvolvido pelo carnavalesco Chico Spinoza, com alegorias e fantasias criativas.
Mas o desfile foi arrastado, muito por culpa do fraquíssimo samba-enredo. Com o sambódromo quase às moscas, os componentes passaram de forma desanimada e, para piorar, o cantor Paulinho Mocidade ficou com a voz prejudicada ao longo do desfile.
Foi um desfile bonito, de qualquer forma. Deixou ótima impressão a ala “Riquixás”, que tinha 15 paraplégicos depois de acidentes de carro e eram puxados por integrantes da comunidade com cadeiras de rodas decoradas. Em alegorias, dois destaques: o carro “A Evolução dos Motores”, com muitas engrenagens, e o “Autorama”, com uma pista que tinha carrinhos se movimentando.
A bateria esteve cadenciada, mas, além dos problemas de harmonia já citados, houve falhas de evolução. Com isso tudo, a Mocidade fez um desfile que na melhor das hipóteses a levaria ao sábado, mas que provavelmente seria de meio de tabela.
REPERCUSSÃO E APURAÇÃO
Terminados os desfiles, a expectativa era a de uma apuração extremamente equilibrada, já que diversas escolas fizeram boas apresentações, embora todas com pequenas falhas. O Império Serrano ganhou o Estandarte de Ouro de melhor escola, mas o título seria difícil devido aos problemas. A meu ver, o melhor desfile do ano no conjunto da obra foi o da Unidos da Tijuca, mas (pela ordem de desfile) Mangueira, Portela, Imperatriz, Beija-Flor e Viradouro tiveram exibições elogiáveis e brigariam palmo a palmo pelo campeonato.
A apuração começou com uma grande polêmica: o presidente da Liesa, Capitão Guimarães, anunciou que as notas do jurado de Bateria Ivan Paulo seriam anuladas por quebra de sigilo. Com isso, o quesito teria apenas três notas válidas.
Questões externas à parte, o equilíbrio esperado não houve, já que a apuração teve um passeio da Beija-Flor quase tão grande como no ano anterior. Nos seis primeiros quesitos lidos, a Azul e Branco perdeu apenas 0,1 em Mestre-Sala e Porta-Bandeira e abriu 0,9 em relação à vice-líder Mangueira.
Em Alegorias e Adereços, apesar de elementos terem despencado na pista, a Beija-Flor perdeu apenas meio ponto e levou um 10, o que de qualquer forma reduziu a diferença para a Mangueira. Naquele momento, Tijuca e Viradouro inexplicavelmente já estavam a mais de meio ponto da Verde e Rosa e a quase dois da Beija-Flor, o que não condizia com o nivelamento visto nos desfiles.
Em Conjunto, a Beija-Flor voltou a abrir sobre a Mangueira e, com mais despontuações, a Verde e Rosa acabou alcançada pela Unidos da Tijuca, que, por ter perdido só 0,1 nas notas do último quesito (Evolução), levou o vice-campeonato no desempate. Na frente, sem ser incomodada, a bicampeã Beija-Flor.
Eufórico, o diretor de Carnaval Laíla creditou a vitória à chuva que insistiu em cair no desfile da Beija-Flor e inicialmente havia sido considerada uma ameaça ao título:
“Nós fizemos um enredo que falava de água e esse foi um sinal de Deus de que nunca vai faltar água”.
Festa em Nilópolis e festa também no Borel pelo espetacular vice-campeonato da Unidos da Tijuca. Não é exagero dizer que, se dentro da pista a Beija-Flor venceu, fora dela o grande vencedor foi o carnavalesco Paulo Barros, consagrado pela crítica pela última grande revolução nos desfiles de escolas de samba.
Completaram as seis primeiras colocadas Unidos do Viradouro (surpreendentemente, dois jurados tiraram pontos do maravilhoso samba-enredo), Imperatriz Leopoldinense e Acadêmicos do Salgueiro. A Portela, que fez um desfile para terminar entre as cinco primeiras, acabou apenas em sétimo, e o Império Serrano ficou em nono (com uma estranhíssima e exagerada nota 7,9 em Conjunto), atrás da Mocidade Independente de Padre Miguel. Como se esperava, caiu a São Clemente.
RESULTADO FINAL
POS. | ESCOLA | PONTOS |
1º | Beija-Flor de Nilópolis | 388,7 |
2º | Unidos da Tijuca | 387,9 |
3º | Estação Primeira de Mangueira | 387,9 |
4º | Unidos do Viradouro | 386,9 |
5º | Imperatriz Leopoldinense | 386,5 |
6º | Acadêmicos do Salgueiro | 386,2 |
7º | Portela | 384,9 |
8º | Mocidade Independente de Padre Miguel | 381,2 |
9º | Império Serrano | 380,9 |
10º | Acadêmicos do Grande Rio | 380,5 |
11º | Unidos do Porto da Pedra | 376,7 |
12º | Tradição | 372,9 |
13º | Caprichosos de Pilares | 368,9 |
14º | São Clemente | 367,8 (rebaixada) |
No Grupo de Acesso, a homenagem a Paraty rendeu para a Unidos de Vila Isabel o título e a volta à elite. Diga-se de passagem, a querida escola lascou um trocadilho daqueles no título do enredo: “A Vila é para ti…” A Azul e Branco terminou com 0,6 ponto de vantagem sobre a Acadêmicos de Santa Cruz.
A nota triste foi o rebaixamento da Estácio de Sá para o Acesso B, que teve a vitória da Vizinha Faladeira e o vice da Renascer de Jacarepaguá.
CURIOSIDADES
– Infelizmente foi o último Carnaval do grande intérprete Jackson Martins. No dia 9 de agosto de 2004, o cantor da Caprichosos de Pilares foi covardemente assassinado na rodovia Washington Luís, em Duque de Caxias. O Uno dirigido por Jackson foi fechado por outro carro e dois homens encapuzados abordaram o cantor. Jackson não ofereceu resistência, mas levou dois tiros (um na cabeça), na frente da esposa, dois filhos e uma amiga. Como nada foi levado, a Polícia suspeitou que Jackson tivesse sido morto por engano, pois o veículo, que pertencia a um amigo do cantor, tinha um adesivo do Batalhão de Infantaria do Exército – os bandidos teriam suspeitado que ele fosse militar. Segundo consta, ninguém foi preso pelo crime. Jackson tinha apenas 32 anos e sua perda foi muito sentida por toda a comunidade do samba carioca.
– Meu amigo Carlos Alberto Vieira, imperiano de quatro costados e editor do Diário LANCE!, sempre teve o hábito de percorrer a Avenida Presidente Vargas a pé nas vésperas do desfile para conferir de perto as alegorias, já que a redação antiga ficava muito próxima ao sambódromo. Em 2004, ele chegou preocupadíssimo com a Unidos da Tijuca, dizendo que um dos carros estava praticamente todo no ferro e que, pelo tamanho do elemento, era impossível de ser finalizado antes do desfile. Dois dias depois passava pela Sapucaí o carro do DNA e ficamos rindo na redação com a surpresa aprontada por Paulo Barros.
– A reedição de sambas-enredo acabou não pegando no Grupo Especial. Se em 2004, quatro agremiações levaram sambas antigos para a Sapucaí, nos dez anos seguintes em apenas três vezes escolas do Grupo Especial fizeram “remakes” na Sapucaí: Porto da Pedra (“Festa Profana”, da União da Ilha em 1989), Estácio de Sá (“O tititi do Sapoti, da própria escola em 1987) e Império Serrano (“A lenda das sereias, rainhas do mar”, da mesma agremiação em 1976, com outro título: “A lenda das sereias e os mistérios do mar”).
– Devido à demora em fechar a contratação de um intérprete oficial, a Tradição convidou Alcione para gravar a faixa “Contos de Areia” no CD de sambas-enredo. Explica-se: a Marrom era uma das melhores amigas de Clara Nunes, uma das homenageadas do enredo. O curioso é que Alcione usou o mesmo grito de guerra do intérprete Celino Dias, que saiu da escola depois do desfile de 2003: “Um beijo no seu coração”, logo após o tradicional alusivo “Isto sim é a Tradição!” sempre entoado pelos cantores da escola. No desfile, cantaram o compositor Lourenço e Wander Timbalada.
– Pela terceira vez na história, o CD de sambas-enredo teve a primeira passada de cada faixa sem bateria, com os instrumentos entrando apenas na virada para a segunda passada. Só que, ao contrário de 1995 e 1996, quando poucas escolas adotaram esse expediente nas gravações, no CD de 2004 todas as faixas só tinham bateria do meio para o fim. A ideia era valorizar as melodias e as letras dos sambas. Não gostei muito, até porque as baterias tiveram uma sonoridade muito artificial. Em 2012, a Mangueira adotou esse expediente porque o enredo era sobre o Cacique de Ramos e a faixa da escola tinha a primeira passada ao ritmo de pagode.
– Falando em faixas do CD de 2004, Jamelão quase não participou da gravação devido ao agravamento de seus problemas de saúde. Foi necessário um esquema à parte para que o lendário intérprete mangueirense pudesse gravar e ficou perceptível no áudio o esforço dele para conseguir cantar. No desfile, em melhores condições, apesar de cantar sentado, Jamelão foi até o fim.
– Por falar no bom samba da Mangueira, o refrão principal dizia “Eu vou embarcar / Na Estação Primeira / Tesouro do samba, minha paixão / Ê trem bão!”, mas o Governo do Rio fez na época uma paródia numa propaganda para divulgar a empresa de trens do estado: “Eu vou embarcar / Num trem da Supervia / O melhor transporte, pra população / Ê trem bão!”. Assim como no samba mangueirense, o jingle teve interpretação de Jamelão.
– Com o Império Serrano fora das primeiras colocações no fim da apuração, a Beija-Flor homenageou a escola da Serrinha ao colocar “Aquarela Brasileira” como esquenta no Desfile das Campeãs.
– Foi o último desfile que teve Joãosinho Trinta como responsável por toda a preparação de uma escola. Dispensado pela Grande Rio antes mesmo da apuração de 2004, João 30 acertou com a Vila Isabel para conceber o enredo “Singrando em mares bravios…E construindo o futuro”, mas infelizmente sua saúde ficou debilitada a ponto de o carnavalesco precisar interromper sua participação nos trabalhos. João encerrou sua carreira com oito títulos, seis vices e seis terceiras colocações em 31 desfiles de escolas com enredos de sua confecção.
– O trecho “Hoje eu quero ver / Caldeirão ferver nessa magia” do samba da Imperatriz Leopoldinense foi bastante usado pela TV Globo nas chamadas do Campeonato Carioca de futebol nos dias que antecederam o desfile. A decisão da Taça Guanabara daquele ano (Flamengo 3 x 2 Fluminense) foi realizada no sábado de Carnaval.
CANTINHO DO EDITOR – por Pedro Migão
Em história rocambolesca, que qualquer dia contarei aqui, desfilei naquele ano na bateria da Portela, tocando chocalho. Foi um desfile problemático desde o pré-Carnaval, com a troca de Carlinhos Catanha por Mug devido a divergências sobre o naipe de tamborins – a diretoria queria que viesse “reta”, ou seja, sem convenções ou paradinhas.
Além disso, o chapéu muito alto da fantasia (foto) prejudicou a visibilidade dos diretores, tanto que metade da bateria só “subiu” na segunda passada por não ter visto o sinal. Além disso, houve problema com um dos surdos, que estava, digamos, “fora de compasso” no início do desfile. Com tudo isso, as três notas 9,9 acabaram saindo até boas – e realizei um sonho. Mas o sétimo lugar foi inacreditável, para não escrever algo mais forte.
Também tenho o orgulho de ter sido escolhido por Mestre Mug para representar a bateria em uma sessão de fotos com rainhas e madrinhas de bateria no ensaio de quarta-feira antes do Carnaval, para matéria do jornal O Dia. Minha foto com Dona Dodô e Raíssa da Beija Flor saiu na capa do jornal no domingo de Carnaval.
Sobre o desfile do Grupo Especial em si, a se lamentar apenas o resultado como um todo. Acho bem injusta a vitória da Beija Flor naquele ano, bem como outras colocações.
Ainda desfilei pela União de Jacarepaguá, Inocentes da Baixada (em carro alegórico), Vila Isabel, Paraíso do Tuiuti, Tradição, Viradouro e só não desfilei no Boi da Ilha e na bateria do Império da Tijuca no Acesso B porque meu joelho estourou. Foram sete desfiles ao total naquele ano. E só não desfilei de padre no último carro da Mangueira porque a escola “colou” com a Portela na ordem de desfile e não daria tempo.
Na União de Jacarepaguá, que trouxe o melhor samba inédito do ano – e que deveria ser o hino da Rio 2016 – desfilei de short, camiseta e prancha de surfe, em uma ala somente de amigos. Até “jacaré” pegamos na avenida.
Na Inocentes da Baixada, desfilei pela primeira e última vez em um carro alegórico, representando um grego (!) e com uma roupa totalmente transparente. Por outro lado, a Vila Isabel trouxe uma ala em que desfilamos dentro de uma espécie de “lençol” representando as ondas do mar de Paraty. Foi meu primeiro título do Carnaval. Fechando as quatro escolas na mesma noite – loucura que não recomendo a ninguém – desfilei me arrastando no Tuiuti.
O Tuiuti, que homenageava Vinícius de Moraes, esquentou a bateria com “Tarde em Itapoã” em ritmo de samba-enredo. Já a União da Ilha, que abria o desfile, se enrolou na armação da escola porque o pessoal da Harmonia ficou vendo a final da Taça Guanabara daquele ano entre Flamengo e Fluminense nas barraquinhas ao redor da concentração e chegou atrasado.
O desfile da Viradouro tem boas histórias. Na concentração, debaixo de forte chuva, duas meninas já alcoolizadas caíram com o rosto em uma poça d´água e iam se afogando na mesma… Infelizmente não consegui desfilar nas Campeãs pois minha fantasia e a de minha hoje esposa ficaram imprestáveis.
A Mocidade me fez ir embora mais cedo. Quando o puxador Paulinho Mocidade atacou um “Obrigado, meu Jesus” no grito de guerra, foi a senha para que eu, encharcado do desfile da Viradouro, fosse embora para casa. Assisti ao Acesso A nas frisas e o Especial, na arquibancada, ambos no setor 3. Aliás, só voltaria a assistir ao vivo a um desfile do Especial em 2009.
Muitos independentes consideram o samba deste ano o pior da história da escola. Ele muda três vezes (!) de tempo verbal apenas em seu refrão principal.
A Acadêmicos da Rocinha aquele ano estava turbinada pelos recursos trazidos pelo seu novo presidente, Maurício Mattos. Eu me recordo que voltava do desfile da Vila Isabel e, embora a escola já estivesse pronta no Setor 1, muita gente ainda descia dos camarotes para desfilar pela escola. Fazendo comentários do tipo “como faz pra desfilar? Tem que cantar o samba?”
Aliás, o desfile da Rocinha, que homenageava Joãosinho Trinta, foi a última vez em que Carlinhos de Pilares puxou um samba na avenida – ele morreria em 2005, aos 63 anos. Samba que, aliás, louvava o traficante que comandava o morro naquela época em seu refrão: “Eu Bem Te Vi / você sorriu / no carnaval da ilusão”. O traficante tinha este apelido, Bem-Te-Vi.
A passagem da apresentadora Xuxa pela Caprichosos frustrou muita gente. Com a escola atrasada, ela, que estava no último carro, passou muito rápido pela avenida. Reza a lenda que ela pagou em dinheiro da época R$ 3 milhões para ser enredo (R$ 6 milhões em valores corrigidos), mas isso jamais se comprovou.
Joãosinho Trinta foi demitido da Grande Rio ao fim do desfile. Foi a única vez em que ele foi demitido na carreira, nas outras três vezes (Salgueiro, Beija-Flor e Viradouro) ele pediu para sair. Aliás, a Grande Rio poderia ter sido tranquilamente rebaixada naquele ano.
Salgueiro e Mocidade levaram carros muito semelhantes visualmente – diria que praticamente idênticos – retratando ruas/pista de corrida e com componentes dirigindo nelas. Quem copiou quem? Lembro que à época não existia a Cidade do Samba.
O Condor da Tradição iniciaria uma longa peregrinação pelos desfiles da escola, sendo aposentado apenas em 2012 – quando se transformou em urubu no desfile do Arrastão de Cascadura sobre a ex-presidente do Flamengo Patrícia Amorim.
Paulo Barros conta em sua autobiografia lançada em 2012 que ao negociar o contrato com o presidente da Tijuca, Fernando Horta, solicitou apenas uma alteração nas condições oferecidas pela agremiação: que seu salário fosse dobrado caso a escola voltasse no desfile das Campeãs. Ele também conta das reações das pessoas quando viam o carro do DNA no barracão e achavam que aquilo não daria certo.
No pré carnaval daquele ano as escolas que reeditaram sambas fizeram quatro ensaios conjuntos, um em cada quadra. Fui a três deles – deixando de ir à Viradouro pois no sábado marcado comemorei meu aniversário à tarde e não tinha a menor condição etílica de ir à noite. O ocorrido na quadra do Império Serrano talvez tenha sido o melhor ensaio de uma escola de samba que estive em minha vida, com shows das quatro agremiações.
Também toquei na festa de lançamento do CD, que foi realizada no Portelão. Acompanhamos todos os sambas, sendo inclusive elogiados por Neguinho da Beija Flor – que deu um show de simpatia conosco.
No pré-Carnaval deste ano que a Portela começou a fazer, de forma pioneira, a “Feijoada da Família Portelense”, depois copiada por outras agremiações. 2004 também marcaria o fim da longa gestão de Carlinhos Maracanã na escola, desde 1971 – com um hiato entre 1995 e 97.
Links
O desfile que deu o bicampeonato à Beija-Flor
A surpreendente apresentação da Tijuca
O bom desfile da Mangueira em 2004
A emocionante passagem da Viradouro
O empolgante desfile do Império Serrano
Fotos: O Globo, Liesa, O Dia e arquivo pessoal Pedro Migão
Bom dia!
Prezado Fred Sabino:
Chuva!
Água para todo lado!
Esta é a única lembrança nítida que tenho do carnaval de 2004.
Coleciono as diversas publicações distribuídas gratuitamente no sambódromo, e as de 2004 encontram-se em estado lamentável.
Este ano serviu para ensinar à minha família que precisávamos mudar a estratégia contra a fúria de São Pedro (Nada de capinhas que cabem no bolso! Dali em diante elas seriam “profissionais” – Não rasgam por nada. São ultra-resistentes).
Pouco a acrescentar desta vez.
– Não levei fé na Tijuca. Ainda muito relutante, insistia de que a idéia das alegorias humanizadas não eram originais. De fato não são, mas Paulo Barros deu a elas o acabamento refinado que precisavam para dar início a uma revolução que ainda vivemos. Aliás, sou um de seus grandes admiradores.
– Falando em Paulo Barros, o antropólogo Nilton Santos, em seu livro “A arte do efêmero” (Ver aqui: http://www.travessa.com.br/A_ARTE_DO_EFEMERO_CARNAVALESCOS_E_MEDIACAO_CULTURAL_NO_RIO_DE_JANEIRO/artigo/21ded49e-677a-4847-bdda-0ab85fabb6e1) conta detalhes sobre a transferência de Paulo Barros da Tuiuti para a Unidos da Tijuca. É pura adrenalina, e nos faz pensar com mais cautela sobre carnavalescos, Escolas de Samba de Samba e seus dirigentes.
– Os integrantes da Comissão de Frente da Porto da Pedra tiveram que se revezar no elemento cenográfico para que conseguissem completar o desfile. A coreografia foi adaptada, e muitos passaram mal quando a apresentação terminou.
Que venha 2005…e o “efeito Paulo Barros”!
Atenciosamente
Fellipe Barroso
Ótimo texto Fred, realmente foi um ano de belos desfiles, muito equilibrados. Para o meu gosto a Mangueira seria campeã, com aquele que considero o melhor trabalho do Max Lopes na escola. Mas, como, apesar de correto, não foi tão “quente” quanto os anos anteriores, sim, o título também poderia ir para a Unidos da Tijuca, que finalmente iniciou a “Era Paulo Barros”. A partir do momento que cruzou a linha do final do desfile, o carro do DNA entrou imediatamente para a história.
Imperatriz, Viradouro, Portela e Salgueiro também gostei muito, o capricho de Rosa Magalhães na Imperatriz, a emoção dos romeiros no Círio da Viradouro, o incrível chão da Portela, a Alcoópolis de Renato Lage no Salgueiro… Somados a uma exibição de muita garra e um ótimo samba da Beija-Flor, esperava a apuração mais equilibrada da história. Porém…
Mais uma vez os jurados viram outro desfile da Beija-Flor, e novamente ela venceu com uma diferença que denota uma superioridade não vista na avenida. A chuva foi implacável com a escola, até admito que se não fosse a chuva, talvez fosse um desfile histórico, mas aconteceu, e os jurados preferiram não ver.
O gênio Joãozinho Trinta não merecia terminar sua brilhante carreira desse jeito. E Jackson Martins infelizmente cantou em seu último desfile um samba enredo ruim de dar dó…
Finalmente a Tradição voltava a permanecer no Grupo Especial de forma justa (com uma bela ajuda portelense).
Histórico momento do Império Serrano, que mais uma vez mostrou o principal motivo de não conseguir bons resultados ultimamente: desunião. A impressão que passa é que existem umas 945 correntes políticas na escola, e todas fazendo o possível e o impossível para ferrar a que está no poder, e dane-se a escola.
Algumas curiosidades: Extremamente irritante o público no Setor 11 do Sambódromo nos dois dias de Grupo Especial. Como naquele ano ele foi formado quase que na totalidade por passageiros do Transatlântico Queen Mary (que fez sucesso no Porto naquele Carnaval), e todos já eram de idade avançada, enchia no meio da segunda escola, e após a quarta já ficava vazio, deu até matéria no O Globo sobre isso. Lamentável.
E a segunda foi o pega pra capar de Rosa Magalhães x Laíla e Renato Lage num Deles & Delas antes do Carnaval. Rosa estava com a língua bem afiada naquele dia, interrompendo Renato Lage pra criticar o enredo do Salgueiro, jogando indiretas pra Laíla e dizendo que a escolha da então criança Raíssa para rainha de bateria da Beija-Flor poderia ser quase um tipo de pedofilia (!). Sobrou até para Joãozinho Trinta e seu boneco na cadeira elétrica em 2003. No meio disso tudo, um completamente assustado Cahê Rodrigues só assistia aquele confronto de gigantes…
E no Sem Censura no dia seguinte a apuração, hilários momentos com mestre Jamelão descascando o julgamento daquele ano e, por incrível que pareça, Laíla ouvindo caladinho, também, vai bater de frente com o mestre?
Aliás, a Caprichosos fez o esquenta com “Lua de Cristal”…
Nossa, então só faltou o Sérgio Malandro… Também tinha uma gravação do Vai dar Samba com o Jackson Martins cantando “Ilariê” no lançamento do enredo…
Do jeito que a coisa anda, periga alguma escola homenagear a Angélica e termos de ouvir “Vou de Táxi” no esquenta.
Adilson Gomes Oliveira, jurado de conjunto, chupou meia dúzia de limões e decidiu aquele carnaval, não atribuiu um dez sequer e foi rigoroso (até demais) em suas notas, que foram as seguintes:
São Clemente: 8.2 (já se esperava), Caprichosos: 8.1 (com um desfile daqueles, também…)
Unidos da Tijuca: 9.9 (surpreendente), Salgueiro: 9.8,
Grande Rio: 8.5 (muito esperado), Mangueira: 9.4 (INJUSTO, com todas as letras),
Portela: 9, Tradição: 7.8, Porto da Pedra: 8.3, Imperatriz: 9.7, Império Serrano: 7.9 (Um assalto a mão armada), Beija-Flor: 9.7, Viradouro: 8.8 (Outro assalto a mão armada, que aliás, acabou com qualquer chance de título da escola) e Mocidade: 9.3
Um dos diretores da Mangueira, após o 9.4 esbravejou um: “Só tem ladrão nessa porra”
Sobre os desfiles, a Tijuca estava fantástica! Lembro que recebi do meu pai a parte de cima da fantasia da bateria que ele conseguiu não sei com quem. Eu tinha 7 anos e não lembro muito, mas aquele carro do DNA… sensacional ! Paulo Barros mostrava ali pra que veio, o desfile da Tijuca superou até mesmo o da Beija (discordem à vontade) mas este, pra mim foi um (dos poucos) títulos merecidos da Deusa da Passarela.
Sobre o Jackson Marins, uma voz tão talentosa como aquela não merecia morrer daquele jeito – e esquentando com Lua de Cristal então…
Aliás, o samba da Caprichosos dá vontade até de chorar… de desgosto!
Assim como a águia escolheu o Migão em 89, a Viradouro me escolheu em 2004, tinha uma “simpatia” pela Porto da Pedra muito por morar em SG mas a Viradouro, além de ser o primeiro ensaio de rua que fui, foi a primeira quadra que frequentei, na inacabada disputa de samba. Hoje em dia, costumo dizer que “sou Viradouro desde berço”.
O “Obrigado meu Jesus” entoado pelo Paulinho Mocidade foi a senha para o público deixar o Sambódromo as moscas. E o que dizer da Sabrina Sato fazendo o “Pense” no “Pare” e vice versa.
O CD de 2004 (o primeiro que comprei) teve de tudo: de Cigana Guerreira à Presidente fazendo papel de pinguço.
Devo ser o único que acha que o samba da São Clemente o segundo melhor inédito. Aliás, qual era o fundamento do grito de guerra “fazendo sério o seu carnaval” entoado pelo Anderson Paz?
Vila Isabel começava a sua redenção, ao mesmo tempo a Estácio vivia o pior momento da história.
Que venha 2005, o ano do Leite Moça e do Ninho!
Acho que sou um dos únicos aqui que gostei da Beija-Flor ter ganho o título.
Independente de outras escolas terem merecido mais (e mereceram).
As fantasias estavam se desfazendo? Sim, óbvio que sim. Mas… que chão!! Que alegria dos componentes. E isso tudo debaixo de um temporal. O chão venceu!! E isso é muito bom para o Carnaval, como foi com o título da Vila Isabel em 2013, vitória que teve uns 70% de crédito ao samba-enredo.
Podemos dizer isso (sem levar em conta o lado obscuro das apurações): foi um título do samba-enredo. O samba é um assombro de divindade, na minha opinião, o terceiro melhor da escola, atrás de Caruanas (1998) e Criação do mundo (1978). Então, mesmo sabendo que outras mereciam o título (e mereciam mesmo), não fico nem um pouco desapontado.
Hoje em dia todo mundo acha ruim do luxo excessivo que dilacerou o verdadeiro sambista da avenida, dando lugar aos gringos que mal sabem o refrão (ainda rindo com a história da Rocinha). Então, quando um desfile faz a escola cantar a plenos pulmões, acho que a gente tem que valorizar de alguma forma.
Título injusto? Muita certeza que sim – queria a Viradouro ou a Portela campeã. Desfile inesquecível? Com certeza. A Sapucaí inteira cantando o “água… que lava minha alma…” é de arrepiar até os pelinhos do dedão do pé! Hehehehehehe…
Sobre a Tijuca: que desfile! O Carnaval precisa de mais Paulos Barros!! E a Grande Rio deveria ter caído. Mas… bem-feito para a São Clemente, por ter subido da forma que subiu!!
Sobre o jurado que deu as notas baixas, realmente, sem argumento nenhum. Uma vergonha. Pena que ainda existam essas coisas julgando, igual o Bemvindo Siqueira com a história dos eufemismos em 2006. E o Roberto Horcades, que achava que era nota de meio em meio ponto.
E só pra completar sobre a Mocidade: além do pior samba da história da escola (o do Tôco, eliminado, seria um dos melhores da história), de ter uma Sapucaí quase às moscas e de ter o Paulinho, que eu considero um baita intérprete, desafinando o tempo todo – a parte do “Sai desse pega, moleque, pisa no breque…” fazia meu intestino retorcer – a Sabrina Sato, rainha de bateria, no refrão, fazia “Pense” no Pare e “Pare” no pense. Uma coisa lamentável. Infelizmente, depois entrou o PV na escola e a gente foi para o buraco!!
Em tempo: eu, na posição de fã incondicional do gênero samba-enredo, sou grato ao Lourenço por ele ter cantado o samba no mesmo tom da versão do Silvinho, em 1984. Mas corta o coração só de pensar que o Rixxa esteve perto de cantar “Contos de areia” na Sapucaí. Já pensaram??
Não vou me estender no meu comentário. Mais um carnaval estranhamente ganho pela Beija-Flor, diante da revolução proposta por Paulo Barros em seu enredo da Unidos da Tijuca, que merecia ser a campeã – mesmo que fosse uma das maiores zebras da história.
Mas o “poder” falou mai$$$ alto e aí, já viu…
a são clemente subiu dessa maneira em 2003,para cair desse jeito melancólico e esperado.
o samba da beija-flor é o melhor entre os inéditos,já o segundo melhor é o da imperatriz leopoldinense sobre cabo frio.
wander tibalada,cantou a ocasião da tradição vai defender no acesso b a unidos de vila santa tereza,após um tempo no carnaval de corumbá.
a minha campeã em 2004 seria beija-flor e unidos da tijuca,com mangueira,viradouro e portela emboladas.
Tinha 8 anos em 2004, gosto de carnaval desde sempre, lembro que com 4, 5 anos, eu ficava lendo a capa dos LPs antigos que mu tio tinha e tentava cantar a letra que vinha neles ( fazia a melodia do meu jeito, já que os discos mesmo não funcionavam mais ) mas foi em 2004 que eu comecei a acompanhar o carnaval mesmo, lembro daquela revistinha do extra que via no domingo de Carnaval e eu li umas 3 vezes seguidas no dia e já sabia de cor todos os enredos e sambas. Engraçado que nao foi ali que eu comecei a me apaixonar pela tijuca, até 2008 eu admirava todas as escolas mas não tinha nenhuma em especial
Em relação aos desfiles, pra mim esse samba é o melhor da beija no século XXI e apesar dos problemas não achei injusto o título pq estes só aconteceram por causa da chuva.
Tijuca incrível, surpreendente e eu queria muito já ser torcedor da escola só pra ter aquele baque de ficar na zona morta em um ano e no outro disputar o título.
Emocionante viradouro, Portela e Império, sou privilegiado por no primeiro ano que comecei a acompanhar carnaval ter 4 sambas históricos na avenida rs
Sendo ingênuo no meu comentário: se a Tijuca tivesse desfilado na segunda, em vez de ter sido a terceira de domingo, poderia ter ficado com o título? Nem coloco tanto o bi da Beija-Flor na cota das injustiças históricas porque houve grande equilíbrio este ano. Lembro da crônica pós resultado de O Globo lamentando que Aquarela Brasileira não voltaria nas Campeãs. A frase era algo assim: “eles só queriam cantar mais uma vez…”. Tendo condições ou não de voltar no sábado deixem-me apenas fazer uma rápida defesa da minha escola. O problema do Império não é só desunião. Algo que, sim, existe e atrapalha. Mas um 7,9 covarde atrapalha muito também. A “coragem” para canetar uns não é a mesma para outros.
Xará ilustre, como comentei acima, 7.9 na Serrinha foi um crime hediondo
Portela foi bem prejudicada no resultado também aquele ano
Foi uma vergonha essa nota, completamente desproporcional. Mas naquela época já se percebia que tinha algo indo muito mal na Império (aliás, desde 1991). E eu diria que isto atrapalha até hoje (vide os anos no acesso).
Se tivesse mais recursos, talvez tivesse estado no desfile das campeãs. Só como o que mostrou já foi um crime deixar a Império de fora.
A se destacar em 2004:
A atuação hilária do Quinho, que me parecia estar, digamos, num estágio meio… diferente. Ele emendando um SE JOGA, SE JOGA a cada “Lá Vem Salgueiro” no esquenta é uma das coisas mais engraçadas que já vi num desfile.
O samba da Beija-Flor original passou por algumas metamorfoses até chegar na versão que foi pra avenida.
Jamelão teria registrado sua voz para o CD diretamente do hospital onde estava internado em São Paulo.
Wander Pires gritando “Vamos vestir a camisinha, meu amor” gerou algumas desconfianças quanto à masculinidade do cantor…
Paulinho Mocidade completamente rouco e desafinado acabou coerente com aquele samba…
Se forem ouvir a arrancada da Portela, vão ouvir o Gera entrando todo errado no canto do samba, mandando um “Ô esquindô lalá” esquisitíssimo…
Admito que fui um dos que fiz troça com o refrão da Tijuca…
Ao contrário do Fred, achei meio bizarro aqueles cachorros coloridos quase rastejando na comissão de frente da Porto da Pedra.
Império Serrano vi o desfile inteiro com olhos marejados e Lourenço Poeira teve um desempenho muito agradável na condução da Tradição. Alcione teria gravado “Contos de Areia” num único take.
No desfile da São Clemente, houve um bafafá aqui no RS com a ala “Veadinhos de Pelotas”, mas a tal malfadada foi solenemente ignorada na transmissão da Globo.
Se duvidaram da masculinidade do Wander em 2004, imagina o que viria no ano seguinte…
Pra quem reclama de que os desfiles antigos eram melhores, a sequência Império, Beija-Flor (apesar dos pesares) e Viradouro foi um exemplo de que “chutadas de porta” ainda podiam existir em profusão nos anos 2000, isso que nem comentei a Tijuca no dia anterior…