Os dias pelos quais tanto esperamos chegaram. E passarão rapidamente. Que mensagens, símbolos, imagens, debates ficarão? Provavelmente serão comentadas alegorias, “inovações”, espetáculos, pirotecnias, shows à parte das comissões de frente.Provavelmente, não serão lembrados os sambas, baterias, casais de mestre-sala e porta-bandeira, passistas. Não entre a maioria.
Não me refiro ao grupo claramente minoritário de gente como nós, que vive o carnaval o ano inteiro. Mas à cobertura da maior parte da mídia e às rodas de conversa daqueles que se tornam especialistas em carnaval por três dias. Algo semelhante ao que acontece com os especialistas em esportes olímpicos que se espalharão pelas mesas de bar durante os 17 dias dos Jogos deste ano.
E o que há de mal nisso? Não sei. O maniqueísmo não é legal. A ideia de que apenas os escolhidos e entendidos podem falar, verdadeiramente, de carnaval e escolas de samba soa excludente. Mas é fato que a festa – ou quem a comanda – precisa parar, refletir, avaliar. Faz tempo que o resultado é determinado muito mais pelos quesitos plásticos que pelos quesitos de “chão’. Uma rápida análise das notas dos jurados nos leva a esta conclusão. Para uma Vila 2013 que leva o caneco no samba temos uma sequência muito maior de vitórias determinadas pelo investimento financeiro.
E este foi o caminho escolhido pelas escolas. Pelas que mandam na brincadeira. E as demais correm atrás, resignadas ao papel de coadjuvantes do Maior Espetáculo da Terra. Nas Bolsas de Apostas de Londres (se elas recolhessem apostas para o carnaval carioca) adivinhar as seis que estarão no Sábado das Campeãs pagaria, hoje, quanto? Um pra um? Vá lá, vez ou outra temos UMA surpresa. Quiçá duas. Não, duas eu tô exagerando. Talvez a deste ano seja a Mangueira, cercada de expectativa emocional. Mas quem sai para dar lugar à Velha e Querida Manga?
E ainda assim passaremos os próximos dias em debates acalorados e defesas apaixonadas de nossas teses. Xingaremos os jurados nesta doce tradição momesca de contestar os resultados. Juraremos, os derrotados, que vamos repensar a nossa ida ao Sambódromo no ano que vem (claro que voltaremos…).
Comemoraremos, os vencedores, defendendo a lisura da qual duvidávamos. É isso, gente. Carnaval é paixão inexplicável. Tento. Ou tentei. Desisti. Insisti. Amigos que não foram picados por este mosquito (tá bom, a metáfora é infeliz em tempos de dengue, zika e chico-sei-lá-o-que) questionam como gostar tanto de um concurso “de cartas marcadas”, de um desfile em que “todas são iguais”, de uma música que “não toca mais na rádio e da qual ninguém se lembra na semana que vem”?
A eles sugiro passar na semana anterior na rua Uruguaiana. Eu fui. E vi as barraquinhas dos camelôs vendendo camisetas das escolas de samba. Vendendo bem. Ouvi sambas de hoje e ontem tocando nas esquinas. As arquibancadas, frisas e camarotes estarão ocupadas. As primeiras páginas terão fotos das escolas. As ruas serão tomadas por foliões. Porque está no nosso DNA. O Carnaval é manifestação de primeira grandeza da cultura brasileira. Está vivo. Está aí. Precisa de carinho, de cuidado, de boa fé.
Mas não está morrendo. Temos uma safra muito boa de sambas. Temos criatividade para driblar essa crise (que crise?).
Eu espero, novamente, me emocionar. Com os sambas, baterias, casais, passistas. Mas também me surpreender com as comissões de frente, com as alegorias, com as inovações e espetáculos. Nessa luta do rochedo com o mar sei que o que vem de mim é pra rolar. Amor, raiou o dia. E é dia de carnaval. Estamos no meio de um processo de transformação. Não sei para onde vamos, estamos caminhando pelo tempo em busca de outros bambas. Mas ao desembarcarmos no Ziriguidum 2051 o carnaval resistirá. Assim espero. Ou então, de que adiantará ensinar samba enredo a uma criança de quatro anos?
“Papai, um beijo pra dar sorte pro nosso Império Serrano”. Ao ouvir esta frase tive a certeza de que o samba agoniza mas não morre mesmo.
Axé a todos os sambistas que desafiam os prognósticos mais sombrios. Nesse amor puro e verdadeiro está a resposta a todos os questionamentos acima. No dia em que a gente desistir de acreditar, o salão estará vazio, sem confete, sem serpentina, sem pierrô, sem colombina.
Um bom carnaval a todos. A gente se encontra por aqui. Debatendo nossa paixão.
Siiiiiiiimbora, Ouro de Tolo! Chegou a hora!
Imagens: Arquivo Ouro de Tolo