*por Rodrigo Mattar, jornalista esportivo, amante do Carnaval e residente em Niterói
Uma década depois de chegar a ser extinto pela prefeitura, na administração de João Sampaio, o carnaval de Niterói ressurge aos poucos das cinzas. A pujança de outrora é coisa do passado e o espetáculo não remete mais à velha e histórica rivalidade entre Unidos do Viradouro e Acadêmicos do Cubango (que inclusive voltaram a desfilar na cidade após muito tempo), mas a União das Escolas de Samba e Blocos de Niterói (UESBN), em parceria com a Neltur, a empresa de turismo do município, vem fazendo um esforço comovente no afã de revitalizar o evento.
O palco do desfile também não é mais o mesmo: a Av. Amaral Peixoto, no centro da Cidade, foi trocada pela Rua da Conceição, bem mais acanhada. Mas mesmo assim, um público estimado em quase 10 mil pessoas, atraídas pelo espetáculo gratuito oferecido pela prefeitura, esteve no Centro de Niterói para acompanhar três desfiles, de domingo passado até a última terça-feira: Grupo Especial de Enredo (Blocos), Grupo de Acesso e Grupo Especial.
O desfile das escolas de samba em Niterói já teve um dia seus momentos de glória. Tanto que chegou a ser o segundo melhor do país, perdendo apenas para o Rio de Janeiro. O primeiro carnaval foi realizado em 1946 e a Sabiá foi consagrada a primeira campeã da cidade. Fundada naquele mesmo ano, a Viradouro ganhou seu primeiro título no fim daquela década, mais precisamente em 1949. Por algum tempo, suas principais rivais foram a Corações Unidos e a Combinados do Amor, do bairro do Caramujo. Até surgir a verde e branco do morro do Cubango, que fora fundada em 1959 e conquistou seu primeiro campeonato em 1967, iniciando a partir daí o apogeu do carnaval na terra de Arariboia.
Nessa época, o desfile do grupo principal de Niterói não ficava em nada a dever ao do Rio de Janeiro, então capital da Guanabara. As arquibancadas em estruturas metálicas enchiam de gente, a passarela era ricamente decorada, discos com os sambas eram comercializados e os hinos das escolas estavam na ponta da língua dos desfilantes e dos foliões.
A Cubango tornou-se definitivamente a grande pedra no sapato da Viradouro, com um predomínio nunca antes experimentado pela rival vermelha e branca. Primeiro, sapecou um tetracampeonato entre 1967 e 1970 e depois foi penta entre 1975 e 1979 – feito jamais igualado por nenhuma outra escola da cidade.
O período do penta rende pelo menos uma história divertida envolvendo a Gleice, minha mulher, que é torcedora fervorosa da Cubango e morou por lá na infância. Em 1976, o enredo da escola era “Rosinha Minha Canoa”, baseado em livro de José Mauro de Vasconcelos. No Rio, o Império Serrano desfilava com “A Lenda das Sereias, Rainhas do Mar”. Como os temas, no entendimento da turma de Niterói, eram mais ou menos parecidos, tiveram a brilhante ideia de pegar a barca, atravessar a Baía de Guanabara e rumar, após o desfile da Cubango, para a Presidente Vargas e tentar dar um jeito de desfilar no Império.
A ala inteira, incluindo ela, seu ex-marido e um grupo de amigos, tentou a sorte. Mas um diretor do Império, vendo aquela turma ‘animada demais’ e vestida de pescador, olhou torto e barrou todo mundo. Menos mal que o Império ficou em 7º lugar no então Grupo 1-A do Rio e a Cubango levou o título.
Há que se dizer também que nesse período áureo do carnaval de Niterói, fomos premiados com grandes sambas-enredo. Cubango nos ofertou o sensacional “Afoxé”, composto por Heraldo Faria/João Belém, campeão do carnaval de 1979. Esse samba seria reeditado 30 anos mais tarde, no Grupo B, desta vez no Rio – e rendeu mais um título para a Cubango. Outra bela obra é “Fruto do Amor Proibido”, do ano de 1981. Só que daquela vez, só rendeu o vice, perdendo o título para a Viradouro.
A rivalidade entre as agremiações recrudesceu e já a partir de 1981 o desfile deixou a Amaral Peixoto, passando à Passarela do Samba no chamado “Praião”, um aterro que depois deu lugar ao Teatro Popular de Niterói e ao Caminho Niemeyer. Nessa época, Cubango e Viradouro começaram a cogitar a passagem para o carnaval carioca. A gota d’água foram os desfiles de 1984 e 1985, repletos de discussões e tumultos. Após ganharem 29 títulos – 18 da Viradouro e onze da Cubango – as duas atravessaram a Baía de Guanabara e fincaram pé no Rio de Janeiro.
A partir daí, o esvaziamento e o desinteresse pelo desfile de Niterói tornaram-se inevitáveis. Com as principais agremiações nos grupos de Acesso do Rio, Acadêmicos do Sossego e Camisolão, agremiação de São Gonçalo, aproveitaram para ganhar títulos até a prefeitura declarar extinto o desfile das escolas de samba a partir de 1996. Coincidentemente, no ano seguinte a Viradouro foi campeã no Rio e a Cubango, embora nunca tenha chegado ao Grupo Especial, fincou pé na Passarela do Samba, com bons enredos e excelentes sambas.
Com a volta dos desfiles em Niterói há dez anos, também ressurgiram agremiações tradicionais como a Sabiá, primeira campeã da cidade, além da Souza Soares e a Combinados do Amor, que em 2015 desfilou como bloco e regressou ao status de escola de samba este ano, no Grupo de Acesso. Desfilaram 10 agremiações nessa divisão: além da Combinados, Galo de Ouro, Experimenta da Ilha, União da Engenhoca, Mocidade Independente de Icaraí, Balanço do Fonseca, Bafo do Tigre, Tá Mole Mas é Meu, Independente do Boaçu e Unidos do Sacramento (que já esteve no Rio) – e nove no Grupo Especial: Folia do Viradouro, Souza Soares, Alegria da Zona Norte, Unidos da Região Oceânica, Magnólia Brasil, Sabiá, Cacique da São José, Império de Arariboia e Grupo dos XV. Neste ano, por conta da crise, todas as escolas tiveram que se virar com menos dinheiro que de costume. A prefeitura destinou uma subvenção 40% menor desta vez, não só para as escolas locais como também para Viradouro, Cubango e Sossego.
Já que minha mulher conseguiu uma fantasia para desfilar na Alegria da Zona Norte, do bairro do Fonseca, lá fui eu ver o desfile da última terça. A escola homenageava ninguém menos que Alexandre Louzada. Por um simples motivo: o carnavalesco da Mocidade – que também trabalhou na Mangueira, Portela, Beija-Flor e Grande Rio – começou sua carreira como carnavalesco em Niterói, pela extinta agremiação Branco No Samba. Inclusive, a ala da Gleice homenageava a existência e a passagem do Louzada no Branco do Samba, fundado pelo pai de um grande amigo da minha mulher.
Não esperava nada suntuoso como o que se vê na Marquês de Sapucaí. Mas o nível não estava tão sofrível quanto nos piores grupos da Intendente Magalhães. A Alegria da Zona Norte é uma escola nova e pequena, que desfilou, no máximo, com 700 componentes e três alegorias. Apesar da bateria com poucas peças, o samba era muito agradável e a homenagem a Louzada foi bastante aplaudida pelo público que lotou a Rua da Conceição.
Se a Unidos do Viradouro, a despeito do maravilhoso samba-enredo apresentado na Sapucaí sobre o Alabê de Jerusalém, não conseguiu o título, a outra escola do morro vizinho ao bairro de Santa Rosa levou o título do Grupo Especial de Niterói. A Folia do Viradouro foi a melhor do desfile e levou o bicampeonato, com o enredo “De Norte a Sul, a Folia desvenda os sabores do Brasil”, sobre a culinária típica das regiões do país. Foi o terceiro título da escola nos últimos cinco desfiles da cidade.
No Grupo de Acesso, com uma homenagem à guerreira Clara Nunes, a Combinados do Amor volta após muito tempo ausente ao Grupo Especial, justamente no ano em que comemora seu 80º aniversário. A Garra de Ouro ganhou o Grupo Especial de Enredo e em 2017 ascende ao status de escola de samba.
Parabéns pelo texto Rodrigo, quanto ao local de desfiles: Jorge Roberto na sua última gestão prometeu voltar os desfiles para a Amaral e nada! Rodrigo também prometeu e nada também
Promessa de político definitivamente é um negócio que raramente se cumpre. E obrigado pela leitura.
Rodrigo, meu nome é Sérgio Soares, sou diretor de Comunicação da União das Escolas de Samba e Blocos Carnavalescos de Niterói (Uesbcn) e um grande entusiasta do samba e do Carnaval em Niterói. Parabéns pelo texto, que contém informações valiosas sobre o início e período áureo dos desfiles em Niterói!!
Obrigado Sérgio, pelo retorno. O carnaval de Niterói deve e precisa ser melhor divulgado. No que puder contar comigo, estamos aqui.
Bom ver o carnaval de Niterói sendo divulgado. Não importa a quantidade de gente que visualizou. Que seja um único… que certamente passará a informação pra frente.
Na torcida para que o público possa crescer ainda mais nos próximos anos.