Quando lancei ao Migão a ideia da série TOP 10, a ideia era que torcedores das principais escolas do Rio de Janeiro elegessem seus sambas preferidos. Mas a intenção não era simplesmente levar ao leitor uma análise meramente técnica, mas sim emocional, com obras que não necessariamente fossem as melhores, mas as que mais lembranças agradáveis tivessem dado aos autores.

Pra fazer o corte, pegamos as 12 escolas do Grupo Especial de 2016, mais o glorioso Império Serrano e a Unidos do Viradouro, campeã na elite num passado recente. Juntamos então os colunistas do Ouro de Tolo pra que fizessem os textos sobre as escolas do coração. Como faltaram algumas, recorremos a amigos e convidados, que nos auxiliaram de forma fantástica para que fechássemos o grupo das 14 escolas.

Mas e como ficariam as outras agremiações? Sambas maravilhosos ficariam fora dessa série? Pois bem, pra encerrar a TOP 10, vou fazer a minha lista pessoal de dez grandes sambas de escolas como Tradição, Em Cima da Hora, Unidos de Lucas, entre outras. Como sou torcedor da Mangueira, levei em conta a qualidade dos sambas e também o que cada um representou.

É claro que vão ficar grandes sambas fora da lista, mas espero que curtam. Por fim, agradeço em nome de todos os autores da série pela audiência e comentários!

10 – Moça bonita não paga (Caprichosos de Pilares, 1982)

Até então desconhecida do grande público, a simpática escola de Pilares levou ao público o universo das feiras livres com um samba irreverente e muito gostoso. Liderada pelo carnavalesco Luis Fernando Reis, a Caprichosos surpreendeu o público com um desfile maravilhoso que a levou ao primeiro grupo, e este sambão teve grande parcela nisso. Seria o começo de uma bela fase da Caprichosos, com enredos críticos e populares – pena que hoje a escola esteja em decadência, indo para a terceira divisão.

9 – A visita de Ony de Ifé ao Obá de Oyó (Unidos do Cabuçu, 1983)

Pensem em definição de samba afro. Então, amigos, este é um autêntico samba afro, que a Cabuçu nos presenteou em 1983. Poucas vezes ouvi um samba desta temática tão feliz no que tange ao casamento da melodia com a letra. Alguém pode alegar que hoje seria difícil ele funcionar para o canto do desfilante, pelo grande número de citações, etc. Pode até ser, mas admiro incondicionalmente a força desse samba e sua melodia cheia de nuances, por isso está no meu TOP 10.

8 – 33, Destino D.Pedro II (Em Cima da Hora, 1984)

Depois de uma passagem marcante na elite do Carnaval até os anos 70, a escola de Cavalcante vinha ali na segunda divisão sem chamar tanto a atenção. Mas aí veio o ano de inauguração do sambódromo e a Em Cima da Hora chegou pra desfilar com um enredo popular sobre as agruras do povo que saía todo dia no trem para viver sua rotina. Em tempos de Diretas Já, a escola criticou em seu refrão: “Não é mole não / Com a inflação /
Almejar a regalia / E o progresso da nação”.

7 – Sonhos de Natal (Tradição, 1987)

Em ascensão fulminante, a escola dissidente da Portela resolveu homenagear Natal, um dos maiores expoentes da Majestade do Samba, não à toa pai do presidente Nésio Nascimento. A escola aproveitou um samba de meio de ano de João Nogueira e Paulo César Pinheiro, aí saiu essa pedrada… A Tradição conquistou o acesso ao primeiro grupo, numa época em que ainda preservava os valores apresentados quando da sua fundação.

6 – Lua Viajante (Unidos de Lucas, 1982)

Num grande ano de sambas no segundo grupo em 1982, o Galo de Ouro da Leopoldina fez uma linda homenagem a Luiz Gonzaga, o Rei do Baião. Com uma letra maravilhosa e melodia qualificada, essa obra ainda teve a participação do próprio Gonzagão na gravação do disco, o que deu ainda mais vida a este fantástico samba.

5 – E eles verão a Deus (Unidos da Ponte, 1983)

A Unidos da Ponte subira ao primeiro grupo com um belo samba para o enredo “O Casamento da Dona Baratinha” (diga-se, outra bela obra da grande safra do segundo grupo de 1982), e em 1983 nos brindou com essa pedrada. O samba homenageava grandes artistas brasileiros como Aleijadinho, Djanira, Portinari e Di Cavalcanti e o fez de forma tão sutil e emocionante que nem precisou citá-los nominalmente. A ótima interpretação de Grillo realçou ainda mais esse sambaço.

4 – Seca no Nordeste (Tupy de Brás de Pina, 1961)

Um dos primeiros sambas-enredo conhecidos do grande público mostrava a triste vida dos nordestinos afetados pela seca. A dramaticidade do tema ficou evidenciada tanto na letra como na melodia, sobretudo no verso “Nos livrai dessa desgraça”. Uma das maiores interpretações de um cantor a um samba foi a que Jamelão deu a Seca no Nordeste num de seus discos. Em tempos em que os enredos faziam exaltações a governos e a acontecimentos da pátria, diria que foi o primeiro samba tocou numa ferida tão grave da nossa sociedade.

3 – O melhor da raça, o melhor do Carnaval (Tradição, 1988)

A Tradição não poderia ter feito melhor estreia no primeiro grupo. Apresentando mais um relevante enredo, a escola falou da mistura de raças do povo brasileiro e ainda a culminância dessa miscigenação no Carnaval. Com uma melodia pra cima, mas ao mesmo tempo dolente, e letra impecável João Nogueira e Paulo César Pinheiro outra vez encantaram os amantes do Carnaval. E pra isso, nem precisaram de refrão. Para quê, né?

2 – Sublime Pergaminho (Unidos de Lucas, 1968)

A cultura afro-brasileira sempre passou a ser efetivamente adotada no Carnaval graças ao Salgueiro, mas a meu ver quem melhor retratou o período da escravidão e a abolição foi o Galo de Ouro da Leopoldina com esse samba antológico. O que dizer dos versos “Uma voz na varanda do paço ecoou: / “Meu Deus, meu Deus / Está extinta a escravidão”? Sem mais.

1 – Os Sertões (Em Cima da Hora, 1976)

Considerado por muitos o maior samba-enredo de todos os tempos. Edeor de Paula entrou para a eternidade ao construir essa obra-prima, que por pouco não foi escolhida nas eliminatórias, mas esse é outro papo… O que importa é que o enredo sobre o romance de Euclides da Cunha não poderia ser melhor retratado. Letra impecável e melodia que passaram o tom dramático do que aconteceu por aquelas bandas no século XIX. Em 1976, infelizmente a escola foi acometida por problemas e caiu. Mas em 2014 a Em Cima da Hora reeditou esse samba, fundamental para a escola se salvar do rebaixamento. E olha que dois jurados inexplicavelmente canetaram a antológica obra de Edeor de Paula…

11 Replies to “TOP 10: Outras escolas (por Fred Sabino)”

  1. Parabéns Fred, ótima lista! Foi muito legal poder relembrar grandes obras do Carnaval carioca!

    Deixo uma sugestão: Que tal um top 10 ainda esse ano com grandes sambas que não venceram nas eliminatórias? Pode até ser um top 20, top 30… Pessoalmente, já adianto que incluiria pelo menos uns dez só do Eduardo Medrado…

    E para o próximo Carnaval, que tal um com as escolas de São Paulo?

    Novamente, parabéns pela ideia!

          1. Com certeza!! Dá pra pegar de 2000 a 2007 sem tirar nada!! =D

            Mas não é a única! Os anos 2000 foram propícios em sambas que só trouxeram o sono como “sentimento”!

  2. Lista excepcional, Fred!!

    Se essa lista fosse minha, apenas trocaria Lucas 1982 e Tradição 1987 por Engenho da Rainha 1981 e Ponte 1987.

    Mas essa lista vai longe e, se me permite, vou por mais alguns aqui: Império da Tijuca 1971, 1977 e 1981; União de Jacarepaguá 1978 e 2004; Engenho da Rainha 1986; Lucas 1987; Lins Imperial 1986 e 1987; Campinho 1992; Rocinha 1992; Tuiuti 1983, 2001 e 2002.

    A tua lista está excepcional. E o fato de termos mais sambas inesquecíveis também em outras escolas só mostra a qualidade do gênero em sua história!!!

  3. Inadmissível de minha parte!!!

    Na lista que fiz acima, esqueci do samba com, na minha opinião e no “pacote” geral, a melodia mais linda de todas: Santa Cruz 1974!!!

Comments are closed.