*Denise Silva é advogada e torcedora da São Clemente

Eu sempre fui uma foliã. Desde muito pequena, minha mãe cantava sambas-enredos para eu dormir. Ela fazia as minhas fantasias para brincar o carnaval. A minha paixão pela São Clemente vem do tempo que morei na Rua Marquês de Olinda, em frente à antiga Casa do Dr. Eiras e próximo da Rua Assunção, onde ficava, digamos assim, a sede da escola. Acompanhava a escola, que sempre fazia muitos ensaios na pracinha do Metrô de Botafogo, mas o meu primeiro contato visual deu-se no carnaval de 1985, ocasião em que a escola retornava à elite do carnaval, hoje Grupo Especial, após longos anos.

De lá para cá, são muitos anos. A despeito de minha escola não ter sambas considerados antológicos pela grande mídia, fica bem difícil escolher apenas dez para ilustrar essa matéria. Meu presidente ainda está devendo um CD com todos os sambas da escola, projeto que estava em pauta no início dos anos 2000, mas que ainda não ganhou corpo. Mas, minha memória afetiva, registra os seguintes:

10 – Se a canoa não virar, a São Clemente chega lá (1996)

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Esse samba foi levado no Grupo de Acesso, não levou a escola à elite, mas eu gosto muito dele. Depois de ser rebaixada do Grupo Especial, injustamente, em 1991, a escola levou um tempo no acesso (é verdade que subiu no polêmico desfile de 1994). Cansada de nadar, nadar e morrer na praia, o samba, de Henrique Damião, Maurílio Faria e Flávio Oliveira, fala das embarcações, de monstros, tesouros, aventureiros a grandes desafios e batalhas, como o enfrentado pela escola naquela década, que iniciava a sua fase io-iô. O samba termina com uma folia marítima, muito interessante.

9 – Uma Aventura Musical na Sapucaí (2012)

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Esse samba marca a confirmação da escola no Grupo Especial, depois da fase ioiô. O DNA irreverente da São Clemente marcou presença, após alguns anos esquecidos.  O samba, de Flavinho Segal, FM, Grey, Guguinha, Marcos Antunes, Ricardo Góes, Serginho Machado e Vânia, abordou os grandes musicais que conquistaram o público do mundo inteiro. O refrão “Tem bububu no bobobó” foi muito bem recebido e empolgou o público.

8 – Não Corra, Não Mate, Não Morra, o Diabo Está Solto no Asfalto (1984)

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Esse samba marca a ascensão da escola ao Grupo de Elite (já tinha desfilado no grupo em 1967), sobre o caos e a violência no trânsito. Ele é um divisor de águas na história da escola, pois foi com esse samba que a escola passou a ser conhecida por apresentar enredos de cunho social e críticos. O ano de 1984 também é um ano importante para todas as escolas de samba, pois marca a estreia do Sambódromo, que mudou a concepção do desfile. O samba, de Rodrigo e Geraldão, trata da história do fictício Zeca Passista, um operário que quase morreu atropelado, que passa a delirar com guarda de trânsito, placas, sinais luminosos, vítimas e motorista de ônibus. Enfim, o sinal ficou verde para a escola e ela deu início à sua fase áurea na Sapucaí.

7 – A incrível história do homem que só tinha medo da Matinta Pereira, da Tocandira e da Onça Pé de Boi (2015)

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A atual fase da escola, sob o comando da carnavalesca Rosa Magalhães, rendeu um bom samba para um dos melhores desfiles da escola no Grupo Especial. O samba, de Leozinho Nunes, W.Machado, Hugo Bruno, Diego Estrela, Ronni Costa e Victor Alves, em homenagem ao carnavalesco Fernando Pamplona, responsável pela reformulação do carnaval carioca, rendeu muito bem na avenida.

6 – Muita Saúva, Pouca Saúde, os Males do Brasil São (1986)

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De volta ao segundo grupo, a São Clemente insistiu na fórmula de enredos de cunho social e apresentou o samba sobre o descaso com a saúde no Brasil, em alusão à frase dita por Macunaíma, no livro de Mário de Andrade. O samba, de Helinho 107, Mais Velho e Nino, aborda a medicina indígena, a malária, gripe, tuberculose, a Aids, a fila do até então INPS. Muito bem construído, deu tão certo, que a escola voltou ao Primeiro Grupo no ano seguinte.

5 – Mangaratiba – Uma História de Lutas para Todos que Amam a Terra e a Liberdade (2003)

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Esse samba, de Diego Mendes, Alexandre Araújo e Rodrigo Telles, marca o segundo campeonato da escola, após muitos anos, daí sua importância, além de ser muito belo também. O samba exaltava a cidade de Mangaratiba, abordando os índios antropofágicos, pedras preciosas, tráfico negreiro, sacas de café e a miscigenação do povo.

4 – São Clemente Mostrou, mas Nada Mudou neste Brasil Gigante (2001)

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Novo milênio, a São Clemente revisava mais uma vez seu estilo crítico. O samba, de Paulo Renato, Eugênio Leal, Fábio Chrispim e Rodrigo Índio faz uma retrospectiva dos carnavais antigos e críticos. O samba deu muito certo na avenida e levou a escola de volta à elite do carnaval.

3 – Quem Casa, Quer Casa (1985)

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A volta ao primeiro grupo, em 1985, foi uma sátira ao sério problema do déficit habitacional no Brasil. A São Clemente compensou os poucos recursos com um superávit de imaginação. O samba, Rodrigo, Izaías de Paula e Helinho 107, abordava o problema da moradia do brasileiro, desde a barriga da mãe até o cemitério, a última morada. A escola arrebatou o estandarte de ouro de comissão de frente. Os componentes trajavam de um lado a metade de um terno preto e do outro, meio vestido de noiva, como se estivessem divididos na vertical por um traço invisível, causando um impacto inovador. O desfile, porém, não a manteve entre as grandes escolas. Após o desfile, por ironia do destino, a escola foi ainda despejada de sua quadra, na esquina da Rua São Clemente com a Muniz Barreto, próxima ao Metrô de Botafogo.

2 – E o Samba Sambou… (1990)

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O samba antológico, de Helinho 107, Mais Velho, Nino e Chocolate, é responsável pela melhor colocação da São Clemente no Grupo Especial (6º lugar), mas que não a levou ao sábado das campeãs, pois naquela época apenas as cinco primeiras escolas tinham tal privilégio. O samba retrata uma crítica ao carnaval da Sapucaí, onde cartolas manejam sambistas, há comercialização no samba pelos “rambositores”, o desfile fica excessivamente cronometrado, os destaques vaidosos, excesso de artistas, ou seja, aquilo que iniciado na década de 1990, hoje chegou ao ápice. Tanto é que, recentemente, em 2010, a escola propôs um novo choque de ordem na folia, o que a levou a reescrever sua história nos desfiles.

1 – Capitães de Asfalto (1987)

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Para mim, esse é o melhor samba da São Clemente de todos os tempos. Ele retrata a realidade do menor abandonado brasileiro, que não mudou muito nos dias de hoje (até piorou). Em tom menor, composto por Manuelzinho Poeta, Jorge Madeira e Isaías de Paula, o samba versa sobre os menores abandonados, nas ruas, sem rumo, dormindo em praças ou internos do SAM, vendendo picolés e balas, engraxando sapatos, catavam comida no lixo, para garantir o pão, em meio a um cenário de jogos de azar, prostituição, drogas e criminalidade. O samba também fala dos filhos dos pais ricos, abandonados no seu mundo de luxo, esquecidos por pais ricos, guardados por babás e cercados de brinquedos eletrônicos, TV em cores, equipamentos de som e outros consumimos da burguesia. Emocionante. O samba foi precursor do Estatuto da Criança e do Adolescente, pois no final do desfile a escola clamava para os constituintes para não esquecerem de nossos menores.

2 Replies to “TOP 10: São Clemente (por Denise Silva*)”

  1. Levando-se em consideração que em 2003 não era pra ter subido de jeito nenhum, a lista está muito boa; parabéns!!!

    Me surpreendeu você ter colocado 1987 em primeiro. Poucos pensam assim!!

  2. Bem legal mesmo, Denise. Impressionante como “E o Samba sambou” continua tão atual. E pode me chamar de louco, mas tenho um grande carinho com os sambas de 2002 (“Guapimirim – Paraíso Ecológico abençoado pelo Dedo de Deus”), 2006 (“De Gonzagão a Gonzaguinha – Em Vida de Viajante…”) e 2009 (“O Beijo Moleque da São Clemente”), esse mais por causa de uma gravação excelente do Leonardo Bessa…

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