O leitor mais atento do Ouro de Tolo deve estar se perguntando porque eu, portelense, integrante da diretoria e que escreveu o artigo dedicado à Portela nesta nesta série está escrevendo também sobre a Unidos da Tijuca. Explico.

Minha avó Germana, torcedora da escola e que inclusive viveu os primeiros anos da Tijuca, se viva fosse estaria completando 90 anos justamente hoje, sexta feira de carnaval, 5 de fevereiro. Então este texto é uma homenagem a ela e à sua “Unidos”, como se referia carinhosamente à agremiação.

Vó, aí no céu bota o toca discos para tocar e vem comigo!

10 – Cama, Mesa e Banho de Gato (1986)

O samba é trash? É. Mas está aqui pela ousadia de tratar de um assunto como a liberação sexual em pleno 1986, com o Brasil recém dando seus primeiros passos no processo de redemocratização. É uma composição ousada ainda hoje, 30 anos depois.

Ou o leitor acha que versos como o do refrão “tem piranha no almoço / tem vi(r)ado no jantar / pra quem tem fome qualquer prato é caviar”, entre outros, seriam totalmente aceitos em tempos como os que vivemos hoje de avanço do conservadorismo neopentecostal religioso?

O vídeo está no alto do artigo.

9 – Os Nove Bravos do Guarani (1995)

Este faz parte da lista por talvez ser um dos primeiros sambas em primeira pessoa na história do Grupo Especial, retomando Portela 1990. Como uma vez explicou o autor (dos dois sambas) Juan Espanhol a este Ouro de Tolo, o componente fica mais animado quando se insere na história.

Destaque para a ótima atuação do intérprete Paulinho Mocidade.

8 – O Dono da Terra (1999)

É um grande samba? É, apesar da cabeça “hoje a Tijuca canta / sacode e balança”. Mas acho bastante superestimado, como inclusive disse em uma de minhas participações no programa Bar Apoteose.

Talvez seja bastante incensado por ser mais recente que a fase áurea da escola e, portanto, mais conhecido.

7 – Salamaleikum, a Epopeia dos Insubmissos Malês

A história dos negros muçulmanos que lutaram por liberdade e justiça social tem um samba que consegue traduzir de forma brilhante uma história bastante densa. Pena que o desfile não tenha obtido o mesmo sucesso.

1984 fecha uma sequência de cinco anos onde a Tijuca viveu sua melhor fase da história em termos de samba enredo. Todos derivados de ideias densas e extremamente relevantes culturalmente. Este enredo não é de Renato Lage, como também não o é o de 1983, mas mantém a linha deixada pelo carnavalesco.

6 – Lima Barreto, Mulato Pobre, Mas Livre (1982)

Terceiro e último enredo de uma série desenvolvida pelo então novato Renato Lage para a Tijuca, a triste história de um dos maiores escritores brasileiros – e um dos meus preferidos – gerou um samba também triste, mas que era cantado durante o desfile com a maior alegria pelos componentes… Coisas que só o carnaval proporciona.

O samba toca em plena ditadura em uma questão delicada até hoje, que é a do racismo.

5 – Delmiro Gouveia (1980)

Estreia de Renato Lage como carnavalesco, contando a trágica história de um dos pioneiros do empreendedorismo brasileiro, e tragicamente assassinado por levar a cabo suas ideias. Levou a Tijuca ao título do então Grupo IB – hoje Acesso A. Este desfile quebraria um jejum de 21 anos sem a Tijuca desfilar no grupo principal.

Um samba bem descritivo, tradicional, onde a melodia acompanha as nuances do personagem até sua morte. Uma aula de história (muito pouco conhecida até hoje, a propósito) em letra e melodia.

4 – Magia Africana no Brasil e Seus Mistérios (1975)

Samba muito pouco conhecido até mesmo por muita gente do meio, tem como tema a magia e a religião dos africanos e seus descendentes na Bahia. Samba enredo à moda antiga.

3 – Devagar com o Andor, que o Santo é de Barro (1983)

Talvez seja o samba mais conhecido pelo grande público das composições desta fase da Tijuca, até pela citação a uma conhecida cantiga infantil em seu refrão.

O enredo sobre a arte em barro inclui uma dose de inconformismo e crítica social na composição, uma marca destes tempos pré redemocratização. Os enredos criados por Renato Lage e acompanhados pelos seus sucessores em 1983 e 84 tinham essa pegada de explorar os limites críticos permitidos pela ditadura em seus estertores, e esta pegada crítica mas alegórica foi bem retratada nos sambas.

2 – Macobeba, O Que Dá Pra Rir, Dá Pra Chorar (1981)

Voltando ao Grupo 1A, hoje Especial, Renato Lage usa o livro “Manuscrito Holandês”, de Manoel Cavalcanti Proença, para fazer uma crítica alegórica ao regime militar e à falta de realidade. Macobeba é o povo, Mitavaí é o regime militar, e o refrão com um trocadilho perfeito para se encaixar um palavrão é sintomático.

Um grito de liberdade, em resumo. Este enredo marca a volta da Tijuca ao hoje denominado Grupo Especial após um longo hiato.

1 – No Mundo Encantado dos Deuses Afro Brasileiros (1976)

Na minha opinião e de muita gente boa, o maior samba de enredo da história da escola. Eu pessoalmente sinto muita falta no Grupo Especial de enredos afro calcados nos Orixás, que sempre resultam em excelentes sambas.

Há muita pouca informação sobre este desfile disponível, nem imagens, mas segundo a Wikipedia um dos carnavalescos foi Julio Matos, campeão pela Mangueira na década de 80. Este samba foi um dos cantados no evento que o jornal Extra promoveu em 2012 recriando os desfiles históricos, mostra de seu valor até hoje dentro da agremiação.

Também chegou a se falar em reedição dele em 2015, com rumores fortes, mas não foi à frente. Uma pena.

Enfim, esses são os 10 sambas que tocam para minha avó no céu. Não coloquei “É Segredo” porque na minha visão aquele título veio calcado no visual – coube ao samba não atrapalhar, e isso ele fez bem, até funcionando bastante apesar de ser um samba apenas de fraco para mediano.

Concordam, discordam? Usem a área de comentários. E viva Dona Germana!

7 Replies to “TOP 10: Unidos da Tijuca (por Pedro Migão)”

  1. Excelente lista. Eu acho o de 1983 o melhor da Tijuca. Mas no lugar de 1995 eu poria 2003 sem pensar!!

    De qualquer forma, sua avó está feliz demais com a lista!!! “Canta, Borel”!!! =D

  2. Gostaria de ver reeditado o carnaval/samba de 1986. Cama, mesa e banho de gato. Como o povo gosta de uma “sacanagem”, acho que esse samba iria arrebentar no pré-carnaval. E como carnavalesco o Paulo Barros ou o Milton Cunha… rs

    1. Eu também gostaria de ver este samba reeditado, mas dada a sanha conservadora pela qual vive a sociedade brasileira, infelizmente acho impensável.

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