Tivemos mais uma noite de prévias no último dia 15, com 5 grandes estados distribuindo seus delegados em ambos os partidos. Foram eles: Florida, Ohio, Illinois, Missouri e North Carolina.

Mais de 10% dos delegados de ambos os partidos estavam em disputa e os resultados foram bastante esclarecedores. Vamos à análise de cada partido.

Partido Democrata

Indubitavelmente este foi o grande dia de Hillary desde o início das prévias. Ela triturou Sanders ganhando 4 dos 5 estados, sendo que em Missouri não há vencedor declarado – pois o placar está 49,6% x 49,4% para Clinton mas ainda faltam contar os votos por correio (o que só deve ocorrer semana que vem).

Além da vitória na Flórida, o estado com mais delegados da noite, por enormes 64% x 33%, e em North Carolina, onde a esperada vitória tranquila foi confirmada por 54% x 41%, Hillary ainda ganhou Ohio e Illinois, estados nos quais se esperava uma vitória de Sanders; sendo que no primeiro a diferença ainda foi de consideráveis 14%: 56,5% x 42,5%.

Essa foi a primeira vez que Hillary “surpreendeu” e terminou com a premissa do alinhamento dos estados nortistas a Sanders, com o qual a campanha de Sanders estava contando para recuperar o vasto terreno perdido nas sucessivas pancadas recebidas nos estados sulistas que fizeram suas prévias primeiro neste ano.

150413_hillary_clinton_getty_650x353Só ontem, Clinton colocou mais de 100 delegados “comprometidos” de vantagem para Sanders, que somando com os mais de 200 que ela já tinha, a deixa com 322 “comprometidos” a mais que o Senador de Vermont.

Essa vantagem de 322, especialmente no Partido Democrata e sua exigência de distribuição proporcional, é quase impossível de ser retirada no atual estágio da competição e deixa Hillary muito próxima da nomeação. Junte-se a isso ao apoio maciço dos “não-comprometidos” (ou Superdelegados), nos quais Clinton tem 472 contra apenas 23 de Sanders, e a obtenção dos 2.383 delegados necessários se torna apenas uma questão de contagem regressiva.

Ou seja, salvo algum fato político completamente anormal (um escândalo no conteúdo dos e-mails pessoais usados na época em que ela era Secretária de Estado, por exemplo), já podemos declarar extraoficialmente que Hillary Clinton será a candidata do Partido Democrata na eleição geral para Presidente em novembro, ainda mais que com apenas dois candidatos não há qualquer risco de haver uma convenção quebrada.

Sanders não deverá suspender sua campanha tão cedo, já que ele e seu grupo político já deram mostras que, mais do que resultados eleitorais, eles querem difundir sua mensagem social-democrata pelos Estados Unidos. Logo, é provável que ele mantenha a campanha até as últimas prévias, só suspendendo a campanha quando Clinton obtiver os 2.383 delegados “comprometidos” que “garantam” a derrota, mesmo que ela já seja iminente.

bernie-sanders_ap-photo5Talvez nem seja bom para o próprio partido que Sanders desista da campanha; afinal isso tiraria tempo de mídia espontâneo para Clinton e passaria todas as atenções para a confusão do Partido Republicano e, especialmente, para o midiático Donald Trump.

Por causa de todo panorama descrito, esperem cada vez textos menores sobre os resultados do Partido Democrata, pois não haverá muito o que analisar daqui por diante. Também a partir de hoje, incluirei na contagem de delegados de cada candidato a estimativa da CNN para os Superdelegados, pois já está claro que Sanders não deverá ultrapassar Clinton em delegados “comprometidos” para forçar uma grande mudança nas preferências dos Superdelegados.

Obs: como a contagem de votos no Missouri ainda não acabou e como em Illinois ainda falta alguns dados a serem divulgados, ainda há uma quantidade de delegados a ser distribuída para ambos os candidatos. Mas como os dois estados tem resultados apertados, 50,5% x 48,5% em Illinois e Missouri já explicado acima, essa distribuição deverá ficar bem próxima da igualdade entre os dois candidatos.

Contagem parcial de delegados* (estimativa):

  • Clinton – 1593 (1121 “comprometidos” e 472 Superdelegados)
  • Sanders – 822 (799 “comprometidos” e 23 Superdelegados)

Número mágico: 2382,5

* Fonte: blog The Green Papers para os “comprometidos” e CNN para os “não-comprometidos”;

Partido Republicano

Trump teve mais uma noite muito boa, com três vitórias nos cinco estados do dia, firmando cada vez mais seu nome como o grande líder das prévias republicanas.

A vitória mais importante, sem qualquer sombra de dúvida, foi na Florida. Lá ele inflingiu uma derrota duríssima para Marco Rubio na casa do último, por impressionantes 45% a 27%. Cruz ficou em 3º com 17% e Kasich em 4º com 7%. A vitória foi tão acachapante que, a exceção do condado de Miami-dade, o maior e mais latino do estado, Trump ganhou em todos os outros condados do estado e como o estado tem a regra “vencedor leva tudo”, Trump levou todos os 99 delegados do estado.

20150309_185747Com uma derrota, especialmente dessa magnitude, no estado onde você é o atual senador, não restou outra possibilidade para Rubio e o mesmo anunciou o fim da sua candidatura assim que saiu oficialmente o resultado da derrota na Flórida (como as urnas fecham cedo no estado, foi o primeiro resultado da noite a sair).

Trump também ganhou em North Carolina, com 40% dos votos e, de forma que seria surpreendente até o mês passado, ganhou em Illinois com 38% dos votos. Em 2º lugar ficou Cruz com 30%.

Especialmente o resultado de Illinois mostra o quão estranha está sendo essa disputa republicana. Illinois é um estado eminentemente urbano, altamente letrado e progressista. Mesmo os conservadores alinhados ao partido republicano tem tradição de moderados. Ou seja, era um estado para que os candidatos mais “clássicos” do estabilishment ganhassem terreno.

Porém o que se viu foi o exato oposto. Trump e toda sua retórica isolacionista e imperialista venceu, seguido de perto apenas pelo candidato ultraconservador e evangélico, Ted Cruz. E os políticos menos extremistas? Kasich teve 20% e Rubio apenas 8%. Alias, esse era um estado com o qual Kasich estava contando com pelo menos um 2º lugar.

Em Missouri, assim como na disputa democrata, houve um empate técnico. Trump está com 40,9% contra 40,7% de Cruz, também faltando contar os votos pelos correios.

Porém a noite não foi exatamente uma vitória gigante por causa de um fato: se Trump varreu Rubio em seu próprio estado, John Kasich fez sua lição de casa e ganhou o estado que governa, Ohio – com 47%, contra apenas 36% de Trump em 2º lugar.

Com isso, além de perder todos os importantes 66 delegados do estado para Kasich, Trump não conseguiu fazer com que Kasich desista da disputa – e continuará a receber o desafio dele em estados importantes.

Kasich em seu discurso na terça disse que se concentrará agora nas primárias de New York, Pensilvânia e Califórnia em sua campanha. Especialmente, os dois últimos são estados “vencedor leva tudo” (ambos por distrito) e se Kasich realmente conseguir fazer frente, complicará bastante a matemática de Trump.

WASHINGTON, DC - JULY 23: Donald Trump listens at the Trump International Hotel Washington, D.C Groundbreaking Ceremony at Old Post Office on July 23, 2014 in Washington, DC. (Photo by Paul Morigi/WireImage)
WASHINGTON, DC – JULY 23: Donald Trump listens at the Trump International Hotel Washington, D.C Groundbreaking Ceremony at Old Post Office on July 23, 2014 in Washington, DC. (Photo by Paul Morigi/WireImage)

Mas que matemática é essa? É a matemática para que Trump consiga os 1237 delegados necessários e evite a convenção quebrada. Trump hoje tem 693 delegados. Ou seja, ele precisa angariar 544 dos 1003 ainda a serem distribuídos, ou 54%. Não é um número fácil, especialmente em uma disputa que tem ainda três candidatos fortes.

Trump conta com bons resultados em estados pesados como New York, Pennsylvania e California, que com suas regras, alocam grande parte dos delegados ao candidato com mais votos, mesmo que este fique abaixo dos 50%, para chegar a esse número mágico, como eu acredito hoje que ele consiga.

Porém, especialmente se Kasich ganhar Pennsylvania ou Califórnia, dificilmente Trump conseguirá tais números, já que Cruz também é favorito para ganhar algumas prévias em estados bastante conservadores como Utah, Arizona e Montana.

Em “off” alguns assessores de Kasich já falam abertamente que a estratégia do candidato é ganhar todos os delegados da Pennsylvania, mais alguns na Califórnia e em New York para ter um número competitivo e após a primeira votação quebrada, eles esperam conseguir o apoio dos delegados de Rubio e assim conseguir um número razoável o suficiente para ele ser escolhido candidato em uma convenção quebrada.

Obs: com a semana sem prévias republicanas após a Páscoa, a Made in USA especial explicando o funcionamento de uma convenção quebrada deverá sair na última semana de março.

Ou seja, pode ser que, mesmo dominando as eleições de modo geral, Trump não consiga fechar a quantidade necessária de delegados e os Estados Unidos vejam a 1ª convenção quebrada de sua história desde 1952.

Hoje é claro que, pela regra atual, o partido tem apenas duas opções: ou todos se unem a Trump ou partem para a confusão e estupefacto geral que uma convenção quebrada pode gerar.

Kasich não tem mais chances matemáticas de conseguir os 1237 nem se obter a totalidade dos delegados ainda disponível e como Cruz deverá ter desempenhos pífios em New York, Califórnia e Pennsylvania, podemos afirmar sem sombra de dúvidas que ele não conseguirá obter os mais de 800 delegados necessários.

25-cruz-trump-kasich.w529.h352Mas, reparem que eu escrevi acima “pela regra atual”. Isso porque dias antes da convenção haverá um painel de 112 delegados do partido (dois de cada estado e território) que se reunirá dias antes da convenção e poderá modificar quaisquer regras da escolha, mas eles já decidirão isso com os resultados de todas as prévias na mão, ou seja, esse comitê é superpoderoso e poderá ajeitar as regras de acordo com sua vontade, já sabendo de antemão o resultado final dessas mudanças.

Não preciso dizer que por baixo dos panos das prévias, que atraem mídia, está tendo uma guerra de foice no escuro pelas vagas nessa “supercomissão”.

No meio de todo esse turbilhão e insegurança jurídica, há de se pesar as declarações de Trump que no inicio do ano disse que “se ele se sentir ultrajado na disputa” ele lançará uma candidatura independente (sem apoio de partidos).

Tal candidatura teria grande poder de dividir os votos republicanos e facilitar a vitória democrata, tal qual ocorreu com Ted Roosevelt em 1912, que, dividindo os votos republicanos de Taft, pavimentou a vitória do democrata Woodrow Wilson.

Contagem Parcial de Delegados (estimativa do blog The Green Papers):

  • Trump – 693
  • Cruz – 423
  • Rubio – 172 (desistiu)
  • Kasich – 144

Fonte: blog The Green Papers

Próximas Prévias

Partido Democrata

  • Dia 22/03 – Arizona (75 delegados, proporcional)
  • Idaho – (23 delegados, proporcional)
  • Utah (33 delegados, proporcional)
  • Dia 26/03 – Alaska (16 delegados, proporcional)
  • Hawaii (25 delegados, proporcional)
  • Washington (101 delegados, proporcional)

Se já não bastasse Clinton estar bem a frente, ela ainda tem favoritismo nos três estados do dia 22. Já no dia 26, Sanders espera ter bons resultados em Washington e Hawaii. Mas mesmo que Sanders consiga a vitória nesses estados, não deverá ser por muito, talvez sequer consiga recuperar o prejuízo do dia 22. Serão mais alguns delegados a menos na regressiva de Clinton.

Partido Republicano

  • Dia 22/03 – Arizona (58 delegados, winner take all)
  • Utah (40 delegados, proporcional mas se torna winner take all caso alguém consiga 50% dos votos)

Serão apenas dois estados tendo disputa semana que vem, mas são estados médios e são quase 100 delegados em disputa. São dois estados bem conservadores dentro do eleitorado republicano e por isso Ted Cruz é favorito em ambos.

Para aumentar tal favoritismo, a eleição em Arizona é feita em primárias fechadas, exatamente o tipo no qual Ted Cruz melhor tem se saído. Trump tem muitos eleitores entre os independentes e por isso tem resultados melhores em eleições abertas ou, pelo menos, semifechadas.

Em Cruz confirmando o favoritismo, serão 58 delegados a menos disponíveis para Trump na sua tentativa de fechar os 1237 necessários para garantir sua nomeação.