Dando sequência à série de eventos teste para a Rio 2016, neste último final de semana – na verdade, terminando hoje – tivemos no Engenhão o Campeonato Ibero Americano de Atletismo, teste desta instalação para os Jogos Olímpicos.
O Engenhão ainda se encontra em obras visando à competição de agosto. As arquibancadas provisórias atrás dos gols (setores Norte e Sul) estão em processo de finalização (foto abaixo), bem como as duas estruturas onde ficarão os placares eletrônicos alugados. No mais, o estádio precisa de uma boa pintura e de uma “garibada” especialmente nos banheiros, mas nada que demande muito tempo.
Por fora, no setor por onde acessamos o estádio não há sinal de obras. A informação é de que do outro lado, no setor Leste, ainda há muitas intervenções nos entornos e acessos, mas não tive como ver. No lado Oeste a integração com a estação de trem já se encontra completa, com uma instalação emulando um galpão de trens já concluída.
Estava no Norte Shopping e optei por um táxi até a entrada do estádio, o que deu R$12. O acesso pelo setor Oeste, como feito neste evento teste, é mais distante do shopping e demanda uma caminhada bem maior que a requerida pelo setor Leste. A organização, devido ao estágio das obras, reservou apenas 3.5 mil lugares ao público, todos com entrada pelo setor Oeste.
O acesso consistia em retirar os ingressos na bilheteria e acessar ao lado. A revista foi no mesmo padrão do evento da ginástica: todos os pertences de metal na mão e o detector de metais era passado, para nós que não tínhamos bolsas ou mochilas – estava com minhas filhas. Uma vez mais, fica o conselho: evitem a todo custo bolsas grandes ou mochilas durante a Rio 2016. A Caixa, patrocinadora do evento, estava distribuindo camisetas e bonés na entrada.
O padrão de alimentação era o mesmo dos eventos teste dos saltos ornamentais e do nado sincronizado: bebidas não alcoólicas, cachorro quente e pipoca, com os mesmos preços anteriores. Calculo que no momento de maior movimento cerca de 2.5 mil pessoas estavam no Engenhão.
O evento na parte da tarde se iniciou às 16 horas com a cerimônia de abertura do evento, mas as competições em si se iniciaram às 17 horas. Sem ter visto “in loco” tinha achado boa a ideia de se fazer a pista na cor azul, mas vendo no local achei que ficou monocromático demais. Por outro lado, a conversão do gramado para o futebol e vice versa é relativamente simples.
Uma coisa que ficou claro é que a visão nas primeiras filas do anel superior deverá ser melhor que a vista onde estávamos. Por exemplo, a disputa do salto em distância, que foi do outro lado, ficou quase impossível de ser visualizada de onde estávamos.
Uma conclusão que já se pode tirar é que o melhor custo benefício de ingressos para o atletismo na Rio 2016 é a categoria B, que engloba o anel inferior atrás dos gols e a parte divisional entre os anéis inferior e superior nos setores centrais. A categoria A, que compreende os setores inferiores, não dá boa visão do outro lado.
Vale lembrar que ainda não havia a setorização do Engenhão marcada, então não houve como saber o onde estão os setores e blocos dos nossos ingressos. Vale lembrar também que as cadeiras do estádio não tem número, e esta parece ser uma questão a que o Comitê precisa ficar atento.
O sistema de som tocou música o tempo inteiro e funcionou a contento. O placar era provisório, mas dentro do que se esperava também atendeu às necessidades.
Sobre a competição, sem os maiores nomes internacionais as marcas alcançadas ficaram bem aquém dos recordes nas diversas modalidades. Há que se ter muita atenção com mais de uma disputa ocorrendo ao mesmo tempo, mas é algo com o qual se acostuma rapidamente.
Nas finais disputadas no sábado, domínio total do Brasil. Cheguei a brincar em redes sociais dizendo que em 17 dias de Jogos Olímpicos não verei ao vivo tantas medalhas de ouro brasileiras como as que vi neste último sábado. Ainda que eu não seja um profundo conhecedor do esporte ficou claro para mim que o nível de algumas finais foi bem fraco.
Algo que me chamou a atenção também foi ver todos os atletas medalhistas brasileiros fazendo a continência no pódio. É um sinal claro do apoio importante e hoje absolutamente necessário que as Forças Armadas dão ao esporte brasileiro hoje.
Um bom exemplo foi o salto com vara feminino, onde despontava a nossa maior esperança de medalha olímpica Fabiana Murer. Apenas cinco competidoras e Fabiana esperou por um bom tempo até a altura do sarrafo subir a uma altura que tornasse razoavelmente competitiva a disputa. Murer venceu com facilidade, mas com uma marca longe de empolgar – 4m60. Vai precisar melhorar se quiser obter medalha em agosto, embora saibamos que a fase de treinamentos ainda está em curso e ela não está em seu auge.
Uma curiosidade foi na final dos 3 mil metros femininos, onde a competidora de El Salvador ficou bem para trás das outras competidoras. O público na volta final a incentivou com aplausos e a saudou efusivamente quando finalmente ela concluiu a prova, uns 40 segundos após a vencedora.
Por falar em “segundos”, a prova dos 100 metros rasos é rápida demais. Se o espectador “piscar”, perdeu a prova. Aliás, quem comprou categoria A para a final dos 100 metros rasos a fim de ver Usain Bolt e ficar no Setor Leste verá muito pouco, porque a prova será em frente onde estávamos, do outro lado.
Neste dia específico considero que nem deveria ter sido considerada a categoria A do outro lado, porque a visão das categorias B e até a C do lado Oeste será bem melhor que a categoria A no setor Leste. Assim como no próprio dia da Fabiana Murer a categoria B do lado direito das tribunas (Sul) deveria ser C, porque a prova será em frente às cadeiras a esquerda (Norte).
Acompanhei o evento até por volta das 20 horas, antes de se iniciar a última prova do dia, a marcha atlética de 20 quilômetros. Sabemos que esta prova será na rua para a Rio 2016, mas ficou claro que em um estádio fechado ela não traz maiores atrativos: a maioria das pessoas foi embora antes do início desta prova.
Um pouco de dificuldade para se conseguir um táxi, mas logo estava em casa. Confesso que tenho dúvidas sobre se apenas o ramal da Supervia (trens) será suficiente para o escoamento do público total do estádio durante a Rio 2016 (60 mil pessoas).
Acredito que haverá necessidade de se utilizar os estacionamentos do Norte Shopping (caminhável, especialmente para o setor Leste) e do Nova América – a uns 15 minutos de táxi – a fim de auxiliar a chegada e a partida dos espectadores. O Engenhão, ao contrário dos outros Parques Olímpicos, é uma instalação isolada e onde as pessoas, especialmente, irão sair todas ao mesmo tempo – ao contrário das outras concentrações espaciais de instalações.
Resumindo, o Engenhão ainda precisa de alguns ajustes, especialmente em seu entorno – com algumas ruas estreitas, inclusive, apesar de intervenções no sentido de tornar mais amplo este espaço. Por dentro ainda se precisam terminar a instalação dos setores provisórios de cadeiras, colocar os dois placares eletrônicos acima destes setores e dar uma pintura e limpeza gerais, mas nada que preocupe.
E o evento em si foi bastante agradável. A próxima parada será o evento teste da Arena Carioca 1, com a Liga Mundial de vôlei masculino e o Grand Prix feminino.
P.S. – ontem esta revista eletrônica completou sete anos de vida. Temporariamente, a tendência é que este espaço se concentre bastante na cobertura dos Jogos Olímpicos e do carnaval.
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do lado sul, o dos trens, tem uma obra eterna: a conclusão do novo terminal de embarque dos trens. acho que inclusive vai facilitar o escoamento. e sobre ver a murer, realmente quem tiver de B no sul não vai ver, mas ali em frente, se for a mesma coisa que o pan, o público vai ter visão privilegiada do salto em altura. assim como quem tiver da leste vai ver melhor o salto em distância. acho que é um problema comum dos estádios olímpicos: mt prova acontecendo ao mesmo tempo, é preciso contemplar a todos.
Concordo sobre o fato de não se poder ver tudo devido ao tamanho do estádio, mas acho que estes dois casos citados no texto mereceriam um tratamento diferenciado.
Não admito a falta de vergonha da organização em ainda não ter divulgado o mapa de assentos, e mais ainda, fizeram evento teste sem o mapeamento.
Hoje tem ingressos a rodo na principal prova do atletismo, inclusive na categoria C, mas sem uma definição de local, realmente se torna uma caixa preta. Gostaria de saber como fizeram para determinar, blocos, filas e assentos nos ingressos ja comprados? Com o corte no mumero de voluntarios nos Jogos, a coisa vai se complicar, ao contrario da Copa do Mundo, que tinha o tal padrão FIFA que foi ironizado mas que não trouxe qualquer dificuldade a nós torcedores.
Clóvis, o corte de voluntários irá se concentrar nas arenas sem lugares marcados, o que não será o caso do Engenhão. Mas concordo que a setorização já deveria ter sido divulgada.
Sobre as áreas internas muito mudará. A sala de imprensa será em outro local e bem maior (espero). As zonas de entrevista terão demarcação semelhante mas com estruturas menos improvisadas. E, fundamental, deverão ser colocados monitores de TV nas áreas da zona mista em que os jornalistas esperam pelos atletas mas não têm a visão da pista. A pista, em si, foi bastante elogiada por brasileiros e estrangeiros. A curiosidade é a cor. Para se adequar à identidade visual dos Jogos o Rio 2016 pediu o azul e a IAAF atendeu. Pela primeira vez a pista olímpica não será terracota (aquele marrom alaranjado tradicional). Acredito que com pintura e ajustes aqui e ali o Engenhão fique bem aceitável. No entanto, sinto muito o fato de o Estádio Olímpico estar de fora do Parque Olímpico, isolado das outras modalidades, já que o Atletismo é uma espécie de modalidade mãe (ou pai) dos Jogos. Triste também é ter um Estádio Olímpico que prescinde da pira, do fogo sagrado das Olimpíadas. Este ficará na Praça Mauá. E, por fim, por mais que se tente, o entorno do estádio é de acesso complicado e, com todo respeito ao simpático bairro do Engenho de Dentro, não goza de muita beleza arquitetônica (exceção feita -com inteira justiça – ao lindo projeto de recuperação do antigo galpão da RFFSA, ao lado do estádio). Comparando com estádios de outras edições olímpicas o Engenhão certamente ficará entre os menos belos e arrojados, entre os menos charmosos. Que seja funcional e com boa qualidade para os atletas. Isso, ao que parece, será.
Gil,
Inicialmente acho muito legal que finalmente tenham saído do padrão terracota no atletismo, eu não aguentava mais o marrom-alaranjado. Se não causa prejuízos a competição, que se use mais e se mescle. Assim como adorei a novidade do piso verde na ginástica e, do uso do verde como cor principal dos jogos, o que ocorre pela 1ª vez.
Quanto ao Engenhão ser acanhado, eu concordo, mas isso tem a ver com questões práticas. Em todas as edições de Jogos Olímpicos até hoje, a exceção da longínqua Paris 1900, o estádio do atletismo foi o mesmo das Cerimônias, ou seja, era o estádio principal dos Jogos. Por isso ele recebia a pira olímpica e tinha todas as atenções do mundo.
Porém aqui no Rio de Janeiro não há opção: ou se separava as cerimônias no Maracanã do atletismo no Engenhão, logo ficando sem pira no Engenhão ou se juntava as cerimônias no Engenhão, cometendo dois pecados capitais: esse “super Estádio Olímpico” ficaria longe de todo o resto olímpico e se deixando o Maracanã fora das cerimônias, mesmo tendo maior capacidade e infraestrutura.
O ideal seria reformar o Maracanã e colocar uma pista de atletismo dentro dele, mas primeiro não havia tempo hábil para isso após a Copa do Mundo (e o Padrão FIFA proíbe pistas de atletismo) e segundo isso causaria uma gritaria fenomenal nos inúmeros “monoculturistas” do futebol que temos no Brasil.
Portanto, dentro das limitações que se impuseram, acho que a saída achada foi a melhor possível. Talvez eu não deixasse a pira na Zona Portuária, mas no parque Olímpico, mas até escolha da Zona Portuária é entendível.
Uma coisa é inegável: o Rio 2016 entrará na história como uma edição única em sua organização e visual.
Tem isso também da divisão das cerimônias com o Maracanã, bem lembrado. Por outro lado, a inexistência da pista de atletismo vai me permitir ver a cerimônia de abertura lá do alto sem precisar de um binóculo…
Sobre as áreas internas muito mudará. A sala de imprensa será em outro local e bem maior (espero). As zonas de entrevista terão demarcação semelhante mas com estruturas menos improvisadas. E, fundamental, deverão ser colocados monitores de TV nas áreas da zona mista em que os jornalistas esperam pelos atletas mas não têm a visão da pista. A pista, em si, foi bastante elogiada por brasileiros e estrangeiros. A curiosidade é a cor. Para se adequar à identidade visual dos Jogos o Rio 2016 pediu o azul e a IAAF atendeu. Pela primeira vez a pista olímpica não será terracota (aquele marrom alaranjado tradicional). Acredito que com pintura e ajustes aqui e ali o Engenhão fique bem aceitável. No entanto, sinto muito o fato de o Estádio Olímpico estar de fora do Parque Olímpico, isolado das outras modalidades, já que o Atletismo é uma espécie de modalidade mãe (ou pai) dos Jogos. Triste também é ter um Estádio Olímpico que prescinde da pira, do fogo sagrado das Olimpíadas. Este ficará na Praça Mauá. E, por fim, por mais que se tente, o entorno do estádio é de acesso complicado e, com todo respeito ao simpático bairro do Engenho de Dentro, não goza de muita beleza arquitetônica (exceção feita -com inteira justiça – ao lindo projeto de recuperação do antigo galpão da RFFSA, ao lado do estádio). Comparando com estádios de outras edições olímpicas o Engenhão certamente ficará entre os menos belos e arrojados, entre os menos charmosos. Que seja funcional e com boa qualidade para os atletas. Isso, ao que parece, será.
Gil, entendo perfeitamente seus comentários, concordo com a maioria deles. Mas tem dois pontos que acho importante acrescentar:
1) o objetivo da Rio 2016 nunca foi fazer jogos luxuosos ou em instalações arrojadas arquitetonicamente. O objetivo sempre foi entregar arenas funcionais e deixar que o calor humano do carioca dê “a magia dos jogos”;
2) o Engenhão já estava lá. E, querendo ou não, revitalizou uma região que estava parada no tempo. Eu me recordo que entre 97 e 98 namorei uma menina que morava em frente onde hoje é a entrada do Setor Leste do estádio e ali sim se via uma região absolutamente decadente. Mal ou bem, houve uma série de intervenções ali tendo o estádio como “motor”.
Sem dúvida sou partidário de Jogos menores e enxutos, de se fazer o que é possível e viável, sem megalomania. Aí, o Engenhão se encaixaria. A questão é que pagamos por instalações de Série AA e entregamos instalações de Série B. Não sou um radical que acha que as Olimpíadas só trarão endividamento para a cidade. É inegável que existe uma herança positiva em determinados pontos. Longe da revolução urbanística que se vende por aí. No fundo, o erro é de projeto e concepção. Comparando o projeto Rio 2016 com os de Madri e Tóquio, sobretudo, chego à conclusão de que houve uma conjuntura astral, econômica, midiática, política, o escambau para o Rio ter vencido a disputa em 2009. O Brasil de hoje não receberia tal incumbência. Os Jogos vão deixar marcas positivas, sim. Mas poderiam deixar mais. Poderiam ser melhores. Isso nada tem a ver com o requinte das instalações. Muito embora, concordando com a austeridade, eu continue achando o Engenhão, como palco principal dos Jogos, um retrato feio para a posteridade. Descontando tudo o que se possa ver de bom e ruim ao redor. Levando em conta apenas a questão arquitetônica. Acho um estádio sem charme.
Acho que concordamos nisso. O legado poderia ser melhor, mas existirá – especialmente em termos de intervenção urbana.