Na semana passada, pela primeira vez, um muçulmano foi eleito pelo voto popular para ser o prefeito de uma capital ocidental. Sadiq Khan (foto) vai administrar Londres pelos próximos oito anos. Esse é o tempo do mandato.

Não é pouco. Não o tempo de mandato, mas a conquista de Khan. Num mundo cada vez mais histérico mas também refém do terrorismo; cada vez mais sectário e ao mesmo tempo amedrontado, a confiança depositada por cidadãos de uma monarquia constitucional europeia em um fiel da religião tida por muita gente como “atrasada”, “radical”, “retrógrada” é um avanço da democracia.

E, bom sinal, de tolerância. Não só religiosa.

Mas de tolerância com o diferente, o que vem de fora, o estrangeiro, o refugiado. O pai de Khan, paquistanês, era motorista de ônibus. O Reino Unido proporcionou ao futuro prefeito de sua capital a oportunidade de se preparar. Ainda que, saibamos bem, a vitória pessoal de Sadiq foi fruto de sua dedicação pessoal, obviamente. Vale uma boa reflexão sobre a iniciativa individual do homem liberal e a importância do suporte por parte de um Estado que assegure condições mínimas de saúde e educação. Ficarei, porém, no campo da tolerância.

Porque, não fosse Londres uma das capitais mundiais do rock and roll, o samba enredo da Unidos do Viradouro deste ano bem que poderia ser executado de South Kensington a Dalston, do East End a Notting Hill. Foi imediata a minha recordação de tão belo canto em nome da paz, amor e tolerância. Um samba que, confesso, não havia me tocado tão profundamente quando o ouvi de primeira; mas que, não há como negar, proporcionou um dos mais belos momentos de canto e harmonia dos desfiles do carnaval que passou. Cai como uma luva para homenagear o novo mandatário londrino mas, acima de tudo, deveria ser objeto de estudo, interpretação de texto, teses e aulas no nosso sistema de educação. Público e privado.

Faz pouco tempo discutia-se a obrigatoriedade do ensino religioso – leia-se cristão – na rede pública de ensino. Fui, sou e sempre serei contra. Não contra as aulas de religião. Contra as aulas que apresentem uma única religião às crianças e adolescentes. A favor seria de uma cadeira que fizesse introdução às diversas expressões religiosas existentes no Brasil e no mundo. Que apresentasse noções básicas das crenças ocidentais, orientais, africanas, indígenas, politeístas, monoteístas. Seriam aulas de cultura geral. Ensinamentos de respeito e, palavrinha mágica, tolerância com a fé (ou falta dela, porque os ateus também sofrem certo tipo de estranhamento social quando se declaram descrentes no Todo Poderoso).

Em meio a tudo isso, as Escolas de Samba, ainda núcleos de preservação e divulgação cultural, seguem divulgando seus enredos para 2017. Tem gente que pode achar mais do mesmo. Eu acho que nunca é demais batalhar pelo direito de expressão da história e cultura dos povos formadores da Nação.

Veremos, na Série A, o Império da Tijuca voltar às raízes afro, o mesmo acontecendo com a Unidos de Padre Miguel. Bem como a estreante Acadêmicos do Sossego tocará no tema, uma vez que a homenageada, Zezé Motta, é artista ícone da negritude. No Especial, a Imperatriz já divulgou enredo indígena.

Paralelamente, teremos homenagens – que são, também, frutos do sucesso da parceria Mangueira-Bethânia. Destaques para Beth Carvalho (Alegria), Viriato Ferreira (Rocinha) e Gonzaguinha (Estácio). Mesmo em relação a Ivete Sangalo creio que um bom desenvolvimento e pesquisa podem embutir nesse tema aparentemente oportunista e comercial um viés interessante, com a exploração das tradições da Bahia em toda a sua riqueza.

Falando de Bahia, encerro expondo minha alegria por ter sido convidado para conduzir a tocha olímpica pelas ruas da primeira capital do Brasil, no próximo dia 24 de maio. Cidade onde morei e, de certa forma, fui criado. Na infância foi lá que me iniciei nas letras. Meu ABC foi aprendido em bom baianês, com sotaque e particularidades de pronúncia.

Para quem não sabe, o baiano não diz “éfe” e sim”fê” para o F. Ou “lê” no lugar de “éle” para o L e por aí vai. Bahia, terra de todos os santos, deuses, de todas as crenças, de Oxalá e Senhor do Bonfim, de Santa Bárbara e Iansã. Kaô, ogunhê, eparrei, odoyá. Todas as saudações ao meu segundo lar. Bahia, de toda tolerância. De Caetano e seu London London.

Êta mundo pequeno. Em poucas linhas percorremos Londres, Niterói e Bahia.

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