Semana passada eu fiz uma coluna em meu blog falando sobre o funk, que é uma cultura que passa dificuldades como o preconceito e o olhar torto de parte da sociedade. Um meio marginalizado que tem a música como uma forma de expressão, uma forma de mostrar que tem voz e o ambiente em que vive.
Nessa mesma época vi uma postagem do grande historiador Luiz Antonio Simas falando que um amigo lhe perguntou se o samba não estava muito “gentil”. Ele disse que não, que o samba, o ritmo tinha passado de resistência, inovação. Confesso que fiquei pensando nisso.
E cheguei a conclusão que talvez o amigo do Simas não esteja tão errado.
O samba tem sim esse histórico de luta, resistência. A música que vem do semba, da África, o batuque que vem dos negros escravos e ganhou os terreiros como de tia Ciata. Quem gostava de samba não prestava; sambista era vagabundo fichado na polícia. As baianas de escolas de samba no início eram homens vestidos como tal com navalhas escondidas para protegerem suas escolas.
As coisas mudaram, mudaram muito. Esse papel agora é do funk.
Evidente que ninguém quer que o samba volte a ser discriminado. Ninguém quer sambista fichado, sendo tratado como vagabundo ou que homens tenham que usar facas para protegerem suas escolas. Mas o samba mudou em sua essência. Hoje ele sofre de peleguismo, é chapa branca, é amigo do status quo. O samba “gourmetizou”, usando uma palavra da moda.
Os grupos de pagode da atualidade parecem os mesmos só mudando o nome. Mesmo perfil nos grupos, nos cantores, nas músicas, mesmo timbre de voz dos cantores e perfil físico. Difícil você ouvir uma música e identificar logo de qual grupo é se não for muito fã desse grupo e conhecer suas canções.
Um tipo de música genérica que poderia ser samba, sertanejo, forró ou MPB que é engolida por essa padronização que temos hoje em dia. Falta um terreiro no samba de hoje, uma melanina, um “fundo de quintal”. Pagode hoje virou evento que em nada tem a ver com terreiros. Show de samba é caro e é dedicado a galerinha vip, que bota pulseirinha no braço e vai a camarote. O pagode de hoje é da galera do balde de bebidas alcoólicas com energético. Que em nada com o perfil de quem apanhou pra fortalecer o gênero. É o ritmo da beira da piscina com ostentação.
As escolas de samba sempre tiveram aproximação com o poder. Só lembrar a era Vargas. Mas durante algum tempo também foi de contestação. O Império Serrano teve problemas com a ditadura militar e os enredos críticos dos anos 80 fazem parte de nossa história.
Mas isso ficou no passado, hoje o samba é o melhor amigo do poder. Já fez vários enredos recentes enaltecendo cidades em troca de dinheiro – em nada se importando se a população da tal cidade foi prejudicada com isso. Quase não faz enredos críticos e quando faz erra a mão e acaba ficando ao lado do status quo como a Mocidade esse ano e seu inacreditável “lavando jatos de felicidade”. Como se alguém ficasse feliz e não revoltado com corrupção.
Hoje mais do que nunca as escolas de samba são chapa branca e aliadas ao poder. A maioria das escolas do grupo especial do Rio de Janeiro receberam benesses do senhor Eduardo Paes como reformas em suas quadras ou até mesmo quadras novas e com isso virou o politico preferido do samba. Aquele que mete um chapéu panamá e acha que é sambista, atrapalha o desfile das escolas e ninguém reclama, ninguém contesta; afinal, nunca ninguém ajudou tanto o samba quanto Eduardo Paes.
Aceitam tudo que vem dele, mesmo que quem venha seja seu pupilo Pedro Paulo, homem que espancou sua esposa e tem outros casos de agressões no currículo, segundo se diz. Tem quadra de escola de samba com faixa dizendo que ama Eduardo Paes e o Pedro Paulo circulou feliz da vida pela quadra da Portela em sua eleição. Curioso que no mesmo dia que a escola se declarou contra a violência contra a mulher e a cultura do estupro. Soa incoerente e é incoerente. A Portela pode alegar, e com razão, que não poderia barrar ou tratar mal o candidato, mas tenho certeza que não só a Portela, mas todas as escolas do especial irão apoiar Pedro Paulo nas eleições.
Não é apenas a Portela que faz isso, apesar de hoje ser a escola mais alinhada ao poder. É escola do prefeito, então todos os eventos que atraem mídia a escola e seus sambistas são convidados, como a inauguração do VLT. Eduardo Paes usa a imagem da Portela e seus bambas com a maior cara de pau e os sambistas acham que isso é homenagem. Me incomoda demais ver a Portela tão associada ao poder, tão chapa branca, ainda mais por saber que dentro da agremiação tem tantos sambistas intelectuais, politizados, contestadores como pessoas físicas e imagino que isso deva a eles também.
Mas, como disse, não é só a Portela. Vários presidentes de escolas serão candidatos a vereadores na eleição municipal e todos aliados ao prefeito.A coisa ganha uma dimensão maior quando se divulga relação de sites e blogs que recebiam dinheiro público e no meio deles tem um conceituado site de carnaval que recebeu somando Caixa, Banco do Brasil e Petrobras 400 mil reais e aí me lembro da voracidade com que ele defendia o governo Dilma. Tudo é dinheiro hoje em dia, tudo que envolve carnaval hoje é alinhado ao poder.
O samba no geral em nada lembra a época de Paulo da Portela, Natal, Cartola e Noel. O seu ambiente não é mais um terreiro. O samba cada vez mais se afasta de seu povo, de sua gente e não é de se estranhar pesquisa como a mostrada pelo amigo Anderson Baltar que relata que a maioria da população caroca nunca pisou em uma escola de samba. É o preço que se paga por se afastar de suas raízes, daquilo que lhe fez forte.
Samba é arte e arte nasceu pra ser contestadora, quando não é perde força, perde foco.
O samba é da batucada, a gente preta e pobre, da feijoada em prato de alumínio e a cerveja num copo de geleia. Não é padronizado, não é gourmet. Não tem subserviência na sua receita. Tem criatividade, talento e resistência.
Isso que os novos bambas tem que entender.
Precisamos voltar a olhar pro fundo do nosso quintal.
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Só posso aplaudir esse texto!
Já te parabenizei pelo ‘puxão de orelha” na minha Portela,no Bar Apoteose.
Fico intrigado em como é constante a presença e influência desses dois seres na minha escola.
Nós,pobres torcedores (fora do Rio) apenas observam tudo,inertes e passivos frente a toda essa situação.Apesar dos pesares,não consigo abandonar e deixar de amar essa agremiação.