E parece  que dessa vez o Fred deixará o Fluminense mesmo…

A saída foi ensaiada mês passado, em uma briga que o jogador teve com o técnico Levir Culpi. A situação foi contornada e no momento em que escrevo a coluna o atleta está nas Laranjeiras para se despedir do clube.

Não sou Fluminense, mas para mim será estranho ver o Fred em outro clube. Sou do tempo em que acabava a era de um jogador passar a vida inteira em um time; um dos últimos que vi fazer isso foi Leandro, lateral e zagueiro do Flamengo. Mas era a fase que o mercado italiano se abria e os jogadores saíam do país em busca do dinheiro.

Recentemente teve o Marcos no Palmeiras e Rogério Ceni no São Paulo. Fred não “nasceu” no Fluminense, chegou no clube já jogador de Copa do Mundo, mas criou identificação forte com o Tricolor.

Fluminense, evidente, sempre foi grande, mas viveu uma grande fase com Fred; talvez uma de suas mais gloriosas. Tinha acabado de ganhar uma Copa do Brasil e um vice na Libertadores quando chegou o camisa 9, mas com ele em campo viveu um de seus momentos mais difíceis e que acabou com uma volta pro cima extraordinária.

fluminensemaracanaDizem que é a adversidade que forma caráter e sem dúvidas o Fluminense passou por isso em 2009. Virtual rebaixado com 99% de chances de voltar à segunda divisão, o clube proporcionou uma das maiores viradas da história comandado por Fred. Foi o surgimento do “time de guerreiros” , que valeu como um título para o Fluminense e dali a volta por cima que proporcionou conquistas como 2010 e 2012.

Estava no difícil ano de 2013 quando apenas se salvou com decisões de tribunal. O clube o acarinhou em 2014 quando voltou por baixo da Copa do Mundo. Acarinhou e ele retribuiu sendo artilheiro do brasileiro. Uma relação em campo de altos e baixos, mas que fortaleceu o extra campo. O Fluminense nunca abandonou o Fred e o Fred nunca lhe abandonou.

Quer dizer. Até agora um não tinha abandonado o outro.

O casamento chegou ao fim – como vários chegam – e provocou surpresa – como alguns fins. Parece ter sido um fim de comum acordo. O Fluminense parece feliz com a saída. Dessa forma o clube alivia suas finanças tão abaladas desde a saída da Unimed e ele pensa que a saída do jogador abre margem para que os garotos da base surjam e tenham espaço. Fred sempre foi um grande líder, com muita influência dentro do clube e isso tem o lado bom e ruim. Assim como muitas vezes serviu de escudo nas horas ruins ajudou a proteger os garotos que subiam e a comandar o grupo para os momentos de volta por cima.

Mas um jogador grande demais também atrapalha. Acaba se sentindo maior que o clube algumas vezes, que a direção e querendo se meter em áreas que não são as suas; mandar mais do quem quem deve mandar, como no caso com o treinador onde pediu sua cabeça. Dizem também que Fred atrapalhava o clima interno quando outro grande jogador chegava.

gol_assis_flaflu_odiaFred então parece mais feliz que o Fluminense. Dizem que foi ele que pediu para sair e ele é mineiro, está voltando para casa. Sua família é de atleticanos e além do belo salário o Atlético assumiu uma dívida antiga do Fluminense com ele.

Todo mundo feliz a princípio. Fluminense, Fred e Atlético, vamos ver com o tempo. Podem continuar felizes, mas o Fluminense pode se ressentir de seu maior ídolo e da perda de qualidade do time. Fred pode sentir falta da idolatria e poder que recebia no Flu virando mais um no Atlético e perdendo espaço. Atlético pode passar por problemas de egos no elenco, ciumeira e um dia receber a conta de suas “loucuras financeiras”. Tudo pode acontecer como em qualquer fim de relação. A vida seguir em frente com todos felizes ou pintar arrependimento.

Mas como em qualquer relação quem mais sofre são os filhos.

Uma geração inteira de torcedores do Fluminense cresceu vendo o Fred com a camisa 9 do clube. Não viram Telê, Pinheiro, Didi, Castilho ou mesmo Assis, Washington, Romerito, Renato ou Ézio. Viram o Fred comandando o “time de guerreiros” na alegria e na dor se tornando o principal nome de sua história recente e para muitos de todos. Fred é um dos maiores artilheiros de sua história, o maior desde a reabertura do Maracanã e muitos garotam o idolatram, tem sua camisa, sonham em ter fotos com ele, vê-lo jogar ou um dia ser como ele.

Como ficam esses garotos sem ele?

20150709_fred3-fluxcru_andreduraoDesde cedo eles tem que se acostumar que a vida é feita de perdas e talvez muitos estejam passando pela primeira perda da vida. O futebol é a coisa mais importante entre as menos importantes que existem e esses garotos quando forem senhores vão lembrar do tempo em que Fred jogou no Fluminense, como eu lembro de Zico. Até lá o tempo se encarrega de curar as feridas como ocorre quando há uma separação.

Nenhum deles pensou nesses meninos ou mesmo no torcedor mais velho, como aquele que tatuou “9 Fred” nas costas. O time do coração e o ídolo muitas vezes são a válvula de escape, a única alegria de pessoas que sofrem no dia a dia. O tricolor que passa por isso nesse momento está infeliz.

O Fluminense não pensou nisso, pensou no seu caixa, o Fred não pensou nisso, pensou no seu bolso, ninguém pensou nos “órfãos”. Estão errados? Não, eles tem que pensar no lado deles, é compreensível.

Mas não deixa de ser triste. A vida segue e vai seguir para os órfãos de Fred.

Com as lembranças de uma história feliz.

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Facebook – Aloisio Villar

Imagens – O Globo (Capa) e Arquivo Ouro de Tolo

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