Eduardo Cunha não é bobo…
Na última quinta feira o deputado Eduardo Cunha deu uma entrevista coletiva emocionado onde renunciou à presidência da Câmara de Deputados, se dizendo vítima de perseguição. Com a voz embargada e quase chorando, disse que era vítima de retaliações por defender a abertura do processo de impeachment e falou de “perseguição” que sua família recebe.
Muita gente comemorou, disse “tchau querido” e viu esse ato como o começo de uma punição. Essa punição pode até vir, mas não vejo motivos para comemorar.
Repito. O Cunha não é bobo.
Eduardo Cunha é hoje o inimigo público número 1 do Brasil, o típico vilão de histórias em quadrinhos odiado por quase todo o país, mas mesmo assim ainda não foi cassado, mesmo assim ainda tem aliados, correntes favoráveis, é recebido pelo golpista interino e consegue prolongar as ações no congresso que visam sua cassação.
Uma pessoa tão odiada assim, há tanto tempo com acusações graves contrárias… Não cai, não é preso, não é cassado e ainda derruba presidente eleito democraticamente. Nunca duvidem do poder dele e de sua capacidade de manipular.
Ele não foi a toa se encontrar com Michel Temer e mesmo a imprensa “7×1” brasileira deixa soltar às vezes que existe sim uma aproximação entre os dois e uma tentativa, no mínimo, do governo de não se meter nessa questão. Mas vai se meter sim, já está se metendo e em favor de Cunha.
Temer e Cunha são aliados; não necessariamente amigos, mas aliados. Construíram juntos a trama de destituição da presidente e juntos irão até onde puderem. Para ninguém me acusar de parcialidade, é como Lula e José Dirceu quando Lula foi até o fim com o “companheiro” mesmo que isso lhe manchasse.
E assim como com Lula e Dirceu o ato não é por lealdade e sim por prudência, por saber que uma delação premiada faz perder muito mais que uma manchete negativa em jornais.
Imaginem uma delação premiada de Eduardo Cunha? Acaba a República.
Evidente que tem o dedo de Michel Temer nessa renúncia. Vão se os anéis, ficam-se os dedos e é melhor para manobrar com ele fora da presidência. Dá para pedir vistas de processos, enrolar mais, dizer que acusações eram contra presidente do congresso, não deputado, essas coisas todas que já ouvimos desde a renúncia.
Mais ainda. A renúncia de Eduardo Cunha provoca uma nova eleição na Câmara e assim a saída do transloucado Waldir Maranhão, fato que a base governista vem pedindo desde que o mesmo tentou anular a sessão do impeachment. Waldir não é confiável, vai para o lado que oferece mais e não tem pulso para conduzir a casa. Para o governo é ótimo sua saída do cargo, para a base também; onde podem deixar fluir a ambição de assumir uma das cadeiras mais poderosas do país, já que é certo que será um governista o presidente.
Eduardo Cunha ainda pode se dar ao luxo de indicar um dos seus à Presidência e continuar indicando aliados para cargos importantes como na indicação do líder do governo na câmara. Continuará mandando mesmo sem o poder formal nas mãos.
Aí está a jogada. Renunciando agrada o governo, agradando o governo a base pode dar a contrapartida e votar contra sua cassação. Uma mão lava a outra.
A jogada de Cunha e Temer é essa, é cristalina, mas não acho que dará certo e sinceramente acho que nem eles acham. Só querem enrolar e protelar mesmo para ver se com Olimpíadas e impeachment da Dilma o caso cai um pouco no esquecimento. Mas não acredito que a opinião pública deixe que isso ocorra.
Aí Cunha terá que recorrer a outra jogada muito vista. Renunciar para não ser cassado e voltar em 2019 “nos braços do povo”. E não duvide que isso irá ocorrer. O fluminense já o elegeu várias vezes, elege a família Bolsonaro, vota há anos no PMDB e festeja Olimpíada com o estado falido.
Ele irá voltar em 2019 caso não seja preso e é capaz de voltar a presidência da câmara como Renan Calheiros voltou para a do Senado mesmo usando o artifício igual anos antes.
Cada dia no Brasil é um 7×1 diferente. Gol da Alemanha.
Twitter – @aloisiovillar
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Imagens: Extra (capa) e Arquivo
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Cunha tornou-se inimigo n.o 1 da mídia brasileira, não do povo. O povo, em sua maioria, ignora quem seja Cunha.
Cunha sempre foi inimigo do governo Dilma (que sempre comprou o PMDB e cismou de não querer acordo com Cunha — e logo colheu o que plantou no plano político), e da Globo (ohhhh!). E não por suas práticas nefastas (desde ísso torna alguém inimigo do PT e da Globo?).
Por um tempo, estrategicamente, a Veja encheu a bola dele. Até mesmo o panfletário Reinaldo Azevedo se fez de idiota para cerrar fileiras com Cunha. Depois de sua utilidade, levou o golpe do STF (uma inacreditável invasão de competência de um Poder sobre outro, com o STF mais uma vez estuprando a Constituição que deveria defender) e foi para o córner.
No entanto, Cunha representa uma grande maioria do povo brasileiro. Sua base de sustentação, o Centrão, é legítimo representante do povo brasileiro. São os votos paroquiais, das igrejas evangélicas, da população que vota em deputado que faz campanha com pauta de vereador. O Brasil é isso, e Cunha o representa muito bem.