Não é segredo para ninguém que o Brasil está quebrado, em crise. Enquanto PT e PMDB se acusam sobre quem é o responsável pelo fato, o brasileiro tem que se virar como pode, usar a criatividade para tentar sobreviver.
No carnaval, apesar de dirigentes de escolas de samba acharem que vivem em um mundo paralelo, a situação é a mesma. A diferença é que para ele a falta de dinheiro fez bem.
O mundo do samba está acostumado aos patrocínios, à preguiça. O antes criativo carnaval agora pensa num enredo que possa lhe garantir dinheiro, por pior que o tema pareça, e escolhe esse. Vai atrás da grana e tentar fazer um enredo maionésico para que público e crítica engulam. Nem sempre dá para engolir, mas muitos viraram campeões do carnaval na segunda metade dos anos 90 e na primeira década do século.
Isso começou a mudar nessa década, aos poucos, e a partir de 2016 com mais força, com o começo da crise. A crise resultou em busca pela criatividade e em enredos melhores. A Mangueira mesmo só contratou o excelente Leandro Vieira porque estava sem dinheiro e só escolheu Maria Bethânia como enredo por não conseguir um patrocinado. A falta de dinheiro e principalmente a criatividade lhe deram o carnaval. Criatividade e inteligência de Leandro, por exemplo, que foi sagaz e se enfiou no carro alegórico com problema de iluminação lhe acendendo na frente das cabines de jurados.
Para 2017 parece que a crise apertou e todas tiveram que seguir a Mangueira rendendo a melhor safra de enredos em muitos anos. Até aquele enredo que para muitos é o pior do especial, Grande Rio com Ivete Sangalo, traz expectativa e curiosidade. Ivete é a artista mais popular do país e a escola vai desfilar cedo, em horário nobre. Certamente dará audiência.
Até agora apenas Mangueira* e Vila Isabel não anunciaram enredos, mas pela falta de dinheiro e pelas características recentes das duas agremiações dá para acreditar em bons enredos. Temos coisas maravilhosas como a Divina Comédia no Salgueiro e a Tropicália do Tuiuti, para mim os melhores do ano. O do nome impublicável da São Clemente me desperta muita curiosidade assim como a Ilha voltando a fazer afro e o sobre as músicas americanas da Tijuca. Um tema que foi visto com certo preconceito, mas preconceito bobo como todo preconceito é porque a cultura musical americana é riquíssima.
Portela não vem com um enredo original, a União da Ilha já fez uma volta ao mundo, a diferença que em vez de rios foi por ilhas, mas o fim pelo rio de Paulinho da Viola pode fazer a diferença e emocionar , também me agrada muito a Beija-Flor sair de temas pesados ou caça niqueis para fazer Iracema.
Tenho menos expectativas com os enredos de Imperatriz e Mocidade, mas não dá para dizer que são ruins, dependerá de seus desenvolvimentos.
As sinopses já estão saindo e os compositores estão trabalhando. Daqui a pouco os sambas concorrentes estarão disponíveis na internet e cai sobre os compositores a grande responsabilidade de fazer jus aos belos temas com grandes sambas. Pelo que tenho visto nos últimos anos, pela volta de antigos campeões e a força de alguns novatos mostram acho que isso ocorrerá.
Esse ano vou analisar os sambas para o site Carnavalesco e, claro, darei meus pitacos aqui como faço todos os anos.
Apenas chegamos em julho, mas já posso dizer.
É carnaval!!
Twitter – @aloisiovillar
Facebook – Aloisio Villar
[*N.do Editor – A coluna foi escrita antes de a Mangueira divulgar um enredo com temática religiosa neste sábado. FS]
[related_posts limit=”3″]
Apesar do enredo da Grande Rio, que, apesar do grande apelo popular, acho fraco, concordo com você Aloísio: a crise fez bem para as escolas optarem por enredos que lhe proporcionem belos sambas, e com grandes chances de influenciar positivamente bateria, harmonia, evolução… No Acesso então, a qualidade dos enredos é absurda! Boa sorte lá no Carnavalesco, acompanharei suas análises lá e aqui, claro. Acho que nessas eliminatórias surgirão grandes sambas para você comentar!
Em relação ao enredo da Mangueira informado pelo Editor, claro que ele terá uma grande influência das religiões de origem africana, porém, no texto divulgado pelo Leandro Vieira, acho que o enfoque será mais amplo, na religiosidade do brasileiro sob um viés mais popular. Vamos saber mais quando divulgarem a sinopse, mas sei lá, acho que é por aí…
Luis, a nota foi colocada antes do anúncio exato também.
Ah entendi! Foi mal então Pedro, vacilo meu…
A crise, juntamente com a vitória do estreante Leandro Vieira em 2016, realmente deu uma sacudida nas escolas e carnavalescos que estavam um pouco acomodados. O texto é ótimo, porém eu discordo principalmente no que diz respeito a Mocidade e Imperatriz.
Com relação a Mocidade acho que se o Louzada estiver inspirado Marrocos poderá proporcionar um bom visual, e creio que há uma expectativa em como a escola irá se apresentar depois do desfile esquisito de 2016.
Já na Imperatriz temos uma sinopse que deixa claro que o desfile será um clamor por respeito ao índio e o seu modo de vida, mostrando que eles não são coisa do passado. Eles vivem, e estão entre nós. Esse enredo tem grandes chances de emocionar. Acredito que a Imperatriz fará um desfile no estilo Axé Nkenda, caso Cahe Rodrigues e os compositores de Ramos estejam inspirados como de costume.