Duas polêmicas chamaram a atenção essa semana.
A primeira, mais próxima de nosso ambiente, foi a Beija-Flor anunciar que suas baianas poderão vir com seios desnudos na avenida. A notícia causou um grande rebuliço, dividindo opiniões entre os sambistas. Um grupo pedindo inovações e ousadias aplaudiu, dizendo que se arriscar assim sempre é bem-vindo. Outro reclama, protesta alegando que ala de baianas é algo sagrado em uma escola de samba e fazer isso seria falta de respeito.
A outra polêmica veio da novela “Liberdade, liberdade”, que passa às 23 horas na Globo. Nessa semana, pela primeira vez ocorreu uma cena de sexo entre dois homens na teledramaturgia brasileira. Mais uma vez as opiniões foram divididas entre ousados e conservadores, entre o novo e o antigo.
Mês que vem chego aos 40 anos e chegar a essa idade vem me fazendo refletir sobre a vida. Tais acontecimentos junto com a idade que chego vêm me mostrando que posso ser mais conservador do que pensava.
Não gostei da história das baianas. Para mim realmente ala de baianas é algo sagrado, o que tem de mais tradicional em uma escola de samba e deve ser respeitado. Nada contra senhoras de seios de fora até porque uma das grandes cenas da história do carnaval é Dercy de seios desnudos na Viradouro. Eu concordaria se as senhoras viessem em uma ala comum, não como baianas.
Sou conservador nesse aspecto e acho que tudo tem limites, até a ousadia. O nu sempre foi tratado de forma natural no carnaval até a noite que Enoli Lara desfilou completamente nua na União da Ilha. A “genitália desnuda” foi proibida e a partir dali o próprio nu começou a diminuir nos desfiles. Quem dividiu bateria, carro de som, botou porta bandeira pegando fogo, misturou casal com comissão de frente e botou carro alegórico de cabeça para baixo em desfiles se deu mal. Os Deuses do carnaval não costumam gostar de tais ousadias. Joãosinho Trinta foi imortalizado com o Cristo mendigo censurado na Beija-Flor em 1989 e teve sua carreira encerrada na Grande Rio no enredo da camisinha quando foi censurado e tentou usar do mesmo expediente.
A cena da novela exige mais reflexão. A cena em si, homossexual, não me choca. O homossexualismo está presente no dia a dia, nas vidas de todos e tem que existir respeito com a sexualidade não importa qual opção. Nisso aí não sou conservador.
O que me incomoda é justamente o incômodo que provoca. Qual problema de uma cena com dois homens transando? Você é um dos que está transando? Nem eu. Amor e sexo serem tabus, incômodos em uma época que tanta coisa aterrorizante é liberada e ocorre na nossa frente mostra o quanto esse mundo está doente.
Nem de longe foi a cena mais forte dessa novela que já teve de tudo. Um dia meus filhos estavam comigo e começou uma cena em que a Maitê Proença foi estuprada e depois para se vingar emparedou vivo o agressor. Minha filha mais velha perguntou o que era aquilo e disfarcei mudando de canal e inventando uma desculpa qualquer.
Alguém vai dizer que não é hora de criança estar acordada e que em seu tempo de criança dormia cedo. Curioso que quem prega inovação e ousadia acaba repetindo essa frase conservadora. A criança de hoje tem nada a ver com a de antigamente. É mais esperta, mais desenvolvida, é capaz de mexer em aparelhos eletrônicos que não temos a mínima ideia em como mexer e não dorme mais tão cedo assim.
Evidente que errei e não devia ter deixado a TV em uma novela que tem cenas mais fortes com eles presentes, O.K., erro meu, mas para quê tanta violência? O mundo anda em uma época complicada, o Rio de Janeiro vive um caos social, violência assustadora em que pessoas morrem todos os dias de balas perdidas e achadas. Temos um ataque terrorista por semana – no dia em que escrevo acabou de ter mais um na França – e o caos está instalado, e novelas costumavam ser a hora do desafogo, do alívio.
Não sou imbecil ao ponto de dizer que violência na ficção influencia as pessoas. Eu vi alguns capítulos de pokemon quando criança e nem por isso virei um. Mas acho sim que a violência e cenas barra-pesadas em novelas assim como apologia ao mundo cão travestidas de telejornalismo como Cidade Alerta fazem mal. Eu não consigo me sentir bem vendo um programa desses. Essa semana Aguinaldo Silva falou mal desses programas alegando apologia da violência, Datena devolveu xingando o novelista dizendo que a novela que vem fazendo uso da mesma e acho que os dois estão certos.
Violência em novela e jornal nunca me incomodaram, mas agora me vejo conservador também nesse aspecto. Talvez pela idade, por ter filhos pequenos… Queria que eles não fossem apresentados tão novos ao lado cruel da vida. Posso estar errado, a vida é assim e infelizmente um dia terão contato com esse lado, mas é um desabafo de um pai cansado da banalização da vida e com medo do que lhes espera no futuro.
Quando eu vou ao teatro e ao cinema procuro por aquilo que irei assistir, quando eu escrevo a pessoa que vai ler que me procura. A TV invade a casa, as salas e vejo com uma responsabilidade diferente, maior.
Com tanta coisa ruim ocorrendo no mundo, o que preocupa a tradicional família brasileira é Caio Blat com Ricardo Pereira na cama. Parecem nem se preocupar se o filho pode ser assassinado na rua por não querer entregar um celular e sim porque tem dois homens transando.
Vai ver as questões estejam invertidas. Nos preocupamos muito com a sexualidade dos outros e com nossa posição no mundo. No dia que nos preocuparmos apenas com nossa sexualidade e com os outros no mundo, não existam mais divisões entre ousadia e conservadorismo, nem novo e antigo.
Podemos ser conservadores em algumas coisas, liberais em outras, mas tem uma coisa que todos nós temos de praticar um com os outros até para que também pratiquem conosco. Respeito. Tudo passa por uma questão de respeito.
Essa tinha de [related_posts limit=”3″] ser a nossa luta.
Twitter – @aloisiovillar
Facebook – Aloisio Villar
Excelente texto sintetizado com a palavra respeito. Independentemente de nossas convicções mais conservadoras ou liberais, o respeito deve existir sempre. Não me choquei nem com as baianas (ora bolas, tudo uma hora cai, mas só se valoriza o novo e o belo) nem com a cena mais picante entre os dois personagens masculinos na novela, eis que cenas assim entre heterossexuais são frequentes.
A propósito, sou radicalmente contra esta ideia de baianas com os seios de fora
Inicialmente também sou contra. Se está dentro do enredo, e quiserem colocar uma ala com senhoras com os seios de fora, por mim tranquilo, mas nas Baianas não acho ousadia, acho desrespeito mesmo. Porém, nada tira da minha cabeça que, com o mundo do Carnaval quase em sua totalidade apenas falando a respeito das sinopses de Portela e Mangueira, além do “conflito” das sinopses de Unidos da Tijuca e Vila Isabel, para não falar de Ivete Sangalo na Grande Rio, Laíla deu mais um jeito de atrair novamente os holofotes para Nilópolis…
E só uma provocação: Paulo Barros tacou fogo na Porta-Bandeira e o mundo do Carnaval caiu de pau (justamente) em cima dele. E agora, vejo, das mesmas pessoas, muito mais aprovação do que reprovação nas baianas seminuas do Laíla. Será que reagiriam assim se fosse Paulo Barros que tivesse essa ideia, seja na Portela, Mocidade, Tijuca, Viradouro…?
Se fosse o Paulo Barros o mundo tinha desabado em cima dele, fato.
Exatamente. Mas já que a iniciativa veio do Laíla, tudo certo…
Bom dia!
Prezado Aloisio Villar:
O certo ou o errado são resultado de uma conjuntura difícil de esquematizar. O que deu certo está aí para vermos, e tentarmos explicar o porquê.
O que deu errado, em bem maior quantidade, ou caiu no esquecimento, ou se tentou explicar nos mesmos moldes que os acertos.
Vale a lição do ovo de Colombo: depois que ele mostrou como se colocava um ovo em pé, todo mundo achou “óbvio”…
Sucessos e fracassos estão no nosso dia-a-dia. Cada um com sua dose de justificativa. Não gosto de nenhuma delas.
Tentar é se arriscar, dar a cara a tapa, e esperar pela aprovação conjunta. Nem tudo (Ou quase nada) é tão óbvio.
As Escolas de Samba em quase nada lembram seus primórdios, conseqüências de mudanças arriscadas, apostadas e caídas no gosto popular. Tantas outras não vingaram, e algumas delas, mesmo não tendo persistido, contribuíram para, “por tabela”, levarem a tendências que surgiriam depois.
Deixar a ala das baianas com os seios de fora não me incomoda.
São as mães do samba, a figura de Ciata em cada desfile.
Sagrado e irretocável?
Se fossem assim, baianas seriam sempre baianas, e isso já não acontece há muito tempo! De gueixas a borboletas siderais, pouco se vê baiana com suas 7 peças características (Calça, Saia, Camisú, Bata, Pano da Costa, Pano de Cabeça e Laço).
No final de tudo, vale a presença delas no desfile, sempre obrigatória.
Sobre a cena da televisão, uma grande incoerência.
Em horário bem cedo na mesma emissora vê-se todo tipo de violência (Mortes, golpe do baú, ganância desenfreada, vingança). Aí tarde da noite dois caras se pegam (Num ato de amor!), e parece que o mundo vai acabar…oi?
Valeu o texto!
É bom ter este espaço para debate.
…apesar de que eu prefiro auditórios, microfones e coisas do tipo. Debater ao vivo é sempre melhor!
Apenas um adendo: o termo “Homossexualismo” não é mais usado há algum tempo por denotar doença. O correto ao tratar o assunto é falar de “Homossexualidade”.
Atenciosamente
Fellipe Barroso