Muitas coisas na vida nos dão tristeza, decepção, mágoa, rancores. Infelizmente a vida é assim e se tornar adulto machuca, deixa feridas na alma que cicatrizam, mas as mesmas cicatrizes ficam ali para mostrar o quanto já nos ferimos.
Mas ainda bem que a vida não é só isso. Também temos nossos momentos alegres, felizes, de euforia, o momento da missão cumprida. Todas essas situações ruins e boas que passamos formam a nossa história. Aquele filme que dizem passar em nossa mente no fim da vida. Mas não é só ali. Vários são os momentos em que um filme passa por nossas cabeças. Com momentos ruins, bons, mas importantes porque fazem parte de nós.
Desses todos que citei acho que nenhum engloba mais o que somos e dá mais satisfação que o da missão cumprida. Mais do que isso. Da realização de um sonho. Por isso tem uma coisa que desde moleque sempre me deixou intrigado, chamou minha atenção. Sempre me fiz essa pergunta.
O que passa na cabeça de um atleta na hora que toca o hino, sobe a bandeira de seu país e ele está com a medalha de ouro no peito?
Uma medalha de ouro não deixa a pessoa milionária, não lhe faz imortal, pelo menos fisicamente, provavelmente alguns meses depois muitos já lhe esqueceram e a rotina volta. Não deve custar caro, não deve ser pesada… Mas poucas coisas criadas pela humanidade valem mais, têm mais peso do que uma medalha olímpica. É o ápice de qualquer atleta, um dos ápices de vida de qualquer ser humano.
O que faz levantar todas as manhãs da cama um Michael Phelps? O cara já conquistou tudo. Tem seríssimas dores de coluna de tantas medalhas que carrega no peito. Já é o maior atleta olímpico desde a Era Antiga batendo recordes que duravam 2500 anos. Até escrever essa coluna, tinha 22 medalhas de ouro, 26 no total (Ainda tinha uma prova a disputar). Desde 2008 ele já está na história olímpica e mesmo assim, após um pequeno intervalo, oito anos depois continua treinando feito um louco, nadando, se desgastando, tendo dores e vencendo. Vencendo e sentindo toda a emoção da vitória e da hora do hino.
A competição faz qualquer ser humano se sentir vivo e essa competição, essa “cocaína do bem” que é ser vencedor motiva. Motiva um atleta vitorioso, um super atleta como Phelps e os mais humildes também.
Mas com sinceridade digo que não era o filme dele que queria ver agora.
Eu queria mesmo era ver o filme da Rafaela Silva. O que se passou em sua mente na hora do hino e de receber a medalha.
Quantas humilhações essa menina não recebeu na vida por ser negra, favelada e homossexual? Não. Sem essa de tentar politizar a coisa. Não foi a esquerda nem a direita que ganharam a medalha, só se for medalha da vergonha. Essa medalha pertence somente a ela. Somente à Rafaela Silva.
Quantas vezes essa moça não deve ter se sentido diminuída? Sem oportunidades? Quantas dificuldades deve ter passado para viajar e competir? Quantas vezes não acordou cheia de sono para treinar e treinou mesmo com dores ou sem vontade?
O que passou na mente de Rafaela Silva quando ela leu as ofensas racistas que recebeu após as Olimpíadas de Londres? A humilhação que sentiu, tão pequena que deve ter se sentido ao ponto de querer sumir e largar tudo? Uma menina que se nota é inocente, ingênua porque em vez de todo mandar todo mundo pastar e dizer que ninguém pagava suas contas quase sucumbiu. O que será que passou na mente da menina ao ler que devia estar em uma jaula e que ela envergonhava o país? Justo a Rafaela envergonhar o país? Uma “simples” atleta que cometeu um erro que só prejudicou a ela mesma? E esse bando de políticos canalhas que temos? E o Eduardo Cunha? Se a Rafaela envergonhou o Brasil eles fazem o quê?
É muito fácil ser macho através de um fake e um computador. É o pior dos covardes e covardia tem nada a ver com Rafaela Silva.
O filme de Rafaela podia ter acabado infeliz em 2012, mas assim como o mundo Rafaela não acabou. Sumiu dos olhos do grande público, dos covardes de computador e continuou fazendo seu filme. Treinando, se esforçando, acordando cedo, sentindo dores..Quatro anos são muito tempo, mas nada perto da produção de uma reviravolta como aquelas que todo grande filme tem.
E Rafaela deu a volta por cima e brilhou no filme ganhando o Oscar em forma de medalha. Todo esse filme produzido desde a infância quando roubaram na frente de casa um chinelo que o pai lhe comprou, passando pelas vezes que os meninos não deixaram que brincasse com ela a infância e adolescência na Cidade de Deus, a queda em Londres, tudo deve ter passado na cabeça da menina naqueles minutos e com isso o choro no fim. Natural, todo filme bonito emociona e o filme de Rafaela Silva é lindo. É lindo e surpreendente porque muitos de nós esquecemos que era ela a menina humilhada em Londres e ao lembrar veio o espanto e um sorriso ainda maior.
Rafaela Silva, a judoca de ouro deu a volta por cima como se espera de um praticamente de um esporte que sofre tantas quedas e tem que se levantar depois delas. Foi nossa Rocky Balboa, nossa Daniel San, nossa Rafaela do sobrenome mais brasileiro que tem. Ela simplesmente é Silva.
E no fim mostrou que a Cidade de Deus é capaz de produzir outros tipos de filmes além de violentos. A Cidade de Deus não é só terra de Mané Galinha e Zé Pequeno. Também é de Rafaela que voltou a sua terra vitoriosa como os grandes atletas gregos faziam na era antiga.
Voltou para contar aos seus como a vida é bonita lá fora e dá grandes filmes.
E o bonequinho aplaudiu de pé quando as luzes do cinema se acenderam.
Viva Rafaela!!
The end.
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