Depois da primeira parte com a análise dos enredos do Grupo Especial no desfile de domingo, confira os temas que vão passar pela Avenida na segunda-feira de Carnaval, também na ordem dos desfiles.

União da Ilha do Governador: “Nzara Ndembu – Glória ao Senhor Tempo”

Carnavalesco: Severo Luzardo

Autores da Sinopse: Severo Luzardo e André Rodrigues

Sem dúvida é o enredo mais complicado do Grupo Especial em 2017. Ou, se preferirem, aquele que trará ao seu carnavalesco o maior desafio para que o público possa compreender, em alas e alegorias, a proposta apresentada na sinopse. Por outro lado, a temática afro não só é pródiga para uma plástica de bom gosto, como traz consigo uma certa boa vontade do público mais acostumado com Carnaval.

Nesse caso, trata-se de um enredo muito interessante sobre a origem do tempo e a forma como o homem lida com ele. Além disso, é um enredo de origem banto, o que é uma boa novidade dentro do universo de temas afro que, em geral, é tomado pelas temáticas iorubas. A história, a partir da sinopse, começa com a criação do tempo por Nzambi Mpungu, o grande criador e a suprema entidade. Ele convocou Kitembo, o Rei de Angola, para que este se tornasse o “Ínquice mágico do tempo”, ou seja, o responsável pelo controle do tempo.

ilha2016bA partir daí, o enredo se desenvolve de maneira bastante confusa, apresentando os trabalhos de Kitembo nos céus e na terra e as consequentes transformações geológicas da Terra. É uma relação que não fica muito bem explicada – pior, se apresenta de maneira muito complicada, misturada a invenções dos homens, festas de farturas e outras passagens que dificilmente serão compreendidas com facilidade por quem estiver na Avenida sem a sinopse. Aliás, mesmo com a sinopse é preciso ler e reler algumas vezes para compreender minimamente esse segundo setor.

Nos três setores seguintes, o enredo fica um pouco mais compreensível. Cada um deles disserta sobre a criação de um elemento – o terceiro a água, o quarto o fogo e o quinto o ar – o que, de certa forma, ajuda a entender um pouco melhor o segundo setor (que fala, ainda que de maneira bem menos explícita, sobre o elemento “terra”). Nesses três setores a aççao de Kitembo é bem melhor explicada e há uma explicação bem mais convincente sobre a relação entre a criação dos elementos e as primeiras formas de comunicação entre os seres humanos.

O final do enredo é um pouco batido. A partir da criação do Reino de Nzambi, anuncia-se uma era de “trabalho e prosperidade por muitos séculos, emanando para todos os povos irradiações de amor e respeito pelo meio ambiente, a fonte inesgotável de vida para as futuras gerações”. Dessa forma, a mensagem final é a de que os homens precisam hoje preservar as criações de Kitembo (os elementos). Mais que isso, mostra que o caminho para essa preservação é a união entre os povos.

Não é um enredo ruim. Pelo contrário, é bastante interessante. Acho, porém, que há um sobressalto aqui e ali e temo que o enredo não seja compreendido na Avenida. Me parece um tema que se mostra muito melhor no papel do que em carros e alas. Até porque ele fatalmente deverá lançar mão de elementos estéticos já batidos e que foram usados em muitos enredos diferentes. Ainda assim, vale destacar a pesquisa cuidadosa e a sinopse longa que, bem ou mal, procura esclarecer da melhor forma possível a história que a União da Ilha pretende contar.

rosa-magalhaes-2011-size-598São Clemente: “Onisuáquimalipanse (Envergonhe-se quem pensar mal disto)”

Carnavalesca: Rosa Magalhães

Autora da Sinopse: Rosa Magalhães

Sem dúvida alguma a minha maior decepção nessa safra de enredos. Não pelo tema em si, que está com certeza entre os cinco melhores do grupo, mas pela expectativa. Quando Rosa Magalhães apresenta um enredo chamado “Onisuáquimalipanse” (título este que não me agrada, mas devo admitir que cumpre a missão de provocar uma quase insuportável curiosidade), a gente naturalmente espera uma coisa genial. Por isso, a sinopse te dá aquela sensação sempre incômoda de “quero mais”.

Bem, o texto de Rosa Magalhães, como não é novidade para ninguém, é brilhante. A exemplo do que acontece na sinopse do Salgueiro, ele te transporta para a história de modo que você se sente na França do Rei Luis XIV ao ler cada parágrafo. Esse é um ponto bastante positivo: o enredo tem uma contextualização muito clara e é bastante descritivo, de modo a criar um cenário claro na cabeça de quem o lê.

Os primeiros setores falam sobre a vida boa de Luis XIV, um rei “bom vivant” que assumiu a França com a morte de seu pai. A história que toma conta do resto do enredo começa quando Luis contrata Fouquet para cuidar das finanças do país. Então, Fouquet enriquece, constrói um palácio e se torna um nome importante na França, estando “circundado de poetas, teatrólogos, pintores, músicos, etc, para os quais pagava uma espécie de mesada”.

Até aí, o enredo ainda está próximo da genialidade. É uma história com um toque certo de ironia, o que é potencializado pelo setor seguinte. O banquete oferecido por Fouquet ao Rei aconteceu no tal palácio. A festa foi deslumbrante, a recepção magnífica, a comida estava ótima, a música incrível e até uma peça teatral de Moliere os convidados viram. Basicamente, Luis XIV se revoltou e mandou prenderem Fouquet por “malversação do dinheiro público”. Em seguida, mandou os artistas que fizeram o palácio fazerem outro, “muito mais bonito”, chamado Versalhes.

A história é boa. O enredo, consequentemente, também. Mas faltou cuidado. As sutilezas e ironias não ficaram bem explicadas e a história foi, em suma, mal contada. Até o enigmático “PS” (“Essa história aconteceu há muito tempo, qualquer semelhança com fatos de outras épocas é mera coincidência”) perde um pouco da força. Se fosse mais longa ou mais bem trabalhada, a sinopse talvez atingisse o seu objetivo com mais êxito. Do jeito que foi escrita – e caso isso se reproduza no desfile – vai parecer apenas uma história galhofeira da França de séculos atrás.

O “onisuáquimalipanse”, aliás, precisava ficar mais explícito, mais claro. Não ficou, muito por conta da pressa no momento de maior clímax do tema. Não fosse pela frase “Fouquet conseguiu ainda avisar aos mais próximos que destruíssem os documentos mais comprometedores”, sequer seria possível entender se ele foi preso justamente ou não. Com isso, o que podia ser um tema genial virou apenas um belo enredo. Na maioria dos casos, seria mais que suficiente. Com Rosa Magalhães, a gente sempre espera alguma coisa melhor.

mocidade2016cMocidade Independente de Padre Miguel: “As mil e uma noites de uma Mocidade pra lá de Marrakech”

Carnavalescos: Alexandre Louzada e Edson Pereira

Autores da Sinopse: Alexandre Louzada e Edson Pereira

Não sou desses que se posicionam imediatamente contra os chamados “enredos CEP”, ou seja, que falam sobre cidades, estados ou países. Pelo contrário, acho que são boas oportunidades de, como manda (ou deveria mandar) o Carnaval, explorar novas temáticas, conhecer novas culturas, levar o nosso samba para quantos lugares for possível. Por conta disso, apesar da decepção pela opção da Mocidade por não homenagear Elza Soares, recebi com boas expectativas esse enredo sobre o Marrocos.

Só que aí tem uma coisa: quando você pega um rojão desses na mão pra transformar em desfile, o primeiro a acreditar na ideia tem que ser você. Se isso acontecer, você segura o rojão até ele estourar no céu. Quando nem você confia muito nele, na primeira faísca você já solta ele no chão. E é mais ou menos essa a impressão que eu tenho quanto ao resultado final do enredo da Mocidade: nem a própria escola acreditou que o país africano pudesse dar um bom tema.

Além das referências mais óbvias possíveis ao Marrocos, o que resta é uma tentativa desesperada de associar o tema à escola. No começo, por exemplo, para tentar explicar uma caravana muito da estranha que sai da Zona Oeste, a Mocidade recorre a versos do seu samba de 1985 que, pelo que dá para entender, justificam uma vocação da escola para esse tipo de passeio: “Nos meus devaneios / Quero viajar / Sou a Mocidade / Sou Independente / Vou a qualquer lugar”. É só a primeira das referências forçadas que o enredo vai mostrar.

Me parece ser um enredo voltado para um visual luxuoso. Logo de cara aparecem palácios, um reino mágico e, lá dentro, alguma coisa que serve de tapete mágico para o desfile da escola (pensei por um momento se tratar de uma referência à Sapucaí, mas isso seria completamente nonsense, de modo que continuo na dúvida). No parágrafo anterior, aliás, há uma frase curiosa: “O sol teima em queimar a nossa cara que, porém, em um facho sorridente, deixa a caravana passar e seguir em frente, pois, para a Mocidade, não existe mais quente”. Agora coloca-se o nome da bateria da escola no enredo com um trocadilho pobre… É uma sinopse feita para tentar lançar luz aos compositores para um desenvolvimento de enredo muito ruim.

E não precisava ser assim, na verdade. A espinha dorsal do “passeio da caravana” é interessantíssima. Passa por mercadores, Sheherazade e as “mil e uma noites”, Aladim, potes dourados e a “riqueza do povo” marroquino. Com uma amarração mais bem feita, seria até um belo enredo. Mas faltou acreditar. Sem essa autoconfiança, camelos e Ali Babás são jogados ao léu sem qualquer conexão aparente. O enredo ainda retoma um pouco do rumo ao citar lendas e contos bastante interessantes.

Mas aí, para terminar como começou, a viagem se encerra de forma abrupta, sem um final claro, e novamente encaixa-se uma série de referências absurdas como, por exemplo, “fizemos do Saara uma passarela, e no reino do Marrocos, o nosso conto transformou minutos em mil e uma noites de alegria e prosperidade, ao vestirmos a fantasia, tecemos um tapete mágico onde desfilaram os sonhos da Mocidade”. De novo tapete, de novo o Saara, de novo as mil e uma noites.

Pior: “Se a nossa música também veio da África, nossas bandeiras, estrelas gêmeas brilham juntas no coração da nossa gente”. Ok, a ideia das estrelas que estão nas duas bandeiras foi boa. Mas África? Sim, o Marrocos é um país africano. Mas de uma África completamente diferente da África do samba. Seria como criar um laço com o Brasil através do tango. “E o calor? Esse eu posso garantir que é humano e que, ao som do batuque do samba, não existe mais quente”. De novo o calor, de novo o nome da bateria. Quanto do Marrocos não se perdeu nessa tentativa de exaltar, sem motivo aparente, “um povo encantado que vale mais que um pote de ouro”? Desperdiçou-se, em suma, um enredo promissor que virou um samba do marroquino doido.

tijuca2016bUnidos da Tijuca: “Música na alma, inspiração de uma nação”

Carnavalescos: Mauro Quintaes, Annik Salmon, Hélcio Paim e Marcus Paulo

Autor da Sinopse: Marcos Roza

Talvez o maior exemplo de como desperdiçar um enredo extremamente interessante com uma argumentação forçada. Contar a história dos Estados Unidos através da música é uma ideia maravilhosa. Um enredo original, diferente e, até certo ponto, ousado para os padrões caretas das carolas carnavalescas que pensam que o Carnaval deve eternamente girar em torno do próprio umbigo. Uma Tijuca americanizada é uma boa Tijuca, afinal. Uma Tijuca com estética diferente. Tão diferente que só mesmo a Tijuca poderia aceitar. Tudo isso é lindo.

Mas, assim como o rojão marroquino da Mocidade, esse rojão tijucano Made in USA também não tem a confiança de quem o segura. A escola do Borel não acreditou muito em sua proposta e optou por uma justificativa forçada para um tema que sequer precisava de muitas explicações. Veja, o enredo é anunciado como “Sapucaí in Concert – a história da música norte-americana”. Ótimo! “Seja bem-vindo, Louis Armstrong”. Bom, aí já começa a me incomodar. Claro que ele tem tudo a ver com um enredo, mas a escolha por uma personagem central em um enredo tão abrangente já me soa sempre como um indicativo de que a escola está correndo atrás de um protagonista para camuflar falhas do tema.

“Meu caro Pixinguinha…”. Pronto, aí a abertura do enredo desandou de vez. Não faz o menor sentido promover um “encontro” entre Pixinguinha e Louis Armstrong se ambos vão ficar completamente escanteados do resto do enredo. O enredo não precisa da força do nome desses dois cantores para ser bom. Pelo contrário, eles apenas conferem ao tema a impressão de que não é forte o bastante para se sustentar sozinho. Isso sem falar no efeito colateral mais óbvio: correr o risco de parecer uma homenagem aos dois e decepcionar quem procurar isso no enredo, no samba e no desfile.

Bom, daí em diante o enredo até que passa muito bem, obrigado. A contextualização histórica é muito boa, relacionando o surgimento do “blues” ao fim da Guerra Civil pela abolição da escravatura (após destacar os cânticos de louvores dos próprios escravos norte-americanos). Embora a “primeira pessoa” do “narrador” Louis Armstrong incomode enquanto sinopse, como enredo ele é muito interessante. Vão aparecendo os ritmos com uma sequência cronológica interessante, que me faz até relevar os deslizes de gramática inglesa cometidos pelo texto.

No segundo setor (ou “set”, como é dividido o enredo, aproveitando o termo designado para dividir as partes de um show), o jazz se mistura ao banjo e ao violão na criação da música country. O enredo caracteriza essa mistura como uma evidência entre “a fusão das baladas folclóricas europeias e dos cantos dos cowboys do sudoeste americano com a música oriunda dos negros”. Da mesma forma aparece o rock n’roll e, assim, o enredo começa a se popularizar com menções a Elvis Presley e ao festival de Woodstock.

O quarto e o quinto sets jogam de vez “pra galera” (e isso não é, de maneira nenhuma, uma crítica) com destaque para as músicas que ganham o cinema e, principalmente, os astros pop. “Cruzando novos portais entre o gueto e a cidade, misturando tradição e modernidade” aparecem ritmos mais antigos como o disco e até mesmo o funk, além de outros mais recentes como o hip hop e a música eletrônica. Prevejo, aliás, um final muito divertido com um desfile de cantores que vai de Frank Sinatra até Ke$ha, passando por Lionel Ritchie, BB King, Aretha Franklin, Beyoncé, Whitney Houston, entre muitos outros. Um ótimo enredo que, ainda assim, é bastante prejudicado por esse “encontro” forçado entre Pixinguinha e Louis Armstrong.

portela2016bPortela: “Foi um rio que passou em minha vida e meu coração se deixou levar…”

Carnavalesco: Paulo Barros

Autores da Sinopse: Izabel Azevedo, Ana Paula Trindade, Simone Martins e Paulo Barros

Uma concepção confusa, perigosa e complicada. Uma tentativa forçada de manter a escrita recente da Portela de falar sempre sobre ela mesma, não importando o assunto. São esses dois ingredientes que fazem o enredo da Portela estar entre os quatro piores do ano no Grupo Especial, apesar da pesquisa muito interessante e de algumas referências muito inteligentes ao tema abstrato dos “rios”.

Logo no longo preâmbulo fica claro o problema que irá prejudicar todo o enredo em seu desenvolvimento. Em meio a linhas sobre a importância dos rios para a humanidade, e que justificariam muito bem a proposta da escola, aparece um trecho absurdamente deslocado: “A Águia bebe dessa água cristalina em sua nascente, onde brota o bem mais precioso criado pela natureza. No berço do samba, o pássaro abençoa a passarela, leito do rio da Portela”. Rio da Portela? Águia bebe dessa água? Nada disso se justifica. Pelo contrário, mostra uma indisfarçável tentativa de exaltar a própria escola em um enredo que, em vias normais, não tem nada a ver com a Portela.

Também me incomodam algumas frases forçadas para dar um ar de poesia ao enredo – como por exemplo “A vida é como um rio que corre em direção ao seu destino”. Se o enredo fosse enxugado (sem trocadilhos com a água) e ficasse preso aos aspectos históricos e culturais, seria bem mais interessante e funcional. No entanto, da forma como foi desenvolvido, até a ideia central dos rios fica escondida e relegada ao segundo plano. Ou, o que é pior, como pano de fundo para outras histórias que a escola quer contar – e que a gente fica sem saber exatamente quais são.

Gosto do início do desfile falando sobre os aspectos históricos dos rios, onde destaco as frases “a nascente do rio guarda os segredos do mundo” e “muitos são os segredos que repousam no leito do velho rio”. Acho até que essas passagens não deveriam estar no mesmo setor das crenças em torno da força dos rios (“ao mesmo tempo cultuavam seus desses e os mitos da criação a eles relacionados”), mas entendo essa setorização, especialmente por conta da frase “essas divindades representam as poderosas relações entre o homem e a natureza”, que tem tudo a ver com esse setor inicial.

O setor dos “seres dos rios” é Paulo Barros em seu estado mais puro. Se sinopse boa é aquela que te deixa curioso pro desfile, essa, pelo menos nesse trecho, me dá vontade de pular diretamente para a segunda de Carnaval para ver as loucuras que o homem irá aprontar com essas figuras assustadoras que criaram lendas e mistérios em torno dos rios. E o melhor: ao contrário do que costuma acontecer nesses casos, está tudo muito de acordo com o que é o enredo. Ou seja: Paulo Barros vai viajar dentro do enredo, o que é sempre mais salutar e acho até que potencializa suas criações.

Em “a vida pulsa na beira do rio” o enredo já começa a me incomodar um pouco. Não pela ótima citação às famílias ribeirinhas que tiram seu sustento da pesca, mas pelo final. Mais especificamente pela frase: “existem aqueles que perdem o rumo e o rio, mas o rio da Portela é doce e carrega as mágoas de quem sofre por desengano por ter perdido um grande amor”. Até consigo associar isso ao enredo, mas acho bastante forçado. Por outro lado, o setor “alma dos rios” é extremamente criativo e resgata relações muito interessantes entre as águas e a música – inclusive a norte-americana, em ponto de convergência com o enredo da Tijuca.

No final, o ponto mais espinhoso. “Meu coração se deixou levar”. Eu até entendo que um enredo desses na Portela torna irresistível a tentação de citar a música de Paulinho da Viola. Mas justamente por isso acho que foi a citação não foi bem feita. Na verdade, esse último setor parece mais um resumo de todo o enredo, falando de “águas azuis”, nascentes, religião e, sempre, da Portela. Sem muito cuidado, fala da “música que só um rio pode inspirar” em homenagem à Clara Nunes. Uma argumentação muito pobre e que prejudica bastante o tema.

mangueira_iIxFY7WEstação Primeira de Mangueira: “Só com a ajuda do santo”

Carnavalesco: Leandro Vieira

Autor da Sinopse: Leandro Vieira

Simplesmente o pior enredo do Grupo Especial do Rio de Janeiro. Por um motivo muito simples: é o anti-enredo. Não se apresenta como um enredo, não tem cara de enredo. É até um texto divertido, bem escrito, mas não tem características básicas para que possa ser encarado como um tema consistente para um desfile de escola de samba. Pelo contrário, sob esse ponto de vista, parece ser um resumo (pra lá de resumido) sobre o que o carnavalesco quer em seu samba e sobre o que ele vai representar em suas alas e seus carros.

É pouco. Bem pouco, convenhamos. A temática, que nem é exatamente inovadora (a diversidade religiosa do brasileiro já foi exaltada de formas diferentes algumas vezes), merecia uma amarração mais criativa. Até que a ideia central de “apelar pra tudo que é santo” é muito boa, mas precisa de algum sentido dentro de um enredo. Não se pode jogar santos ao léu ao longo de um texto e formar com eles todo o conjunto do que quer se apresentar. Quando isso acontece – e aconteceu nesse caso – ele fica pobre. Tanto na própria argumentação quanto no conteúdo. Os elementos do enredo passam a ser subestimados e a histórica fica sem começo, sem fim e completamente sem meio. Sai do nada para chegar ao lugar nenhum.

O texto mais curto dentre todos os 12 do Grupo Especial é também o mais confuso. Só no primeiro parágrafo bate-se três vezes na madeira, pega-se um galho de arruda, saúda-se São Benedito, comemora-se a congada e a festa de São João com direito a capelinha de melão. Claro que a ideia é mostrar justamente essa pluralidade de crenças, mas é preciso respirar um pouquinho, acredito. Não se dá maiores destaques a nenhuma delas e quem lê fica esperando uma explicação para aquilo tudo. Ela virá no Livro Abre-Alas, é óbvio, mas um enredo tem que ser bem explicado desde a sua sinopse.

E é assim que ele vai do início ao fim: com os mais diversos santos das mais diversas crenças sendo dispostos ao longo das linhas sem sequer destacar as relações mais íntimas de alguns deles com os seus devotos – ou pelo menos o porquê de serem adorados dessa forma. Lá no final apresenta-se, pelo menos, uma explicação para essa ajuda de todos os santos: “a Mangueira quer passar e comandar a procissão”. Certo, tudo isso é pela Verde e Rosa. Mas custava explicar um pouquinho melhor de onde vem essa múltipla adoração a todos os santos?

Em resumo: falta ao enredo aquilo que aparece na última frase; “só quem pode com mandinga carrega patuá”. Essa sim é uma grande passagem, pois faz o leitor captar parte da essência da história que vai ser contada. Da mesma forma, acho o “PS” muito inteligente: “Expedito, você que é dado ao impossível, será que fazia mal, chegar ao ouvido do pai, e interceder por mais este Carnaval?” Em coisa de três linhas encaixou-se um santo, a sua missão e também a sua relação com os desejos apresentados no resto do enredo. Se fosse esse o espírito do início ao fim, seria um enredo agradável. Como não foi, restou um enredo de nível surpreendentemente baixo.

Agora, do melhor para o pior, como eu classifico os enredos do Grupo Especial do Rio de Janeiro.

Acadêmicos do Salgueiro
Paraíso do Tuiuti
Beija-Flor de Nilópolis
São Clemente
Unidos de Vila Isabel
União da Ilha do Governador
Unidos da Tijuca
Acadêmicos do Grande Rio
Portela
Imperatriz Leopoldinense
Mocidade Independente de Padre Miguel
Estação Primeira de Mangueira

4 Replies to “Uma análise sobre os enredos do Grupo Especial do Rio de Janeiro – Parte 2”

  1. Boa análise, Léo, embora tenha achado o enredo da Manga muito bom, com uma sinopse de fácil entendimento. Aliás, a análise foi tão boa que motivou comentários carinhosos em um fórum de outro site, rs

  2. Parabéns pela análise!
    Sou portelense, mas, respeito sua opinião. Quando você diz que “mais uma vez a Portela exaltará a si mesma” eu estranho. Somos a mais antiga escola de samba, somos a maior detentora de títulos da história e estamos a 32 anos sem levar nada. Batemos na trave diversas vezes, mas, por ironia do destino (ou dos jurados) não levamos mais um caneco, AINDA!
    Os rios se mostrarão através dos olhos da águia, é normal que ela se ponha à nascente e absorva tudo o que faz parte desses rios.
    Não acho de maneira alguma que o nosso enredo seja inferior ao da Grande Rio e até mesmo da Tijuca. Fiquei extremamente triste em ver a nossa sinopse lá no final da tabela, justamente no ano em que Paulo Barros fez a sua melhor sinopse, a mais fechada e mais “redonda”.

    1. Acho que a Portela precisa explorar novos temas – como vem fazendo – sem precisar camuflá-los com uma auto exaltação. A sensação que passa é de que todo ano ela fala sobre a mesma coisa com outro pano de fundo.

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