André Diniz perdeu…

Esse foi um dos assuntos mais comentados nas últimas semanas no samba. Mais do que a vitória de qualquer parceria, o que mais chamou atenção foi sua derrota. No fim de semana do ocorrido, em qualquer quadra, em qualquer roda, antes que falassem de quem venceu, se ouvia “Viu que o André Diniz perdeu?”. Olha que o vencedor teve muitos méritos, a parceria de Arthur das Ferragens tem um senhor samba-enredo, mas o assunto era Diniz.

Acho que isso deve ser visto como um prêmio pelo André, um orgulho. André Diniz é tão grande no mundo do carnaval, que uma simples derrota, que compositores sofrem todos os dias, vira assunto. André é referência hoje, um dos maiores compositores de todos os tempos e um inconformado.

Eu não me canso de dizer que o gênio não muda o mundo, quem muda é o inconformado. É aquele que um dia quis inventar o fogo, inventar a roda, não ficou satisfeito apenas com a Europa e quis desbravar oceanos, o que quis voar… Poderíamos ser hoje um povo morando em cavernas com tacapes nas mãos se não fossem os loucos, os inconformados. Inconformados na ciência, nos esportes, política, economia, artes… André é um cara assim.

Ele já venceu tudo que queria e poderia no samba. Se o André cinco anos atrás decidisse não escrever mais sambas, já estaria na história, mas ele quis mais. Não quis mais simplesmente por ambição, vaidade, para ganhar dinheiro. Quis mais porque é um inconformado, um louco, um cara que sabe que pode fazer muito por sua arte, deixar sua marca e promover mudanças.

Já consagrado fez com seus parceiros o belo samba sobre Angola com perguntas e respostas na segunda parte como várias parcerias utilizam atualmente. Depois o histórico samba de 2013, o “Festa no Arraiá” que deu o título para a Vila. Prosseguiu fazendo bons sambas como do “Pai Arraia” de 2016.

E 2017 decidiu ser louco, inconformado, fazendo samba com acróstico em homenagem ao saudoso parceiro e um refrão invertido que lembra a Mangueira de 1984, que acabou seu desfile e voltou. Seu refrão foi e voltou de uma forma única, magistral, impactante como ninguém nunca tinha feito. Mais do que isso, juntou uma constelação para gravar o clip do seu samba mostrando o quanto é querido.

andrediniz2016Mas não venceu. Depois de dezesseis anos, perdeu o samba na Vila. Mundo cruel esse, já que certamente ele no período venceu alguns concursos que poderia perder e perdeu justo em um momento de genialidade. Esse samba não podia ficar fora da avenida? Poderia sim, tanto que ficará. A Vila desfilará com outro samba e que provavelmente será um dos sambas do ano.

Mas que pena não poder ouvir esse samba na avenida. Que pena não poder ouvir esse refrão. Que pena a Vila Isabel não poder desfilar com dois sambas em 2017. Algumas nem samba tem e ela teve dois e um entrará para galeria dos sambas imortais que não venceram.

Não sei como está o André nesse momento, não o conheço pessoalmente, mas, como compositor que sou, imagino que deva estar bem triste. Mas essa tristeza vai virar orgulho. Orgulho como temos dele.

Onde quer que eu vá
Buscando a sublime inspiração
Reluzirão lindo acordes
Indo ao encontro de uma letra imortal
Geralmente quando isso acontece
A Lua brilha ainda mais presente
Daí finalmente vem a canção
Operando nossos sonhos reluzentes

A canção que um dia me inspirou
Nunca sera esquecida
Dentro de mim vive, se emprenhou
Real em minha alma aquecida
Ela que me traz motivação

De continuar escrevendo e confesso
Imaginar nessa festa a cantar
Nosso povo delirando nos meus versos
Irradiando emoção pelo olhar
Zelando nossa arte popular

Obrigado, André Diniz.

Twitter – @aloisiovillar

Facebook – Aloisio Villar

https://www.youtube.com/watch?v=vE76axJWAIg

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11 Replies to “Obrigado, André Diniz”

  1. O texto é bom, mas eu acho que o autor deveria ter se informado mais antes de escrevê-lo.
    O estilo do refrão do meio do samba do Diniz já foi feito mais vezes. A primeira vez foi no concorrente do Zé Glória pra Mocidade Independente em 2015.

    André Diniz é um gênio sim, mas não confira a ele uma inventividade que não lhe pertence, assim tirando os méritos de quem a fez.

  2. Espero não ficar de má vontade com o vencedor na Vila. Ainda não caiu muito a ficha de que o genial samba do André não vai passar pela Sapucaí. Sei que o hino escolhido é de boa qualidade e torço muito para que leve a Vila a uma grande apresentação. Mas sei que quando a escola despontar no setor 1 vai bater aquela saudade do que nunca vivi, só para parafrasear outro gênio/inconformado, de outro gênero.

    1. Gil tem como você mandar pra aloisiovillar@gmail.com texto de no máximo 10 linhas sobre seu amor por Carnaval? Precisaria até segunda pra fechar com depoimentos de sambistas o meu livro de ficção sobre Carnaval e mandar para a edição. Abraço

  3. Acho que terei esse problema com a bonita obra escolhida também, sou “viúva” desde samba maravilhoso que não é maravilhoso apenas pelo refrão do meio, mas por um todo.

    1. O mais curioso é que o samba vencedor, que tem muita cara de Vila Isabel, bebeu exatamente na fonte do André, em especial na segunda/refrão final. É uma pena que os dois não possam ir à avenida – eu pessoalmente teria feito uma junção.

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