Obs: para a situação da eleição presidencial, clique aqui
Para a situação das eleições para o Senado, clique aqui
Além da eleição do novo presidente e de 1/3 do Senado, as eleições gerais americanas do próximo dia 8 também decidirão os ocupantes de todas as 435 cadeiras da Câmara dos Deputados, para um mandato de 2 anos.
Para controlar a Câmara são necessárias 218 cadeiras. É exatamente isso: os Estados Unidos renovam toda a Câmara dos Deputados de dois em dois anos.
Nos Estados Unidos, o voto é todo distrital, o que significa que, totalmente diferente do que o brasileiro está acostumado aqui, o país é dividido em 435 partes, chamadas de “distritos congressionais”; e em cada uma dessas pequenas partes há uma eleição majoritária, na qual o vencedor fica com uma cadeira na Câmara dos Deputados representando aquela porção territorial.
A cada estado é dada uma quantidade de deputados proporcional à população do estado. O estado com a maior bancada é a Califórnia, com 53 deputados. Sete estados possuem a bancada mínima de apenas 1 deputado. No caso do estado ter apenas 1 deputado, nem há que se falar em distrito: o distrito é o estado inteiro.
Na última eleição, a Câmara teve uma enorme maioria do Partido Republicano, com 247 deputados e apenas 188 democratas, sem nenhum independente.
Como são 435 corridas simultâneas ocorrendo em territórios pequenos e muitas vezes com população homogêneas, é mais complicado de acompanhar uma a uma cada uma das disputas. Porém, é possível afirmar que a Câmara tem sempre uma forte tendência para ter uma maioria republicana, tendo isso ocorrido em 8 das últimas 10 eleições. A última maioria democrata na Câmara ainda data da eleição de 2008, a mesma que elegeu pela 1ª vez Barack Obama como presidente.
Essa tendência ocorre pela soma de alguns fatores, mas dois deles são mais fortes hoje. O primeiro deles é da estrutura da demografia partidária americana e do voto distrital. Os democratas são mais fortes em estados grandes, com muitas cadeiras a oferecer como Califórnia, New York e Illinois. Só que, mesmo dentro desses estados, o eleitorado democrata é concentrado em fortes “bolsões” urbanos e permite que vários desses distritos no interior tenha uma forte prevalência republicana. Disso resulta que o domínio que o Partido Democrata mostra nesses estados é menos refletido nos resultados da Câmara dos Deputados.
Por exemplo, a Califórnia não sabe o que é eleger um presidente ou senador republicano desde 1984, porém sua delegação atual na Câmara dos Deputados tem 39 democratas e 14 republicanos. Em New York, o último senador republicano eleito data de 1992. Porém a bancada de New York tem 18 democratas e 9 republicanos. Enquanto isso, o domínio republicano em estados médios, especialmente no sul e no norte dos Estados Unidos, é gigante, com apenas 1 ou 2 cadeiras para os democratas. O percentual final de domínio acaba sendo maior do que nos estados democratas.
Para complicar ainda mais a situação democrata, quem divide o estado em distritos é a própria assembleia legislativa estadual e o governador do estado. Ou seja, muitas vezes é uma divisão política feita para beneficiar o partido que estiver comandando o estado naquele momento. Da última vez que houve uma redistribuição da delegação dos estados, a maior parte dos estados alterados estavam com governos estaduais nas mãos dos republicanos. Obviamente, eles fizeram divisões que favoreciam um maior ganho de cadeiras republicanas e isso aumentou a tendência de vitória republicana nas sucessivas eleições.
Ao menos os dois casos mais escabrosos nesse sentido, Virginia e Flórida, foram redesenhados pelas justiças estaduais para essa eleição por violação, respectivamente, de uma lei nacional e da Constituição Estadual. Só na Flórida estima-se que os democratas terão um ganho líquido de 3 cadeiras em uma bancada de 27. Na Virginía o ganho pode chegar a 2 cadeiras líquidas em um total de 11.
Para piorar, as eleições de 2014 foram uma tragédia para o Partido Democrata. Disso resultou esse péssimo resultado de 247 x 188, que foi o fundo do poço dos democratas na casa em muito tempo. Por isso, não há mais muito o que perder para o Partido Democrata: apenas 2 das atuais 188 cadeiras são de provável mudança para mãos republicanas, enquanto uma 3ª está totalmente indefinida.
Já do lado republicano, é quase certo dizer que pelo menos umas 7 cadeiras mudarão para mãos democratas e outras 17 ou 20 estão indefinidas.
Se o leitor está com a matemática em dia, perceberá que apenas tais disputas não são suficientes para modificar o domínio republicano na Câmara dos Deputados. Por isso é considerado entre os analistas que a probabilidade dos republicanos manterem a maioria é superior aos 90%.
Porém, será o fim do “rolo compressor” republicano e a esmagadora maioria de 59 cadeiras. As projeções convergem para uma maioria de 230 ou 235 cadeiras para os republicanos contra 200 ou 205 dos democratas.
Os democratas ainda tentam ganhar mais umas 7 ou 10 cadeiras “improváveis mas possíveis” nessa última semana na esperança de deixar a maioria republicana inferior a 10 cadeiras, o que permitiria a Clinton na presidência negociar apoios republicanos no varejo para reverter a maioria em determinadas votações.
Porém a ressurgência de Trump nas pesquisas nos últimos dias, mesmo que leve a ponto de não retirar o favoritismo de Clinton, pode atrapalhar bastante esse rally final dos democratas para a Câmara dos Deputados.
Agora essa coluna voltará na segunda-feira, véspera das eleições, com a atualização do panorama que fora traçado nessas últimas três semanas e o palpite definitivo do resultado do colégio eleitoral presidencial, mesmo que esse ano sejam palpites bem mais difíceis do que foram há 4 anos atrás.
Imagens: Arquivo Ouro de Tolo
[related_posts limit=”3″]