Esta coluna surgiu no início da semana, assistindo ao Bar Apoteose. Vi nosso Pedro Migão falar sobre o maior samba da história do carnaval de São Paulo; logo após outras figuras importantes da imprensa carnavalesca também opinaram sobre o assunto. Então pensei, os fãs do gênero musical conhecem de cór e salteado as principais obras cariocas, mas será que sabem quais são as grandes que embalaram desfiles por aqui?

Deixo claro que trata-se de um ranking pessoal, que leva em conta qualidade e representatividade; e como qualquer outro não tem a intenção de buscar unanimidade, mas sim de trazer à tona a tradição da nossa festa e manter viva a chama do samba-enredo paulistano.

Vamos a eles:

10 – Paulistano da Glória 1978 – Epopéia da Glória

Este samba inaugura nossa lista pelo simples fato de a partir dele o gênero paulistano começou a ganhar força. Em 1978 foi realizado no programa “Fantástico” o 1º Concurso Nacional de Samba-Enredo, onde a obra vencedora foi esta, superando a safra do Rio de Janeiro.

Composta pelo grande Geraldo Filme, a “Epopéia da Glória” canta a Revolução Constitucionalista de 1932 e a luta do povo paulistano. Samba descritivo, que é fiel aos fatos e tem uma levada reta, mas que também tem uma variação melódica bonita no último bis até o refrão principal “Laiá, laiá/Silêncio na cidade/E um brado se ouviu, liberdade”.

9 – Nenê de Vila Matilde 1983 – Meu gosto, abraçado a ilusão

Este fecha um trilogia de grandes sambas consecutivos nessa gigante do nosso carnaval. Após “De axé ao sonho de Candeia” em 81 e “Palmares, raiz da liberdade” em 82 foi a vez Armando da Mangueira e cia. acertarem a mão para 1983.

Ter a ilusão como tema permite um resultado lúdico musicalmente e cm essa sensibilidade o samba utiliza o “sou” para passear por todo o enredo, tanto durante a primeira, como no refrão do meio “Sou a viola, sou a lua que clareia/Realidade de um sonho que vagueia/Sou ilusão, com o samba pé no chão”.

Ao todo são dez versos que começam com a mesma palavra, mas com melodia diferente entre primeira e segunda. Já no refrão principal algo impensado para os dias atuais; nada de clichês ou exaltação a escola, apenas um singelo “La-la-laia la-la la-la-laiá, Ilusão”

8 – Colorado do Brás 1988 – Quilombo Catôpes do Milho Verde

Essa aqui é a nossa “Quizomba”, foi o samba que embalou a Avenida Tiradentes naquele histórico ano de 1988. O gigante Dom Marcos foi um compositores e embalou na avenida os imortais versos “É bambaquerê, que faz o corpo remexer/É bambabalá, sacode pra lá e pra cá/É arruda de Guiné/Espantando todos os maus de olhar”, um refrão do meio com uma linda melodia.

O Quilombo mineiro de Catôpes foi cantado em uma estrutura diferente, pois eram duas estrofes de “bis” antes do refrão principal, que possuí uma frase utilizada em campanhas pela igualdade racial na época, “Não criou raças, Deus apenas criou vidas”

A título de curiosidade vale destacar que a escola caiu naquele ano, pois desfilou sem nenhuma alegoria; três carros quebraram um dia antes do desfile e outro não foi terminado a tempo.

7 – Mocidade Alegre 1980 – Embaixada de sonho e bambas

Quando você vai a quadra da Mocidade Alegre e este samba é entoado, certamente vai sentir uma energia diferente. Barbosa, Crispim e Praxedes fizeram mais que um samba-enredo, criaram uma espécie de oração do componente da “Morada do samba” para a suas raízes.

É a típica levada afro, em cadência e também na letra; a primeira do samba começa com um “bis”, parece com a intenção de anunciar o início do cortejo. A partir daí a história é contada, mas com firmeza e melodia, no refrão do chama a atenção que o ver “Dunga tará sinherê” é repetido três vezes, até ser seguido por “Olorum Dijê”, o que remete claramente a uma louvação.

Este foi o quarto título da escola, que só voltaria a ser campeã em 2004 e a partir daí se tornar a potência que é hoje.

6– Gaviões da Fiel 1995 – Coisa Boa é pra sempre

Estamos diante de um samba que transcende comentários de letra e melodia; o desfile foi considerado o melhor de todos os tempos em São Paulo e de quebra a obra caiu no gosto popular. Diria que é um efeito semelhante ao “É hoje” da União da Ilha, aquele samba-enredo que até as pessoas não ligadas ao carnaval sabem cantar, afinal quem não sabe do que se trata ao ouvir os versos “Me dê a mão, me abraça, viaja comigo pro céu”?

Tenho a impressão de que o fato de ser a escola ligada a nação corintiana contribuiu, mas o samba também é muito bom. Composto por Grego e cantado por Ernesto Teixeira ele tem uma melodia gostosa de se ouvir e é construído com umas sequência de rimas variadas, uma diferente da outra.

Outro ponto que chama a atenção é que os dois refrãos são colados um no outro, portanto não existe uma segunda do samba, somente uma primeira longa, mas bem feita.

5 – Cabeções da Vila Prudente 1981 – Do Iorubá ao reino de Oyó

Você provavelmente nunca ouviu falar desta escola, até porque ela não existe mais. 1982 a Cabeções se fundiu com a Príncipe Negro para fundar a União Independente da Vila Prudente, mas o que foi para a avenida um ano antes jamais será esquecido.

O compositor é Dom Marcos, que estreou também como intérprete em São Paulo com esta obra, regravada como música pelo cantor Leandro Lehart; lembra do “Bambaquerê” e do “Bambabalá” lido acima? Ele está presente aqui de novo, com outra melodia.

De pegada firme e com imponência, assim é contada a história de xangô, com direito a uma louvação no refrão do meio, o único, pois não há refrão principal.

4 – Acadêmicos do Tatuapé 2014 – Poder, fé e devoção. São Jorge Guerreiro

https://www.youtube.com/watch?v=T5rv5E9QUME

Temos aqui o representante contemporâneo deste ranking. Obviamente é bem diferente dos demais aqui listados, este segue o molde dos sambas atuais, principalmente em São Paulo, que ninguém foge do padrão, mas ele é muito forte e bonito, com um enredo santificado deve ser contado.

Vaguinho foi um dos compositores e contou ao lado do grande Wander Pires no desfile que fechou o carnaval naquele ano, já com o dia totalmente claro, por isso no refrão temos “Eu amanheço nos braços da fé/ E no clarão da lua sou Tatuapé”

Mais uma vez temos uma oração no refrão do meio, o que emociona pois o samba foi escrito em primeira pessoa, portanto trata-se do devoto de São Jorge contando a história e clamando seus sentimentos pelo santo Guerreiro.

Na minha opinião é o melhor samba que já passou pelo Anhembi (1991 em diante)

3 – Unidos do Peruche 1985 – Água Cristalina

Já ouviu alguma vez um samba com três refrãos e em “bis”?

Pois bem, Ideval e Mestre Lagrila abusaram das repetições e das variações melódicas, ousaram a ponto de colocar um outro refrão após o espetacular refrão principal, que é sempre entoado antes dos desfiles do Peruche.

Um samba que tem uma mulher como protagonista, a Mariana, ficou ainda melhor cantado por outra. Eliana de Lima já era uma realidade na folia paulistana e deu show com esta obra cheia de swingue e repleta de bossas da bateria.

2 – Camisa Verde e Branco 1982 – Negros Maravilhosos “Mutuo Mundo Kitoko”

Bom agora o assunto é totalmente diferente, pois nesse samba não há nenhum refrão, somente um “bis” em um falso refrão do meio e um “la-la-laia la-la-laia ô, ô, ô” antes da primeira. O enredo é sobre o direito do negro e a falta de oportunidades para eles.

Considero a obra simplesmente genial, começa com uma ilustração de um escravo com o termo “osso de canela” preso a uma corrente; depois segue o tom melancólico com “Quem nunca ficou chorando/Sempre viveu cantando/fingindo contente” e mais a frente faz a pergunta indignada, “Por que só no tríduo de Momo que o negro é genial.

É um samba triste, que toca em um tema muito importante de uma maneira jamais feita, por muito pouco não atinge o topo do ranking…

1 – Leandro de Itaquera 1989 – Babalotim – A saga dos Afoxés

“A benção pai Oxalá, os tambores vão rufar…” Como é bom saber que em 2017 a Leandro de Itaquera irá reeditar esta obra prima composta por Victor e cantada com toda a competência de Eliana de Lima em uma estrutura jamais vista.

O samba começa com o refrão “ô, ô, ô, eu vim de longe cruzei mares quem diria…” numa evocação aos negros ancestrais que desembarcaram no Brasil, seguido por uma primeira com quatro versos que antecedem um “bis” colado no refrão do meio, este termina de maneira suave na repetição e parece que faz parte da segunda. Após três versos um novo “bis” que antecede um refrão, isso mesmo, ele começa e termina com refrão, um na sequência do outro na retomada.

No meu conceito este é o maior samba do carnaval paulista, de letra tocante, ar de tristeza misto com esperança e uma melodia que faz qualquer bateria e folião brincarem, mesmo com um enredo sério.

Esta é a minha lista, espero ouvir mais sugestões sobre obras que não entraram aqui e desejo, acima de tudo que você, leitor, passe a ouvir mais os belos sambas do carnaval paulista.

7 Replies to “Os 10 maiores sambas do carnaval paulista”

  1. Assim como no Rio, o bom é saber que esta lista sempre vai soar diferente por todo mundo que postar, o que não tira o brilho da tua escolha.

    Podemos citar também Vai-Vai 2011, Nenê 1997, Mocidade Alegre 2007, Peruche 2016, Camisa Verde e Branco 1988, Rosas de Ouro 1994, Gaviões da Fiel 2002…

    1. Sim Rodrigo, longe de mim querer impor uma verdade, a ideia é justamente que as pessoas ouçam os grandes sambas paulistanos e montem suas próprias listas.

      Obrigado pela Opinião!

  2. Boa tarde!

    Prezado Miguel Fortunato:

    Que lista maravilhosa!
    Eu só tiraria o samba da Gaviões de 1995 por entender que ele é mais uma junção de fatores do que uma música de qualidade. A Agremiação Paulistana fez tanto sucesso com sua arrebatadora vitória na época, que “inspirou” a criação da Nação Rubro-Negra no Rio, a qual só durou 1 carnaval.

    Atenciosamente
    Fellipe Barroso

    1. Sim Felipe concordo plenamente com você.

      Coloquei Gaviões 1995 pela representatividade do samba, que é o mais popular do carnaval paulistano.

      Um grande abraço!

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