Essa semana gravei um vídeo para meu amigo Leonardo Oliveira, que tem um blog chamado “Blog do Léo”, e nele falei dos 100 anos do samba. É um tema bem interessante, que achei ser uma boa trazer pra cá também.

Em 2016 faz 100 anos que o primeiro samba foi registrado na “Biblioteca Nacional”. O samba se chama “Pelo telefone” e foi feito por Donga. Existem muitas controvérsias sobre tal fato. Uns dizem que já existiam sambas quando o mesmo foi registrado, outros que “Pelo telefone” nem samba é e sim um maxixe, mas o fato é que os versos “O chefe da polícia pelo telefone mandou avisar/ Que na Carioca tem uma roleta para se jogar” entraram para história do Brasil.

Desde então, o samba virou a maior expressão cultural e popular do país. No começo marginalizado, o samba era a expressão cultural dos negros recém libertados de senzalas e agora moradores de favelas, das camadas mais populares, dos pobres, a voz de toda uma gente. Foi tratado com preconceito, racismo, para a elite era coisa de vadio, vagabundos e prostitutas. Não era fácil ser sambista, era tratado com desdém, tinha que ser valente. Homens se fantasiavam de baianas em suas escolas de samba para debaixo das roupas esconderem navalhas e protegerem suas escolas enquanto desfilavam. Assim foi formado o caráter do samba, sua história.

Gente como Cartola, Natal, Paulo da Portela, Dona Zica, Dona Neuma, Silas de Oliveira, Jamelão, Candeia, Ismael, Martinho da Vila e tantos outros ao longo das décadas mudaram essa visão do samba, impuseram respeito e o que antes era marginalizado ganhou a zona do Sul do Rio, o restante do Brasil, a casa do doutor, o salão de festas da elite…

…e hoje parece ter esquecido de onde veio.

Samba hoje é da elite, é do camarote, da pulseirinha VIP, do baldão com litrão, esqueceu a favela e foi pra mansão. Está padronizado, hoje não sabemos o que é samba e o que é sertanejo universitário, samba hoje canta a ostentação, canta que tem mil mulheres e vai perdendo sua raiz.

O samba-enredo vai pelo mesmo caminho. Carnaval hoje não é mais resistência, voz do excluído, foi se o tempo do “Mesmo proibido olhai por nós”. Carnaval hoje é do sistema, do status quo, pede voto em sua quadra para candidato da Universal e apoia candidato mauricinho. Não faz mais crítica, não é mais a voz do descontente.

O samba ao longo dos anos perdeu espaço. Quem não gosta de samba apenas por “modinha” hoje está restrito a um gueto no qual cada vez menos adeptos lhe seguem. O carnaval perde espaço na TV, nas rádios e vai se segmentando, dependendo de mídia alternativa voltada ao meio. Enquanto isso, outro ritmo sofre preconceito, racismo, virou a voz do excluído, do negro, do favelado, é muitas vezes tratado como lixo e mesmo com músicas duvidosas deu voz a quem não tem com quem falar.

Estou falando do funk.

O samba me deu tudo. Desses 100 anos do samba vivo há 19 nele. Mais que vitórias em sambas enredo do grupo especial do Rio ao E,mais que prêmios de carnaval, participar como analista dos maiores sites o samba me fez homem, me fez reconhecer quando alguém é superior a mim e me fez vencedor, me fez perceber que sou nada sozinho e sempre preciso de um parceiro, me fez conhecer e adquirir cultura como nem na escola tradicional consegui e é o meio que mais respeita os mais velhos como na reverência que tem com velha guarda e baianas. O samba me fez conhecer os melhores amigos da minha vida. No samba virei alguém, ganhei auto estima.

Por ser tão devedor ao samba vou lutar até onde puder para que não perca sua raiz. Que se renove sim, mas mantenha sua essência e nunca esqueça de onde veio. O samba vem do grito do negro na senzala que batucando mostrou que estava vivo e tinha orgulho de ser quem era. O samba é o sorriso desdentado de quem não teve oportunidades na vida, mas consegue ser feliz assim mesmo. É a voz que clama por justiça e igualdade em meio a melodias e letras.

Dessa forma virão mais 100 anos gloriosos. É isso que todos nós esperamos.

E que a gente não perca o prazer de cantar.

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