Nas últimas semanas ocorreram duas coisas interessantes e que na minha visão se ligam.
Um blogueiro famoso na internet disse, em mais uma de suas polêmicas, que só considera torcedor aquele que é sócio torcedor ou frequenta estádios. Polêmico isso e, evidentemente, dividiu opiniões entre pessoas que concordam ou não. Sua alegação é que essas pessoas, ao contrário de torcedores de sofá e que algumas vezes nem sabe escalar o time, contribuem com o clube pagando ingressos ou com a mensalidade de sócio.
Alguns dias depois o Flamengo fechou um grande contrato de patrocínio com a Carabao, empresa de energéticos da Tailândia. As cifras chegam a 200 milhões de reais em seis anos rendendo quinze milhões no primeiro ano, quando ficará com sua logo na manga do clube e passando a trinta e cinco anuais a partir de 2018 quando for pro peito.
Em que as duas situações se ligam? Eu explico.
A Carabao é uma empresa que está se lançando no Brasil, então mais do que nunca quer visibilidade. Por quê então escolheu o Flamengo? Porque o dono da empresa é fã do Marcio Araujo? Não. Mais importante, por quê o Flamengo tem 75 mil sócios contribuintes e botou quinze mil pessoas nos jogos em Cariacica? Com certeza também não.
Por quê fechou esse contrato milionário com o Flamengo então? Muito simples, porque o clube tem trinta e cinco milhões de torcedores espalhados pelo Brasil, entre eles no mínimo trinta e quatro milhões com o perfil que o blogueiro desprezou, o perfil de torcedor que não compra produtor oficiais, não vai a jogos, não é ST nem sabe escalar o time.
Ninguém pagaria o que a Carabao vai pagar para um clube com 75 mil torcedores, ninguém pagaria o que a Globo paga por ano a Flamengo e Corinthians por causa de seus STs, até porque, se fosse assim, pagariam bem mais a Inter e Palmeiras do que ao Flamengo.
Por isso os clubes e as empresas tem grandes nomes do marketing e o blogueiro é apenas um blogueiro. Esses homens de marketing sabem que a massa é importante, que mesmo sem ir a estádio, ser ST ou ter a camisa oficial ele ama seu clube e faz tudo dentro do possível para ajudar seja bebendo um energético ou mesmo vendo seu time na TV.
Algumas pessoas, talvez por terem dinheiro, não entenderam que o Brasil passa uma crise não só financeira como moral. Todos adorariam ser sócios de seus clubes, ir a todos os jogos ou comprar uma camisa por semana. Mas o povo da classe média alta não consegue entender que mutos não tem dinheiro para isso.
Ir a um estádio hoje em dia não é barato, foi-se o tempo do pobre desdentado com radinho de pilha no ombro curtindo a geral e temos que pensar que muitas vezes esse cara quer ir com os filhos. Além de ingressos, tem que pagar transporte e a alimentação no estádio, que também é cara. Uma aventura a um estádio de futebol pode passar fácil dos 200 reais. Quantos hoje têm isso?
Ainda tem o lado da crise moral. Você levaria seus filhos a um estádio de futebol com todos os perigos que rondam o trajeto? Como a violência em todo o país? Aos perigos do estádio com torcidas que brigam até mesmo entre si?
Uma camisa oficial também pode passar de 300 reais, o que pode ser mais barato é o sócio torcedor, mas mesmo que seja 30, 40 reais por mês tem gente que não tem esse dinheiro sobrando. Detalhe, 30, 40 reais por mês é para quem tem cartão, boleto tem que pagar a anuidade.
Os clubes e suas torcidas adoram falar que são 20, 30, 35 milhões de apaixonados, mas discriminam em uma hora dessas. O Flamengo teve o BAP, um arrogante diretor de marketing que desprezava o torcedor que não era consumidor, saiu, entrou um não tão conhecido e amarrou contratos muito melhores porque em vez de brigar com torcida usa a seu favor.
Torcedor, seja qual for, é importante, é ele que mantém seu clube vivo, não os sócios. Mesmo aquele que nunca pisou em um estádio. Ninguém tem o direito de medir paixão.
Amor não se mede.
Twitter – @aloisiovillar
Facebook – Aloisio Villar
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Excelente texto!
Nota-se, pelo comentário, que o blogueiro não tem muito conhecimento de marketing e talvez falte a ele o básico da teoria dos 4P’s. Alias o termo ‘blogueiro” está virando quase um “atestado de qualidade”, onde a pessoa se acha conhecedor de qualquer assunto.