Curioso como um simples abraço pode causar tanta comoção e nos fazer parar pra pensar…

Eu perdi a conta de quantas vezes nestes quase seis anos que escrevo neste aprazível blog falei do ódio, da intolerância que nos cerca em tempos atuais. Não existe mais simpatia, empatia, educação, cordialidade, nada disso. O advento das redes sociais foi uma coisa maravilhosa, eu devo muito à internet por “N” conquistas que tive na minha vida, mas não há dúvidas de uma coisa. Antigamente as pessoas tinham vergonha de serem idiotas, com a internet, têm orgulho.

Muito desse orgulho vem do anonimato que a internet ajuda a trazer. Um dos exemplos foi que em 2016 fiz vídeos com os ensaios técnicos para o blog, mas pela quantidade de postagens anônimas querendo zoar e nenhuma medida do blog para acabar com o anonimato (sim, eu sou amigo de todos do blog e tenho liberdade para corneta-lo aqui dentro até porque poucas vezes vi democracia como no Ouro de Tolo) não fiz esse ano e faço em outros espaços de internet. Uma pena porque todos os leitores perderam a chance de ver vídeos in loco dos ensaios por causa de meia dúzia de bundas moles que usam a covardia do anonimato.

Enfim, a internet reflete esse tempo de ódio. Da internet foi para as ruas e provocou uma cisão no Brasil. Hoje o país está dividido entre “coxinhas” e “mortadelas” e não existe meio-termo, se você fizer alguma crítica a um lado e defender algo que o outro fez pronto, já é taxado. Nenhum dos dois lados é perfeito, todos tem telhado de vidro, mas se comportam como em uma luta entre o bem e o mal esquecendo que não existe ninguém totalmente bom ou mau.

Hoje em dia se alguém tropeçar na rua e machucar o dedo mindinho aparecerão mil “teorias” da conspiração de um lado acusando o outro. A coisa está tão feia que acusação de assassinato vem sendo algo do mais leve. Quando alguém é preso ou morre do outro lado então é festa. É como se estivéssemos em uma guerra e um lado conseguisse arrancar a cabeça do lado inimigo.

A coisa é tão escrota que uma pessoa tem morte cerebral, como o caso da dona Marisa, e em vez de lamentarmos o ocorrido com um ser humano temos que nos preocupar em fazer postagens em Twitter e Facebook avisando que iremos bloquear quem zoar ou comemorar a morte. Sim, parece que voltamos ao tempo das cavernas. A ignorância e o retardo chegam a tal ponto que temos que nos preocupar com quem comemora morte, isso é revoltante.

No meu Facebook apareceram quatro pessoas, entre elas um parente e três conhecidos, infelizmente esse tipo de gente não dá para bloquear porque fazem parte do nosso dia a dia, mas podemos andar na rua e quando vermos de longe pegar o celular, atravessar para a outra calçada e fingir que estamos falando nele e não vimos. Mas no âmbito geral tivemos Procurador da República falando em abrir champanhe e cirurgião instruindo como matar.

E antes que me chamem de “mortadela” isso não é porque a esquerda é boazinha e a direita malvadona. Se fosse com o Jair Bolsonaro a reação seria parecida. Como eu digo sempre não desejo nem comemoro a morte de ninguém porque a morte não é de direita nem esquerda, ela é imparcial e tem ótima memória não esquecendo ninguém. Hoje zoamos a morte de alguém, amanhã choramos a morte de uma pessoa querida pelo mesmo motivo. É uma grande imbecilidade achar que a morte de alguém é punição porque se formos ver assim todos nós seremos punidos um dia.  Adolf Hitler morreu e Madre Teresa de Calcutá também, se a morte é punição os dois foram da mesma forma?

Por isso, para desespero dos intolerantes e haters um abraço foi tão significativo. Falo, evidente, do abraço entre os ex-presidentes Lula e Fernando Henrique Cardoso.

Entre as pessoas normais (não incluo Bolsminions) Lula e FHC representam os extremos. Lula é o ídolo dos mortadelas e FHC dos coxinhas e os dois deixaram seus talifãs de queixo caído dando um abraço cordial e respeitoso no hospital enquanto dona Marisa se aproximava da morte. O mesmo abraço que Lula deu em FHC na morte de dona Ruth.

O que quer dizer isso caro leitor?

É o simples, o básico, o que qualquer pessoa que teve um mínimo de educação na vida devia saber. Dá para ser adversário, pensar diferente e não se odiar, não ser inimigo. Lula e FHC não se odeiam e para dizer a verdade são mais parecidos que se imagina. Lula e FHC caminharam juntos na luta contra a ditadura militar, sofreram para fazer o Brasil voltar a democracia e sim, mesmo tendo visão antagonista de FHC e seu partido vejo méritos em seu governo, acho que foi em seu governo que o Brasil começou a melhorar, deu um levante que explodiu no governo Lula e começou a decair no primeiro governo Dilma chegando ao fundo do poço com o nefasto.

Detalhe, falando no nefasto. Temer também foi ao encontro de Lula e os dois se abraçaram mesmo com a claque gritando “assassino” do lado de fora. Não gosto do Temer, acho uma pessoa baixa, sem escrúpulos, mas se os petistas pedem trégua, pedem que se respeite dor, tinham que ter respeitado aí também porque se o próprio Lula que perdeu a esposa, que viu o partido que comanda deixar o poder devido a artimanha de Temer lhe abraçou ninguém tem o direito de gritar nada.

Lula não é perfeito, apesar de para mim ter sido um ótimo presidente. Muitas acusações caem sobre ele e sinceramente não boto a mão no fogo por sua honestidade. Mesma coisa Fernando Henrique, mas não tem como negar que os dois estão na história do Brasil e o abraço entre eles é de uma grandeza enorme.

Descanse em paz, dona Marisa. Não foi a Lava-Jato que lhe matou como acusou a esquerda, não foi o sofrimento por aguentar calada os trambiques de Lula como disse a direita. Dona Marisa morreu porque a morte faz parte da vida e todo mundo passará por isso, seja um mortadela seja um coxinha.

Mas enquanto isso não ocorre que de um abraço possa nascer mais afeto entre nós. Ok, sinceramente não acredito nisso, mas quem sabe?

Todos morrem, mas dizem que a esperança é a última.

Um abraço para vocês.

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