Parece que estou dando voltas, estou monotemático, mas a culpa não é minha é do mundo.

Semana retrasada escrevi sobre a segunda chance e o quanto isso é importante já que somos todos falhos, fracos e precisamos saber dar a volta por cima, mas para isso é necessário o voto de confiança. Semana passada escrevi sobre o abraço entre Lula e FHC perante a morte de dona Marisa e no quanto esse abraço poderia desarmar o ódio latente que existe no Brasil.

Pois bem, mais um episódio de ódio e intolerância ocorreu, mais um episódio que não foi permitida a segunda chance e ocorreu no carnaval.

A passista Janna Lima (que é minha amiga de Facebook e nem sabia) foi filmada bailando com o pavilhão da Unidos da Tijuca vestida de passista e isso causou indignação entre as porta bandeiras, pedidos de desculpas da segunda porta bandeira da escola, responsável pelo pavilhão, e grande repercussão. O que fez a direção da Unidos da Tijuca? Desligou a passista da escola sumariamente.

Evidente que não é legal bailar com o pavilhão não sendo a porta bandeira, fere a ética das escolas de samba e pegou mal o vídeo. Dentro desse código de ética é pior ainda dançar com trajes sumários, ok, mas fica a pergunta. Precisava desligar a menina da escola? No meio de tantos ataques alguém perguntou se ela sabia que não podia fazer isso?

Esse episódio retrata bem o Brasil de hoje. Não procuramos o diálogo, pior, não procuramos ensinar, educar, preferimos a punição sumária do que explicar o que pode e não pode fazer. Pra que esse “carnaval” todo? Bastava a direção de carnaval chamar a passista, dar uma bronca nela, mostrar que não pode fazer e fim de papo. Se quisesse punir, que sou contra, tirava de alguns shows da escola onde passistas ganham dinheiro e pronto. Pra quê a pior das punições?

A Janna saiu como a errada da história, a vilã, aquela que ofendeu o pavilhão nessa era de hipocrisia que vive o país e que sempre cercou o carnaval. Carnaval que sempre explorou a nudez feminina ou as roupas sumárias para se vender, cansou de usar as meninas como produto exportação, usa e abusa da sensualidade e da sexualidade e na hora que uma dessas meninas que tanto dinheiro e marketing dão para as escolas de samba tem a “audácia” de pegar o pavilhão de suaagremiação é punida.

Veja bem, “menas” né? Como diria o outro, “bem menas”. Não conheço a Janna, nunca conversei com ela, mas tenho certeza que ela não fez isso por maldade ou para ofender a Tijuca e tem atos feitos em escolas de samba que podem ter certeza ofendem bem mais que seu gesto. Saber, por exemplo, que muitos dos que já tiveram cargos em escolas ou entidades que lhe representam em sua história tiveram negócios escusos, foram presos ou foragidos da justiça é pior. Os preços exorbitantes cobrados por um ingresso, o péssimo sistema de vendas do tempo das cavernas ou a falta de condições mínimas ao amante do samba que vai a ensaios técnicos também.

O que falar do preço das fantasias? Da forma que algumas comunidades são tratadas por diretores de harmonia? Das roupas pesadas que as baianas tem que usar? Do pouco caso que a Globo faz com as escolas e suas vinhetas com o samba menores que as propagandas do Youtube? Existe muita falta de respeito ao samba, escolas e sambistas no carnaval. O bailado de uma passista com um pavilhão é o menor delas.

Eu falei várias vezes, existem poucos meios mais preconceituosos que o samba. Gay no carnaval tem que ser o tipo espalhafatoso, é inadmissível no meio um mestre de bateria ou intérprete gay. No Rio não temos nenhuma intérprete como primeira voz na Marquês de Sapucaí e nem mulher comandando bateria. No samba departamento feminino é aquele que cuida da cozinha e poucas são as presidentes de escola que quando são atacadas são de forma sexista como ocorreu com a presidente do Salgueiro em sua final de samba para o carnaval 2016. Se o homossexual não for carnavalesco, passista ou trabalhar em barracão e ateliê não serve, mulher se não for a mãezinha da feijoada ou a baiana tem que ser o pedaço de carne que sai na frente da bateria ou como passistas. Por isso a indignação e a demissão. Rebolar pode, pegar o pavilhão não.

Mais do que isso. Laíla querer botar as baianas de peitos de fora, pode, passistas com a bandeira, não.

Mais do que erguer bandeira de escola de samba temos que erguer a bandeira do diálogo, da conciliação, a bandeira do afeto. Está faltando isso no carnaval e mundo. Toda minha solidariedade a Janna Lima que já está na Mocidade Independente. A Mocidade desde os tempos de Fernando Pinto é ousada, libertadora e mais uma vez mostra isso. Além de inteligente porque assim criou marketing positivo.

Com a bandeira do afeto, o samba não atravessa.

E a vida segue em harmonia à sua evolução.

Twitter – @aloisiovillar

Facebook – Aloisio Villar

2 Replies to “A bandeira do afeto”

  1. Espetacular texto, Aloisio!! Realmente, falta um pouco mais de compreensão em toda a sociedade.

    E eu já achei uma escola pra se dar mal na avenida!!! Quanto à Mocidade, maior propaganda positiva não haveria!!!

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