Domingo foi um dia épico…

Não apenas porque tivemos Beija-Flor, Grande Rio e Ivete numa Sapucaí superlotada ou porque o Vasco tomou um sapeca iaiá do Fluminense. Domingo foi especial desde a manhã porque dois grandes inimigos se enfrentaram.

Inimigos? Não, não mesmo. Craques do nível deles em um esporte que prima pela fidalguia (McEnroe à parte) não permitem espaço a isso. Dois grandes adversários, dois gênios e acredito que muito da genialidade de um vai do fato de ter o outro como adversário.

Evidente que estou falando de Roger Federer e Rafael Nadal na épica final do Australian Open 2017. Sou um fã de tênis desde pequeno, comecei a acompanhar na época de John McEnroe, Ivan Lendl, Boris Becker, Mats Wilander passando por Jim Courier, André Agassi, Pete Sampras e vi o inacreditável, vi um brasileiro comandar o tênis na, infelizmente, rápida passagem de Gustavo Kuerten pelo esporte.

Depois veio a Era Roger Federer. Em 2003, 2004 o cara começou a comandar o tênis de um jeito que parecia ser imbatível. Até poderia ser se um pouco depois não surgisse Rafael Nadal.

Federer é artista, é técnica, poesia, elegância. Nadal agressividade, raça, coração, superação. Dois gênios completamente diferentes no estilo e que com essa diferença se encaixaram numa das maiores rivalidades da história do esporte.

Federer ganhava tudo e de todos, menos de Nadal. Curioso porque passamos anos ouvindo isso, que suíço era o melhor tenista de todos os tempos, mas seu jogo, não encaixava com Nadal, era freguesaço do “Touro Miúra”  e os números comprovavam tudo isso.

Federer era o maior vencedor de Grans Slams, 17, ao mesmo tempo só vencera finais de Slam contra Nadal em Wimbledon e em 34 partidas entre os dois vencera apenas 11.

Parecia uma coisa definitiva. Evidente que o tempo chega até para os gênios e Federer começou uma lenta, mas gradual decadência. Parou de vencer grandes torneios, depois de chegar nas finais e ano passado o físico lhe tirou seis meses do circuito.

Nadal é mais novo, mas pelo seu jeito mais raçudo, agressivo, seu físico começou a lhe cobrar mais cedo que ao suíço. Suas limitações aumentavam a cada ano e o espanhol começou a passar longos períodos fora do circuito.

Parecia o fim dos dois, ainda mais com os crescimentos de Djokovic e Murray que passaram a dominar o tênis. Federer e Nadal pareciam passar cada vez mais para nossas lembranças, saudades e nem eles acreditavam mais se enfrentar em um grande jogo.

Mas os Deuses do esporte não quiseram assim e não sei se foi ó último capítulo, mas se foi aconteceu de forma perfeita.

Ver Federer e Nadal jogarem na Austrália como jogavam antes e protagonizarem aquela batalha que parou o mundo nos fez bem. Ajudou que nós voltássemos no tempo, para nossas lembranças, saudades, como se pudéssemos pelo menos por quatro horas voltar a ser o que fomos um dia.

Eu chegara de madrugada da Sapucaí e tinha que dormir porque no domingo tinha mais ensaios. Mas quem disse que eu conseguia? Todos em redes sociais começaram a se cutucar e avisar “Olhem o que aqueles dois insanos estão fazendo na Austrália”. Jogo cheio de reviravoltas, de arte, de força, resistência física e coração. Jogo que durou quatro horas para tristeza nossa porque tudo que queríamos era que o tempo parasse e aquele jogo fosse para a eternidade.

E foi. Federer venceu, contrariou a matemática que lhe chamava de freguês e reafirmou a matemática que diz ser o melhor de todos. Nadal perdeu? Não, não tinha como ninguém perder aquele jogo.

Eu via a partida e lembrava de rivalidades famosas da história. Por incrível que pareça a que veio mais forte a minha mente foi entre Rocky Balboa e Apolo Creed.

Rocky e Apolo fizeram duelos inesquecíveis na saga “Rocky”. Sangrentas, mortais, rivalidade à flor da pele, mas respeitosa. Nos filmes um respeitava o outro e sabia que só era grande por causa do outro. Envelheceram juntos, Apolo ajudou Rocky a voltar ao topo e no fim de “Rocky III” lhe desafiou para uma luta sem juiz nem plateia, só os dois para finalmente verem que era o melhor. Exatamente como George Foreman fez com Ali com os dois já idosos. Foreman ligou para Ali e disse que queria uma revanche da luta no Zaire. Ali ficou alguns segundos em silêncio e perguntou “Você está louco?”.

Os grandes são assim. Querem sempre ser os melhores, querem sempre o topo, mas respeitam aqueles que lhe desafia, aqueles que podem ser tão bons quanto ele e que junto com ele criam uma história, uma saga.

Acho que um dia, já velhos, Federer e Nadal vão se ligar e desafiar uma partida de tênis em algum local de terra batida, ou de cimento porque Federer não é burro e sabe que ninguém na terra vence Nadal, para definirem quem é o melhor.

Essa rivalidade pode chegar ao match point, mas não terá fim.

Para nossos aplausos.

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