O leitor mais antigo do blog deve se lembrar de um texto, às vésperas do primeiro desfile da Portela sob a nova diretoria, onde contei minha história no carnaval até aquele momento. Naquele texto contei um pouco de minha relação com o Império Serrano, que retomo um pouco neste artigo.
Não sou imperiano nem sei o porquê. Fui criado em Cascadura, pertinho de Madureira. Meu pai é imperiano (embora hoje tenha o coração bastante tingido de azul) e a primeira quadra onde pisei, ainda criança, foi a da Ministro Edgard Romero.
Mais tarde tinha um amigo cujo pai era visceralmente ligado ao Império Serrano. Ernesto do Nascimento, carnavalesco. O primeiro desfile que acompanhei mais de perto foi seu inesquecível carnaval de 1996, onde a escola, honrando sua tradição de defender as causas populares, pediu democracia. Pediu contra a fome.
Já tinha sido escolhido pela Águia, mas ao contrário de muitos portelenses da antiga, nunca senti esta rivalidade entre a Portela e o Império Serrano. Talvez pelos novos tempos terem trazido uma relação até de certa forma desigual; ainda que sofrendo com más administrações, a Portela ainda se manteve sempre no Grupo Especial, apesar de uma primeira década deste milênio muito apagada.
O curioso é que lendo a nova edição do indispensável livro da pesquisadora Rachel Valença, percebe-se que as histórias da Portela e do Império Serrano estiveram, em seus primeiros tempos, intimamente ligadas. Posteriormente, nomes como Mano Décio da Viola transitaram entre as duas escolas.
Ainda hoje, muitos portelenses andam entre as duas escolas, muitos imperianos igualmente.
Retomando minha história, acompanhei o “canto do cisne” do carnavalesco em seu belíssimo carnaval sobre Ariano Suassuna, em 2002 – um dos muitos esbulhados pelo júri. Infelizmente, em 2004 coube a mim negociar com a saudosa Neide Dominicina seu velório na quadra da escola.
Nestes oito anos de agonia que o Império viveu no Acesso, minha relação com a escola se estreitou. Destes anos, desfilei em 2010, 2012, 2013, 2015 e 2016. Como escrevi anteriormente, não desfilei este ano por fatores totalmente alheios à minha vontade. Mas me sinto também um pouco campeão.
Mas hoje, em seus 70 anos, é dia de saudar o Reizinho de Madureira. De Silas, Mano Décio, Dona Ivone. De Fuleiro, Dona Eulália, Beto Sem Braço, Aloisio Machado, Jorginho do Império. De Ernesto do Nascimento, Fernando Pinto e Renato Lage. De Arlindo Cruz – que se restabeleça logo.
E, especialmente, meu abraço nestes 70 anos vai para aqueles que não deixaram a escola perecer mesmo tantos anos afastada de seu lugar de direito. Vai pro Reginaldo, pro Vítor, pra Raquel, pro Gil, pro Malta, pra Aline, pra tantos outros amigos imperianos que tenho. São estes que resistiram às intempéries, às más administrações, ao jeito romântico de gestão da agremiação.
Aliás, se fosse oferecer um presente ao Império Serrano nestes 70 anos, seriam duas coisas: uma seria a paz política associada a um modelo de gestão administrativa modelo. O segundo seria a manutenção definitiva da escola no Especial após o desfile de 2018.
Porque se tem algo que a Portela pode mostrar, mesmo sabendo das especificidades de cada agremiação, é que a união de braços jovens com braços experientes, do modelo clássico de carnaval com uma gestão administrativa moderna, permite dar um salto de qualidade. Basta ver como nossos resultados mudaram após a implantação deste modelo.
E sei que o Império Serrano, dentro de sua estrutura orgânica, tem quadros e tem tradição e tem capacidade para retornar ao seu lugar de direito: uma agremiação competitiva, parte integrante da história do carnaval e com totais condições de ter mais 70 anos tão gloriosos como os 70 iniciais.
Porque Madureira é muito mais do que um lugar, é a capital do samba que nos faz sonhar. Seja azul, seja verde, seja azul e verde. É Madureira, é união.
E, como diz aquele samba, “Sou Império, Sou Patente/Só demente é que não vê/do samba sou expoente/abra meu livro que tu sabes ler”.
Receba este abraço fraternal deste portelense que tem um pedacinho do coração em verde e branco. Parabéns!
Imagens: Ouro de Tolo
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Rivalidades só existem porque um lado não vive sem o outro. E mais forte que qualquer birra do passado é esse laço que se criou em Madureira. Quem viveu a última quarta-feira de Cinzas tão intensamente quanto nós, verdes e azuis, sabe que foram legítimas a comoção, a alegria, o orgulho por fazer desse pedaço de chão bem perto de Cascadura, Vaz Lobo, Irajá (e Oswaldo Cruz). O meu, o seu, o nosso lugar.
Exatamente isso, Gil