A Portela sempre foi gigante, a maior das escolas de samba, por tudo que revolucionou no carnaval, seu tempo de vida, e por ser a maior vencedora.
O Império é outro gigante. Escola ousada, inovadora, de sambas maravilhosos, resistência do samba.
Mas, pelo menos pra minha geração em diante, mesmo sabendo de toda história dessas grandes agremiações, a coisa não era bem assim, não vimos ao vivo as duas brilharem.
Eu sou de 1976 e comecei a acompanhar carnaval mais efetivamente em 1985, portanto depois dos últimos títulos das duas agremiações, Império 1982 e Portela 1984. Vi brilhos esporádicos delas, do Império vi 1987, enredo que falava de comunicação, e 1996, com o samba lindo sobre Betinho, e Portela também em 1987, com o emocionante “Adelaide, a pomba da paz”, samba que eu digo sempre que foi o único que me fez chorar até hoje, e 1995 quando, foi vice-campeã merecendo o título.
Pouco, muito pouco para duas grandes escolas. Em 1991 começou um drama para o Império que foram os seguidos rebaixamentos, drama que se agravou no século XXI com a mudança para apenas uma escola ser galgada ao Especial. O Império chegou a vencer o Acesso, subiu e voltou. Depois dessa queda meio que “se acostumou” com a Série A ficando quase dez anos seguidos.
A Portela teve um péssimo começo de século. Nunca me esquecerei de abismado ver o drama da velha guarda em 2005, a mesma chorando barrada de seu desfile. Mas o maior drama estava por vir.
Em 2011 a Portela foi “café com leite” no desfile graças ao incêndio ocorrido na Cidade do Samba. Pior que o incêndio foi a percepção que de certa forma o fogo lhe ajudou já que faltando pouco para o carnaval a escola tinha nada.
A Portela humilhada, de cabeça baixa passou por 2011 e entrou 2012 cheia de problemas, com luz cortada, gente sem receber, um caos que um samba salvou.
Foi em 2012 com o famoso “Madureira sobe o pelô” que as coisas começaram a mudar. Uma galera jovem se uniu para fazer do samba vencedor e depois para tomar as rédeas da escola se juntando a baluartes como Serginho Procópio e Monarco. Ao grupo se juntou o controvertido, mas líder Marcos Falcon e em 2014 assumiram a agremiação.
O Império enquanto isso parecia se acostumar a Série A e para alguns estava cada vez mais próximo da Intendente Magalhães. Chegavam a não citar mais o Império entre os favoritos ao acesso graças a sua conturbada vida política.
Mas as coisas foram mudando…
A Portela a partir de 2014 mudou, começou a pagar suas dívidas e fazer carnaval. Terceiro em 2014, quinto em 2015 quando muitos já lhe viam como favorita e terceiro em 2016 quando podia perfeitamente vencer. A Portela voltava a ser poderosa, temida, era capaz de contratar Paulo Barros, o carnavalesco do momento, e não perder seu jeito tradicional de desfilar, continuava tendo grandes sambas na avenida o que lhe impulsionava.
O Império ano passado começou uma reação. Fez um grande desfile e para muitos devia ter vencido. Começava a consertar um de seus graves problemas que era a parte plástica mantendo seu chão exuberante.
Portela sofreu um baque, a morte de Marcos Falcon. Para muitos era o fim de sua retomada, mas não para quem tinha enxergado que ali já existia uma gestão profissional onde poderes e responsabilidades são divididos.
Falcon faria falta, mas o modelo vencedor já estava enraizado.
O Império ouvia calado darem favoritismo para Porto da Pedra e Viradouro. Perdeu seu carnavalesco Severo Luzardo para a União da Ilha e contratou o jovem Marcus Ferreira.
E veio o carnaval e aconteceu o que aconteceu.
Não é de se espantar a explosão de alegria na quadra da Portela com o anúncio da vitória do Império.
Duas grandes escolas vizinhas de um mesmo bairro que podem e devem sim ter rivalidade, mas são companheiras na dor, no choro. Deram as duas como acabadas, decadentes e chegaram a petulância de dizer que Madureira não era mais a capital do samba.
Pelo menos em 2005 a Portela não pediu para que não tivesse rebaixamento e o Império quando rebaixado pelo menos nas últimas décadas disputou a Série A.
Depois de um carnaval tão triste em vários aspectos pelo menos o fim foi feliz. O mundo do samba aplaude a volta da grande Mocidade e aplaude as duas grandes escolas de Madureira novamente vencedoras.
Madureira chorou como diz a famosa música, mas dessa vez de alegria, de emoção, um choro preso na garganta ao meio de humilhações e tristezas.
As duas campeãs do mesmo dia. Finalmente todas as gerações puderam ver a força de Portela e Império e de algum lugar Clara Nunes, Roberto Ribeiro e outros baluartes aplaudem suas agremiações.
Quem ousa vence.
História não se apaga.
Twitter – @aloisiovillar
Facebook – Aloisio Villar
Parabéns a esse bairro, berço e morada de samba da melhor qualidade!
Madureira só deixará de ser a Capital do Samba se um dia não tiver mais samba. O Horta levou essa no toba e nunca mais vai se recuperar!!!
Boa noite!
Prezado Aloisio Villar:
Difícil não se emocionar com estas suas palavras.
Acho que estamos todos chorando (De felicidade) até hoje com as vitórias de Madureira.
Espero que as duas Escolas se mantenham em seus programas, e passem a colecionar novas vitórias e fãs.
Atenciosamente
Fellipe Barroso
Especificamente sobre o Império acho que desafio tão grande quanto permanecer no Grupo Especial é reconstruir imagem e reputação. Muitas vezes por culpa própria o discurso do “coitadinho” cresceu e contaminou todo mundo. O Império fez uma primeira década de século XX bem decente. Continuou com sambas lindos e bateria premiada. E plástica caprichada em desfiles como Ariano Suassuna, Aquarela e Império do Divino. Nos dois últimos podendo voltar às Campeãs mas sempre julgada como “pecando na plástica”. Virou chavão tão forte que mesmo este ano, 2017, não gabaritou Alegorias (a Viradouro, inferior plasticamente mas tida como “escola rica”, sim). Nos oito anos de Série A (exatamente mesma quantidade de desfiles da União da Ilha no Acesso) jamais flertou com a Intendente. Foram dois sextos lugares, em 2010 e 11, as piores colocações da história imperiana. O “quase” título de 2012 e uma sequencia de terceiros e quartos lugares até o campeonato de 2017. Ou seja, sempre esteve entre as favoritas, na boca pra subir, nunca se “acostumando” ao segundo grupo. Fez pouco, porém, para mudar essa imagem, esse rótulo que ficou praticamente tatuado em sua pele. A escola que tem chão, samba e bateria mas é “feinha”, “pobrezinha”. Fácil canetar o Império em fantasia e alegoria, mesmo quando estes quesitos não estavam fracos. As oportunidades demoram a aparecer. Para Portela, foram três décadas. Para o Império, passou da hora de lembrar a todos e a ele mesmo que o trem de luxo que partia para exaltar a arte e encantar Madureira era ele, o Império, se deslocando pra cidade.
Ótima análise, Gil
Gil o Migao agora concorda com você, mas ele era um que falava em 2014 do Império na Intendente, grande abraço
Parabéns a volta dessas três gigantes do Carnaval do RJ. Portela, Império e Mocidade. Mas não adianta Império e Mocidade voltarem a ser gigantes por um ano. Tem que voltar mesmo. Portela enraizou mais o “conceito vencedor” há alguns anos.
Só falta, em Sampa, Nenê, rebaixado nesse ano, e Camisa (a Império de SP… sempre “pobrezinha”, mas com chão infernal de perfeição) garfada… pois sobrou em relação aos co-irmãs. Quem assistiu confirma. Nenê está perdida na mão desse Mantega. Seu Nenê chora sangue lá do céu.
E parabéns pela coluna, Villar.
Mantega é complicado mesmo…