Quem gosta de futebol já deve ter lido o livro “Febre de Bola”, do escritor Nick Hornby. Nele, o escritor conta com maestria a sua saga durante os 18 anos de jejum do Arsenal até a quebra, em 1989. Especialmente conta a sua agonia no jogo final, ganho nos acréscimos do árbitro.

Cito o escritor para dizer que meu sentimento na apuração do carnaval deste ano foi mais ou menos a mesma coisa. Nunca acreditando, sempre achando que outra escola seria a campeã, até a última nota ser proferida. No caso, a penúltima.

E 33 anos de jejum se esvaíram em uma nota 10. O sonho da minha vida se realizou em uma nota 10. O sonho de todo portelense realizado nas notas do quesito Enredo. O sonho dos integrantes da Velha Guarda realizado em uma nota.

E a cada ano, a cada decepção, a cada derrota, a esperança se renovava. Uma Portela que foi reerguida pela união de braços experientes que viveram os tempos de glória de outrora com os braços jovens de quem queria ver novamente estes tempos revividos.

Não fui à quadra. Como um menino que queria curtir o presente há muito ansiado, queria ficar sozinho, isolado. Até para ver se a ficha caía – e acho que vai demorar a cair. Gritei, chorei, sorri. Me joguei na piscina de roupa e tudo. Bebi um bocado e fiquei bêbado.

De felicidade.

Agora, o patamar passa a ser outro: colher e amadurecer os frutos do trabalho iniciado em 2011 de reestruturação da escola. Avançar mais. O mais difícil foi feito, agora é manter. Curtir o momento, fazer uma grande festa no Sábado das Campeãs, soltar para o mundo o grito preso há décadas na garganta. É campeão.

Não vou citar nomes aqui porque seria injusto. Apenas nosso presidente Luiz Carlos Magalhães, que segurou o rojão após o falecimento do presidente Marcos Falcon e soube conduzir a escola rumo ao título. E ao carnavalesco Paulo Barros, um dos profissionais mais exigentes do carnaval, que soube se adaptar à Portela e adaptar a Portela ao estilo dele. Virei fã.

E uma coisa é certa: todos aqueles que participaram deste processo de resgate, uns mais, outros menos, uns mais visíveis, outros menos, entraram para a história da Portela. Daqui a 50 anos serão lembrados como a diretoria que quebrou o jejum.

Finalizo com uma nota sobre o Império Serrano. Não desfilei este ano por motivos alheios à minha vontade, mas me sinto um pouco campeão também. É bom demais ver a Serrinha de volta ao lugar de onde nunca deveria ter saído.

E a volta ao Especial dará à escola uma oportunidade de se estruturar após longos oito anos no Acesso, com mais dinheiro, mais organização e mais estrutura. Os Fundamentos a escola tem, e demais. A tarefa ano que vem não será fácil, mas o Império tem estofo para encarar e se sair bem nessa empreitada.

É Madureira, é união.

Mas isso pode ficar para depois. O momento é de comemorar bastante a volta por cima da “Capital do Samba”, como Madureira sempre foi conhecida. Apesar de uns e outros ultimamente estarem negando isso, Madureira nunca deixou de ser.

Mais para frente farei considerações sobre os resultados e especialmente sobre os problemas de estrutura no carnaval deste ano. Não agora.

Agora irei comemorar. Ao contrário de Nick Hornby quando da quebra do jejum, não fui miseramente roubado em uma garrafa de champagne barato durante a festa…

Imagens: Ouro de Tolo

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27 Replies to “Nick Hornby e a quebra do jejum da Portela”

  1. Acho que minha ficha não caiu até agora e não sei quando cairá. Sou portelense desde sempre, moro no ES e sempre assisti aos desfiles pela tv. Ano passado fui a Sapucaí pela primeira vez e saí de lá com certeza de que o título seria nosso. Sofri muito com a derrota. Esse ano saí do desfile sabendo que foi um desfile perfeito porém não tão confiante devido a fatores já mencionados por você mesmo. Ontem durante a apuração, ao ver de joelhos nossa águia disputando pau a pau com a Mocidade eu só pensava: “de novo não, de novo não…”
    E não aconteceu de novo! Dessa vez o final foi diferente! Chorei, gritei, fui chamada atenção pelo síndico do condomínio mas estou me sentindo leve e de alma lavada. E a felicidade veio em dose dupla com a vitória da Serrinha.
    Valeu Migão por todas as informações, por cada detalhe dividido nesse espaço.

  2. Parabéns, Migão! Como bem disse o presidente, a vitória da Portela e também a do Império, são fundamentais para o Carnaval carioca e para a cultura do Brasil. E o mais importante, ambas de maneira incontestável. É maravilhoso que a capital do samba volte a ser Madureira. Faz bem para a autoestima de um bairro ultimamente tão constrangido, por conta dos inúmeros casos de violência. São dois patrimônios da nossa cultura, que saibam aproveitar durante todo o ano, capitalizando o sucesso deste Carnaval. E, especialmente, que o Império venha com um samba apoteótico e que termine o barracão com certa antecedência para se manter no Especial.

      1. Mas adiantaria? Eles fizeram isso da última vez e mesmo assim caíram.

        Apesar que parece a melhor opção, pois serviria pra evitar problemas com um eventual samba ruim e o problema que o carnavalesco deles tem em viajar na maionese na concepção do desfile. Ele fez isso nos trabalhos dele antes de 2016. Dessa vez, o enredo favorecia um pouco de viagem.

  3. Parabéns a Portela e Serrinha.
    Os torcedores de Madureira estão em êxtase… já os de Padre Miguel tem sentimentos opostos (acredito eu… pois sou de sampa).

    Mocidade renovada. Mocidade dando mostras de estar colocando a casa em ordem. Liderou quatro quesitos sozinha e caiu no último (seu ponto fraco desde a escolha do enredo). E quem diria que teria um sambaço de um enredo que gerou narizes torcidos no pré carnaval??? CF genial. Fazia alguns anos que a Sapucaí não pulsava numa CF. Estou orgulhoso. Desfilaço. Sou frio em demonstrar sentimentos externos… mas chorei internamente. Minha escola parece estar de volta.

    Já a UPM foi de cortar o coração. Melhor desfile de longe… mas que se esvaiu num incidente (que virou acidente, pois a PB se machucou feio), contudo os deuses do carnaval preparavam o regresso de uma gigante. UPM nessa maré de organização deve vir forte novamente em 18.

    1. A Mocidade provavelmente perdeu pontos em Enredo pela inversão de uma ala com o segundo casal na ordem do desfile.

      1. Concordo. Estava acompanhando vocês no twitter e lembro que comentaram. Mas, sinceramente, nem Portela e Mocidade mereciam quatro notas 10 nesse departamento. Apesar de meio bobinho o enredo da SC foi bem encaixado (ganhou estandarte inclusive) e Salgueiro idem. Só daria 10 para esses dois.

        E SC apanhou bastante injustamente em alegorias, enredo (se me lembro bem perdeu pontos) e fantasias. Absurdo. Jurados há muito tempo vem julgando alegorias e adereços pelo gigantismo e não por adequamento ao enredo e acabamento. (SC merecia 4 notas dez ou 3 notas 10 e um 9,9 – o que gabaritaria o quesito -). Se fosse tradicional seria protegida, mas como é pequena, e até certo ponto irrelevante para a mídia, apanha de cinta sem merecer.

  4. Há uns 15 anos não tínhamos a Globo mandando gente para Padre Miguel e nossa quadra mostrada, ao vivo, pro Brasil. Esse sentimento de grandeza estava esquecido. Eu colocava a Mocidade em quinto (com esperanças de um quarto em virtude da Beija-Flor), porém ela poderia correr por fora e disputar o título (ocasionalmente dependendo dos erros não mostrados pela TV – que transmite de maneira horrorosa… volta Manchete – e sites/jornais que fazem a cobertura, in-loco, do carnaval ou mesmo de bizarrices dos jurados). Fazia tempo que não sentia o prazer de tantos 10 no carnaval carioca (sou Vai-Vai e 10 é bem comum para nós em Sampa -). Lembra que até o quarto quesito (16 notas) tínhamos 11 “notas 10”. Comecei a sonhar quando os nossos quesitos mais fortes (samba e comissão chegaram).

    1. Eu pessoalmente não daria à Mocidade o vice campeonato, mas acho que é um resultado importante até para resgatar o orgulho de seus componentes e torcedores.

      1. Perfeito. 4ª colocação seria o mais condizente com o desfile (olhando pela TV tive essa sensação). Mocidade pecou um pouco em fantasias e alegorias (e não recebeu punições severas aqui).

        Eu tenho um termômetro pessoal para desfiles (levando em conta quesito a quesito e melhor no geral). E nisso classifico como: Perfeito (impecável e apoteótico), excelente, ótimo, bom, mediano, ruim e péssimo.

        Melhor no geral acho que é unânime. Para mim a Mangueira sobrou em relação as co-irmãs. Foi bem acabada, bom samba e levantou até defunto (ajuda o fato de ser querida por todos – mesmo quem não torce por ela – além de ter, disparadamente, a maior torcida – Vai-Vai é um caso parecido aqui, pois quando faz um ótimo desfile a arquibancada o transforma em excelente em virtude de fazer pulsar -).

        Porém no quesito a quesito não merecia o campeonato, pois errou muito em evolução (perder só um décimo foi sacanagem com a minha cara – e Tijuca perder só o que perdeu foi uma cusparada -). Acho que com os erros da Manga a disputa pelo título ficou bem clara: Portela e Salgueiro (Portela com vantagem no samba e fantasias, para mim, Salgueiro no enredo e harmonia) com muito equilíbrio. Mangueira correndo por fora.

        Mocidade e Beija-Flor (dependendo de como fosse vista pelos jurados) brigando com a Grande Rio, por fora, pelo quarto lugar. Para mim a Ilha estava sendo a quarta até o quinto carro (quando começaram os problemas). Carro passou desligado, ou parcialmente desligado, fora os problemas que teve com o eixo. Acabou com a evolução e harmonia das alas que vieram atrás dele.

        1. Vixi. Estava com o CTRL C e V ligado aqui (tinha postado um texto grande argumentando, mas me distrai na hora da cola e deu erro). Favor deletar esse erro abaixo (estava discutindo num site de mídia esportiva qual seria meu cardápio para amanhã). KKKKKKKKKK…

          E concordo contigo. Tinha escrito umas 15 linhas de argumento que foram pro saco com a distração. Então… sintetizando, Mocidade, para mim, ficaria em quarto lugar. Seria da Ilha… mas os problemas, no final, mataram sua vaga nas campeãs.

          1. Feito rs

            Uma das únicas certezas do carnaval, todo ano, é que a Direção de Harmonia da Ilha vai fazer lambança. Impressionante e triste a regularidade.

  5. Do meu ponto de vista não tivemos um ano de bom desfiles. E não apenas pelas tragédias não, mas pela criatividade, inovação, originalidade, enfim. Portela venceu com um Paulo Barros que não era aquele que conhecíamos, meio burocrático, certinho. Mas vimos a Portela como a conhecemos. Mas nada ainda supera o carnaval de 1995 da escola que era muito mas muito Portela, com muito mais garra. A Comissão de frente era ruinzinha, roupa feia, coreografia idem, mas enfim, minha impressão. De qualquer modo os jurados viram algo bom alí, mas acho que merecia mais pontos perdidos. Minha escola Mocidade, tinha a única coisa surpreendente num ano nada surpreendente de desfiles: Comissão de Frente. Perfeita em concepção, leitura e realização. Mas ainda assim, somos acostumados a uma escola ousada e arrebatadora- talvez vítimas do resquício da era Lage que ainda nos dá saudades e devemos superar. Mangueira, bonita mas cheia de problemas. Beija Flor vou julgada pela bandeira. Se fosse outra escola, só em fantasia, tinha perdido muito mais pontos. Salgueiro meio burocrático e sem empolgação. Grande Rio sempre sempre sempre beneficiada. Isso há anos, onde enredos pavorosos são sempre revertidos em notas altas. Enfim, ganhou (Portela e Mocidade) quem menos errou. Acima delas não tinha ninguém pra superar. Com um pouco.mais.de dedicação, Mangueira e Salgueiro talvez adiassem o sonho portelense. Mas já vimos não ter sido assim. E estou Felicíssimo com minha escola e com a Portela, cuja quadra sempre frequentei. Parabéns Migão.

  6. Migão, parabéns a você e a todos os portelenses que esperaram tanto tempo por este título em voo solo. Não foi um ano apoteótico – e por todos os acidentes e virada de mesa não poderia ser – em termos de qualidade de desfiles, mas isso não tira o peso e a representatividade da conquista. O presidente Luis Carlos Magalhães foi muito feliz quando falou em vitória do samba. É isso mesmo. O mesmo valendo para a Série A. Unidos vinha, como quase sempre, para ganhar. E, como sempre, acabou perdendo. Faz parte do jogo. O Império também fez seu trabalho direitinho, quesito a quesito (o mapa de apuração é de uma regularidade incomum no passado recente da escola) e está de volta pra casa. Mas, valei-me meu Padinho, Oxalá, Nossa Senhora,…Reedição, NÂO!!!!

    1. A Unidos fez o melhor desfile do Acesso desde “O Dono da Pedra”. E teria vencido se os critérios dos julgadores fossem os mesmos do Especial. Tendo isso ocorrido, justa vitória do Império.

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