Nas últimas semanas, a má fase do Botafogo no Campeonato Brasileiro tem ganho certo destaque na mídia esportiva. Eu tenho lido e visto muita coisa que discordo e por isso pensei em escrever esse texto.

Quem me conhece pessoalmente ou já leu esse espaço aqui sabe que sou jornalista e botafoguense. E é com base principalmente nessa segunda característica que quero opinar, como uma torcedora que assistiu à quase todos os jogos da equipe no ano.

E aí já começa a primeira questão. Muita gente fala sobre o Botafogo (e sobre outros clubes também) sem acompanhar os jogos. Às vezes, nem consegue olhar os gols da partida. A opinião do torcedor que acompanha todos os jogos (seja no estádio ou pela TV) é diferente e não deve ser menosprezada.

Pelo contrário. Ele é um apaixonado sim, e – como todo mundo que ama-  comete suas besteiras, é claro. Mas o torcedor fanático pelo seu clube tem uma opinião tão importante quanto a dos especialistas porque ele assiste tudo: sabe quem está rendendo, quem está mal, quem fez gol, mas não jogou nada…

O Botafogo tem problemas que são conhecidos de todos. Vou tentar elencar alguns deles:

A folha salarial do Botafogo é baixa. Com a maior dívida do Brasil, o Botafogo tem muitos problemas financeiros que obviamente se refletem no futebol. Quem tem pouco dinheiro precisa ser mais criterioso na hora de contratar e a margem para o erro diminui. Sem dinheiro para investir, o clube não pode contratar os jogadores que realmente gostaria. Precisa garimpar bem.

E quando acerta, um clube sem dinheiro muitas vezes vê um adversário com mais poder econômico levar o seu jogador. Vide os casos recentes de Willian Arão, Diogo Barbosa, etc. Quando o jogador começa a ter algum destaque, o Botafogo não consegue competir financeiramente com outros clubes. E um acerto dessa atual diretoria é não fazer loucuras. O Botafogo paga quanto pode pagar. Não dá para ter salários milionários se o clube não pode arcar com eles.

O Botafogo perdeu muitos jogadores durante a temporada. No início do ano, a grande questão era se Camilo e Montillo podiam jogar juntos. Nenhum dos dois ficou. Camilo mostrou-se insatisfeito com a reserva e foi negociado com o Internacional. Montillo, depois de sofrer várias lesões, decidiu se aposentar (e agora quer retornar a carreira em 2018). O clube também perdeu Sassá, negociado com o Cruzeiro e Airton machucado, por exemplo.

E ainda teve uma infelicidade: Roger, artilheiro do time, teve um tumor diagnosticado no rim e precisou se afastar dos gramados. Nas saídas de Camilo e Sassá não vejo o clube com uma grande parcela de culpa. Os jogadores estavam insatisfeitos e, em um clube com orçamento limitado, não dá para bancar atletas insatisfeitos que não queiram permanecer. Dá sim para amarrar o contrato melhor, mas aí é outra história.

A reposição não foi à altura. No meio da temporada,  o Botafogo trouxe Marcos Vinícius (na negociação com o Cruzeiro pelo Sassá), Arnaldo (porque os três laterais direitos do elenco se machucaram), Brenner (na negociação com o Inter por Camilo) e Leo Valencia (que ainda não mostrou ao que veio).

O Botafogo está desgastado fisicamente. O clube começou a ter jogos oficiais já no fim de janeiro. Mal deu tempo de treinar. E no dia 1º de fevereiro já tinha um duelo decisivo pela Pré-Libertadores contra o Colo Colo.

Se você não estiver por dentro do campeonato e ler todos esses problemas, pode achar que o Botafogo teve resultados ruins na temporada. Não foi o caso. Chegou à semifinal da Copa do Brasil, eliminou cinco campeões da Libertadores até perder para o Grêmio nas quartas e está em sétimo no Brasileiro.

“O Botafogo foi longe demais”. É verdade. Isso pode até ter acostumado mal o torcedor. Mas a marca desse ano no clube de General Severiano foi a superação e a entrega. O Botafogo já tinha todos esses problemas que descrevi aqui na Libertadores por exemplo. Fez um ótimo primeiro tempo contra o Grêmio em Porto Alegre. Podia ter vencido, mas perdeu, faz parte. Mas naquela eliminação o sentimento do torcedor era de orgulho. O clube foi derrotado sim, mas jogando um bom futebol e “se doando ao máximo”.

Hoje, o torcedor não vê o time com a mesma entrega. A impressão que dá é que tem gente já pensando em 2018. E o gesto de Bruno Silva, justamente um dos que mais “se doou” no primeiro semestre feriu demais a alma do torcedor. Quem acompanha os jogos da equipe já percebeu que o volante não tem conseguido repetir as mesmas atuações do início do ano. E ao ser substituído gesticulando como “se já estivesse indo embora”, como se não se importasse mais, o volante – que negocia com o Cruzeiro –  virou alvo da torcida.

Outra questão que ajuda a entender a má-fase do clube tem a ver com a proposta de jogo da equipe. O Botafogo se acostumou a jogar em um esquema fechadinho com 3 ou até 4 volantes no papel (na prática bem longe disso). Dava a bola para o adversário e explorava os contra-ataques. A tática ficou “manjada”. Os adversários passaram a saber como bloqueá-la e jogadores importantes no primeiro semestre como Rodrigo Pimpão caíram muito de nível.

Hoje, o Botafogo não tem um plano B caso sua estratégia inicial de jogo não dê certo. E com elenco enxuto, as substituições são quase sempre as mesmas e não funcionam: “Entram Guilherme e Vinícius Tanque no ataque e Gilson improvisado no meio”.

Nas últimas seis rodadas quando o clube deveria, em tese, arrancar para garantir a vaga na Libertadores, o clube despencou: apenas uma vitória, dois empates e três derrotas. As três em casa. Incluindo o lanterna Atlético-GO. As vaias em jogos em casa viraram uma constante. O torcedor tem sim o direito de vaiar se não está satisfeito e se a equipe não consegue atuar bem em seus domínios. Ele pagou o ingresso. Tem direito de estar chateado.

Muitas vezes a gente ignora o sacrifício que os torcedores fazem para acompanhar seu clube de coração. É engarrafamento, transporte lotado, ingresso caro, horário ruim. E aí quando o clube perde, o torcedor se lembra disso tudo e dos problemas que têm em casa ainda e não aguenta. Lá vem a vaia.

Por fim, o torcedor se lembra que o clube não conquista algo relevante no cenário nacional há 22 anos.  Dentre os clubes considerados grandes, é o maior jejum.

Com todos os problemas que descrevi aqui, certamente a Libertadores não seria uma obrigação. Mas com o clube na zona de classificação desde a vigésima primeira rodada, o torcedor sente que ela pode virar uma decepção depois de um ano que proporcionou momentos mágicos como os vividos na própria competição sul-americana. A vaga pode até não vir, mas o torcedor não aceita que uma equipe que se destacou o ano inteiro pela entrega desista tão fácil justamente no final.

Imagens: Felippe Costa/Globoesporte.com, Ricardo Moraes/Reuters, Reprodução e Guito Moreto/Agência O Globo

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