O vídeo, juntamente ao quesito bateria, está aqui:
Encerramos assim mais esta temporada da Justificando o Injustificável analisando separadamente cada um dos 45 cadernos de julgamento do Grupo Especial.
Creio que esta sexta temporada marca uma nova fase deste trabalho. Além do novo formato que aliou texto e vídeo no canal do Blog Ouro de Tolo no YouTube, tive a oportunidade de conhecer pessoalmente e conversar com alguns julgadores, podendo entender melhor certas pequenas dificuldades do trabalho para a qual não nos atentamos mas que podem causar impacto no resultado final do caderno de julgamento. Admito também que esse novo formato acabou por alongar demais a série, que só está terminando 5 meses após a divulgação dos cadernos. É um ponto que será revisado para 2023.
Tendo feito essa pequena auto avaliação, como de costume esta coluna encerra a série fazendo uma pequena avaliação geral e traz uma lista de sugestões para a LIESA visando melhorar o julgamento como um todo. Neste ano esta lista será focada apenas em sugestões gerais, já que as sugestões específicas de cada quesito foram passadas ao final de cada texto e cada live.
Em relação à qualidade do julgamento como um todo, inegavelmente houve uma considerável melhora em relação a 2020, inclusive ajudada pelas, ainda pequenas, mas bem vindas alterações no Manual do Julgador, especialmente em Harmonia. Não só as posições finais das escolas refletiram as prateleiras de força vistas na avenida, como a quantidade de cadernos de julgamento elogiados por esta coluna foi superior à média dos outros anos, talvez até superando o julgamento de 2019. Mesmo a colocação da Tijuca, bastante polêmica durante a apuração, ficou bem justificada após uma leitura atenta do Livro Abre-Alas e dos cadernos de julgamento com os motivos dos variados descontos recebidos pela escola em diferentes quesitos.
Também foi excelente a nova logística para os julgadores. Todos os julgadores com os quais conversei foram muito elogiosos de como a comodidade de ter um hotel de fácil localização para chegar com horas de antecedência do primeiro desfile e este local próximo de descanso com conforto logo após os desfiles os ajudou a guardar energias para o momento mais importante, que são os desfiles em si. A divisão dos julgadores em micro-vans separadas para cada módulo de julgamento também ajudou, poupando bastante tempo e saúde mental no traslado segundo esses mesmos relatos.
Porém, como costumo reiterar, sempre há como evoluir e em relação a esse ponto acho que, aproveitando essa boa logística do hotel, podemos dar um passo à frente e permitir que os julgadores possam escrever o caderno de julgamento e lacrá-lo no centro de convenções do próprio hotel. Conheço bem este local, pois é onde ocorrem as aulas da pós-graduação que estou cursando, e posso afirmar que tem toda a estrutura necessária para tal.
Quando comentei sobre essa minha ideia com os julgadores, houve grande aceitação e vários reforçaram como isso ajudaria a escrever o caderno com mais calma. Afinal, no próprio Sambódromo, o ambiente fica longe do ideal para a tarefa. Porém haverá de se ter algum cuidado com os acompanhantes nesse tempo entre o fim do desfile e a chegada no hotel.
Dependendo do lado da cabine, o sol começa a bater na cara do julgador, dificultando a visão e aumentando o desconforto na cabine por causa do calor, além do barulho do local que ainda fervilha mesmo após o fim dos desfiles. Pior ainda, em alguns casos deixa o julgador exposto a escutar os comentários dos próprios espectadores que desavisadamente conversam muito próximo à cabine de forma que os julgadores conseguem escutar enquanto escrevem seus cadernos. Inclusive este ano isso ocorreu com uma roda de conversa de colaboradores de um famoso site especializado em Carnaval.
Tentando resumir os pontos gerais de cada quesito, mesmo que um ou outro julgador tenha desviado dessa linha geral, começamos com um ótimo julgamento de Enredo, no qual os julgadores foram justos e não pouparam descontos ao quesito mais maltratado do ano pelas escolas. Seguimos para Alegoria e Adereços, que até agora não conseguiu espantar os fantasmas de 2017 e continua sem avaliar de forma mais criteriosa o subquesito Concepção.
Depois veio Fantasias, um quesito que a LIESA precisa intervir com urgência porque já são 3 desfiles consecutivos com problemas graves nele, Em seguida, Comissão de Frente teve um julgamento de altos bem positivos e baixos inversamente proporcionais. Já os comentários recebidos por esta coluna dos próprios profissionais do quesito Mestre-Sala e Porta-Bandeira após a live me criou a impressão que, apesar de aparentemente não haver problemas graves nos cadernos (com uma exceção), está havendo um desencontro enorme entre o julgamento esperado e o obtido. Também é um ponto que talvez demande atenção da LIESA, pois, em síntese, o que eu e Migão ouvimos foi que o solicitado pelos julgadores no “curso-colóquio’ foi o oposto do exigido no julgamento em si.
Harmonia e Evolução tiveram os melhores julgamentos dos últimos anos, mesmo que em ambos os quesitos tenha havido questões polêmicas isoladas que demonstram algumas fragilidades antigas do Manual do Julgador que ainda precisam ser solucionadas.
Samba-Enredo teve uma “tempestade perfeita” e o resultado do julgamento acabou sendo desagradável para o público. Mas, a exceção de um julgador, a culpa não foi da sistemática do julgamento, mas da confluência do subjetivismo dos julgadores que, dentro dessas suas legítimas e embasadas opiniões, fizeram um julgamento correto, mas, no somatório, divergente do pensamento popular.
Por fim, bateria teve um julgamento dentro das possibilidades do som da Sapucaí com a alta qualidade das baterias do Grupo Especial neste momento. A conjunção desses fatores dificulta escrever alguma coisa sobre a quantidade de notas 10 no quesito.
Finalizando esta maratona de 10 colunas e 9 lives em 3 meses, farei uma lista com sugestões para melhorar o julgamento nos próximos anos. Como já escrevi acima, dessa lista constará apenas as sugestões gerais, pois as específicas dos quesitos já foram elencadas ao fim da coluna e da live de cada um deles:
- Criar uma logística que permita aos julgadores uma rápida saída do Sambódromo de volta ao hotel oficial para que nele, com calma e longe do confusão da Sapucaí, eles possam finalizar e lacrar seus cadernos de julgamento com calma. Nesse caso, é possível que a versão definitiva do caderno de julgamento só seja entregue ao julgador no próprio hotel durante a manhã de terça, assim que ele entrar no local designado para a escrita do caderno.
- Deixar expresso em algum lugar do Manual do Julgador que o julgador deve se ater somente ao seu campo visual/sonoro para fazer sua avaliação e justificativa. Apesar de ser algo costumeiro, não está expresso.
- Clarificar no Manual do Julgador que deverá haver maior complacência com o excesso de cores da própria escola nos quesitos plásticos.
- Manter e aprofundar o diálogo criado esse ano entre julgados e julgadores em cada quesito. Se possível, que se inclua os carnavalescos no diálogo com os julgadores de Enredo (esse ano foi apenas com os Diretores de Carnaval) e os compositores no diálogo com os julgadores de samba-enredo.
- Criar um calendário com reuniões posteriores com os julgadores para fornecer um feedback do trabalho por eles realizado e receber o mesmo feedback dos julgadores sobre as dificuldades que eles tiveram para realizar seu trabalho. Essa conversa também pode servir para entender melhor eventuais ocorrências inusitadas que poderão se tornar base para melhorias futuras do sistema de julgamento.
- Verificar a ausência de julgamento em qualquer dos nove quesitos da conexão artística entre alegorias e fantasias. Hoje, mesmo que elas sejam totalmente desconexas artisticamente, não há nenhum quesito que puna isso.
- Considerar a possibilidade de se convidar para o Corpo de Julgadores pessoas que vivam ou conheçam a realidade das escolas e dos desfiles, mesmo que já tenham tido laços anteriores com alguma escola.
Agradeço a todos que acompanharam esta nova fase da Justificando o Injustificável em 2022 e em especial aos julgadores que aceitaram o convite de me conhecer e conversar. Tenham a certeza que suas experiências gentilmente compartilhadas comigo foram fundamentais para a realização desta série e o conhecimento que adquiri com vocês mudou completamente minha visão dos julgadores e do julgamento e será uma nova base para as futuras Justificando o Injustificável.
[N.do.E.: como ficou claro no programa sobre o quesito, considero que o julgamento de samba enredo posicionou a ideia de que, no mundo do samba, absolutamente ninguém entende de samba enredo a não ser os quatro jurados. Esta me parece uma visão um tanto quanto estreita, ainda mais quando os sambas, em minha análise, foram julgados claramente com rigores diferentes. PM]