Resumir uma eleição a um debate de ideias e propostas entre candidatos com diferentes linhas ideológicas para que o eleitor assim possa escolher aquele mais preparado para governar nos próximos quatro anos é de uma inocência comovente. Qualquer corrida eleitoral, seja ela para presidente ou para prefeito da menor cidade do Brasil, é, na verdade, uma busca incessante por votos. É, em suma, um desfecho e um resumo dos três anos e nove meses anteriores à campanha. É o momento no qual os candidatos escrevem o que não pensam, abraçam quem não gostam e falam o que não querem.

Por tudo isso, não me espanta nem um pouco a verdadeira praça de guerra que virou a disputa pela presidência da República. No segundo turno, Aécio Neves e Dilma Rousseff resumiram o debate – seja ele propriamente dito ou em comícios, propaganda na TV e na internet – em uma troca de acusações, muitas vezes pessoais, que sempre acabam caindo no tema corrupção. É aeroporto pra cá, petrolão pra lá, privataria de um lado, mensalão do outro, enfim, uma baixaria só. Para quem olha de longe ou de maneira menos atenta, parece mesmo um absurdo, um escárnio que evidencia o quão podre é a nossa política.

Menos, bem menos.

Sinceramente, o baixíssimo nível dos debates não simboliza em nada o que é a política brasileira, assim como não simbolizaria se fosse um debate repleto de ideias e propostas. Se quer saber o que os políticos pensam sobre qualquer coisa, fique de olho no que eles dizem fora da campanha. E, ainda assim, com certa cautela porque todos eles já ficam de olho no pleito seguinte. O que é muito natural e humano, aliás (e está longe de ser uma exclusividade brasileira). O eleitor é um alvo a ser atingido, quase um consumidor de determinado produto com várias opções no mercado, e, para isso, é necessário entender o que ele quer. E, eu sinto muito, mas o eleitor pediu porrada. O eleitor quer porrada. Pode não saber disso, mas quer. Duvida? Eu podia citar o sucesso dos ataques de Collor a Lula em 1989, mas prefiro relembrar essa corrida presidencial de 2014 mesmo.

aeciodilma2Ainda que o governo Dilma não tenha exatamente caído nas graças da população brasileira, as pesquisas que precederam a corrida eleitoral indicavam uma reeleição até um pouco tranquila da presidente, talvez até no primeiro turno. A oposição parecia vir com o mesmo projeto rejeitado em 2002, 2006 e 2010 e a terceira força, Eduardo Campos, não parecia ter condições de ser mais que uma terceira força no momento. Quando o governador de Pernambuco morreu na queda do avião, tudo virou de cabeça para baixo.

A substituta, então candidata à vice, Marina Silva, iniciou sua campanha empatada com Dilma no primeiro turno e vencendo a presidente no segundo. Aécio ficou escanteado, em terceiro. Marina tinha uma força muito grande para angariar votos, mas era muito frágil para segurá-los. Tinha pouco tempo na TV, fazia parte de um partido sem expressão e teria de enfrentar dois gigantes. Foi aí que o PT achou o caminho para combater a febre Marina: levar o eleitor a rejeitar a candidata. As muitas eleições que se passaram no Brasil já indicaram que, muitas vezes, o eleitor vota por exclusão e, assim, o candidato menos rejeitado leva vantagem. Dilma, com índices astronômicos entre os rejeitados, precisava fazer da candidata do PSB o alvo da pancadaria.

E assim foi feito. A campanha começou a desconstruir a imagem de Marina apontando suas ligações com alguns personagens que defendem medidas pouco aceitas pela população, como a independência do Banco Central, e também suas contradições enquanto política. Aí vem a parte em que fica claro que o eleitor quer ver sangue. Já nas primeiras semanas depois dessa estratégia, os índices de rejeição de Marina começaram a subir, freando assim seu crescimento. Qual o recado que a população passou para o PT? Vai em frente, porrada nela.

E o Aécio? Lembra dele? Estagnado em 15%, ele ajudou Dilma nessa estratégia, mas por um caminho diferente, levando assim outra parte do eleitorado a preferir ser governada pelo diabo que por Marina: batendo na tecla de que ela, de nova política, não tinha nada. Só que Aécio teve também de atacar Dilma para dizer, assim, que ainda estava no páreo. O recado era claríssimo. Enquanto as duas se engalfinhavam, ele mostrava os podres de ambas e dizia: “você não precisa escolher uma ou outra, eu tô aqui ainda”. Como se sabe, deu muito mais que certo. Ele tirou voto de Marina, tirou voto de Dilma e foi com folga para o segundo turno. É claro que parte dessa virada se deu por uma mudança de postura, por um novo PSDB que foi apresentado, mas a tática de criticar pesadamente os adversários também foi muito bem sucedida.

Quando Dilma e Aécio foram para o segundo turno, a expectativa era por um debate ideológico. Eu mesmo disse isso aqui no Ouro de Tolo. Errei. O debate é, como se sabe, uma baixaria só. O horário político parece programa policial e os comícios são verdadeiros shows de rancor e ódio. Mais uma vez, isso não passa de um recado dado pelo eleitor e entendido pelos marqueteiros.

Quando as primeiras pesquisas mostravam um empate técnico entre a petista e o tucano no primeiro turno, o sinal de alerta foi aceso no PT. Com um percentual enorme de eleitores que declaram voto “com certeza” nos dois candidatos, a disputa seria decidida através dos indecisos, pois dificilmente alguém vai pegar o voto do adversário. E, aí, o PT saía em desvantagem por alguns motivos: a delação do Paulo Roberto Costa no caso Petrobras (que acabou fazendo menos barulho que o normal, diga-se), o apoio de Marina à Aécio e, principalmente, o astronômico índice de rejeição de Dilma, que já batia os 44% contra 34% de Aécio.
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Por esse cenário, o PT tinha apenas uma estratégia para tentar reverter um quadro delicadíssimo: bater sem dó, nem piedade em Aécio para aumentar a rejeição do tucano. Assim, os indecisos, e até um percentual pequeno dos eleitores que Aécio já tinha, mesmo que não votassem em Dilma, poderiam deixar de votar no tucano. Em uma votação que tem tudo para ser apertada, transformar o voto no oponente em nulo é uma vitória e tanto. O resultado é que a campanha do PT virou uma baixaria só, enquanto Aécio teve de  abdicar da campanha “onda da razão” do primeiro turno para se defender. Até então, parecia conveniente tentar manter um certo nível na campanha e escancarar o desespero dos petistas. Não era preciso, acreditava sua campanha, devolver ataques, acusar. Manter a linha de criticar a gestão atual e mostrar que havia uma clara tentativa de desconstruir a imagem de Aécio a qualquer custo, parecia suficiente.

Aí vieram as pesquisas do Datafolha e do Ibope, que indicaram uma estabilidade completa nas intenções de voto mesmo em semana de apoio de Marina ao PSDB e delação de Paulo Roberto Costa contra o PT. Por outro lado, a rejeição de Dilma havia caído de 44% para 42% e, a de Aécio, subido de 34% para 38%. Era filme repetido: ainda que dessa vez os métodos usados fossem mais rasteiros – muitas vezes usando da mentira -, o PT havia conseguido o primeiro passo para virar o jogo como havia virado com Marina. Depois do aumento da rejeição, viria, naturalmente, a subida nas pesquisas.

É aí que entra o papel do eleitor na baixaria que virou a corrida presidencial. Os levantamentos disseram claramente: ou Aécio vai para cima, ataca e rebaixa o nível da conversa, ou será facilmente derrotado, como foi Marina Silva. Só que, no primeiro turno, Dilma tinha 11 minutos de TV contra dois de Marina; tinha uma coligação com militantes e correligionários espalhados pelos quatro cantos do Brasil contra um partido mambembe com alguma força no Nordeste; tinha uma campanha formada por profissionais dos mais competentes contra um pessoal que fazia uma besteira atrás da outra e não soube esconder o desespero pela queda nas pesquisas. Marina, como eu disse, era frágil. Aécio, não. Com os mesmos 10 minutos na TV, uma coligação forte que, com os apoios dos derrotados no primeiro turno se tornou maior que a de Dilma, e um desempenho muito melhor em debates, o PSDB é um inimigo mais poderoso.

E um inimigo mais poderoso e mais bem armado. Aécio captou o recado e adotou uma postura bem mais agressiva. Usou palavras mais fortes, perdeu a paciência com a adversária, passou a imagem de que queria discutir propostas, mas não teve saída. Acusou o PT, acusou Dilma e, no confronto direto, mais seguro, levou a melhor. No debate da Band, ainda no que podemos chamar de “Aecinho paz e amor”, foi surpreendido por Dilma. No do SBT, já com sangue nos olhos, triturou a adversária. O público não gostou da baixaria, grita aos quatro ventos que está desapontado com o baixo nível, mas certamente dará uma resposta positiva a ele, para algum dos lados, no próximo levantamento.

Além do mais, a tendência é que esses ataques sejam cada vez mais direcionados a assuntos que tem bastante influência para os indecisos. De acordo com a pesquisa do Datafolha, 67% de quem não sabe em quem votar são mulheres; 48% têm apenas o ensino fundamental; 65% têm mais de 35 anos; 61% moram no interior. É, como se vê, um eleitorado mais conservador, mas fora do estereótipo conservador de eleitor do PSDB. É um conservador apolítico, praticamente. Será que agora soa tão absurda a tática do PT de lembrar o caso da recusa de Aécio a fazer o teste do bafômetro em uma blitz da Lei Seca, lá em 2011? Será que se torna tão inacreditável a insinuação de que ele agrediu uma mulher? Pode continuar sendo o cúmulo da falta de bom senso, mas está longe de ser uma surpresa. E, volto a dizer, fomos nós eleitores quem pedimos.

Na última semana, vai valer de tudo. Não vai ser hora para se ter escrúpulos, cordialidade ou espírito esportivo. Se o PT tiver que dizer que Aécio é cheirador de cocaína, dirá. Se o PSDB tiver que acusar de Dilma de roubar bancos durante a ditadura militar, o fará sem pensar duas vezes. Se um dos dois tiver que chamar o outro de ladrão, mentiroso e mau caráter no debate da Rede Globo, chamará. Quanto mais acirrada a Eleição e quanto menos eleitores se tem a perder (ou seja, quanto maior o número de votos “com certeza” em um candidato), mais livres os marqueteiros ficam para partir para o MMA verbal – se o físico desse voto, eles certamente entrariam em um ringue.

De acordo com o Datafolha, mais de 8,5 milhões de brasileiros não sabem em quem votar no próximo domingo. Esses, provavelmente, chegarão às urnas desgastados, cansados e tristes com o nível dos debates que decidiram seu voto. Mal sabem hoje que sua indecisão é causa e não consequência da baixaria. Sabem menos ainda que é a partir do primeiro dia de 2015 que o verdadeiro debate começa. Verdadeiro, mas com cautela. Daqui a pouco já estamos em 2016 e já vai ser hora de estufar o peito para dizer o que, no fundo, se acha uma grande bobagem e, principalmente, de fazer acusações que sequer precisam de evidências para tomar de assalto a discussão. E também de ser acusado, mas, nesse caso, vale o ditado: a melhor defesa é sempre o ataque.